Sentido deste mandato

                                                 O  SENTIDO DESTE  MANDATO

(19.02.01) 

Helena Barros Heluy

         Não é sem muita emoção e outro tanto de entusiasmo que chego a este plenário e a esta tribuna. E peço licença – Senhor Presidente, Senhores Deputados e Senhoras Deputadas – para buscar em minhas lembranças maiores as razões dessa emoção e desse entusiasmo. 

         Nascida na querida Barão de Grajaú, no médio Parnaíba, trago para esta Casa, ainda bem vivo, o sentimento  daqueles que, naquela região, marcaram a saudável rebeldia da história política do Maranhão, em seus momentos mais fortes do último século. Primeiro: rompendo com o vitorinismo, no final dos anos 40, para, depois, fortalecer, de lá do agreste sertão maranhense, a luta das verdadeiras oposições coligadas, cuja eclosão maior se dá com a greve de 51 contra a corrupção eleitoral, que já era o grande flagelo para todos que se contrapunham à opressão e à injustiça social, deflagradas pelos poderosos daquele tempo.

         Trago, também, os grandes sonhos de liberdade, justiça e democracia que moveram e alimentaram os estudantes, professores, jornalistas, advogados, trabalhadores do campo e da cidade, religiosos, políticos comprometidos com a luta do povo, homens e mulheres que, por esses sonhos, sofreram toda a sorte de atrocidades  praticadas pela ditadura militar, direta ou indiretamente.

         Não posso deixar de proclamar que me acompanha e me dá sustentação a memória de tantos com quem convivi, cujas vidas constituem exemplos das melhores lições aprendidas ao longo do tempo, no que tange ao respeito, autenticidade, caráter, responsabilidade, simplicidade e seriedade – sobretudo no trato da coisa pública.    A propósito,  presto, nesta minha despretensiosa declaração de princípios, as minhas homenagens a todos esses, na lembrança indelével de meu pai,  Ranulfo Barros, o telegrafista que somente se afastou de seu trabalho para exercer o honroso encargo de deputado constituinte de 1947, impregnado de todas aquelas virtudes que parecem desaparecer, hoje.   Começa, ali, a minha vivência, aos 5 anos de idade, nesta Assembléia, conduzida pelas mãos daquele mestre da desambição e da coerência.

         Comporta, neste elenco de lembranças, trazer a este plenário, nesta hora que é, para mim, extremamente solene e importante, todas as lutas contra as discriminações de gênero. A mulher brasileira, estupidamente discriminada, ao ponto de ser considerada nem sempre absolutamente  capaz pela legislação, encontrou, também, exemplos importantes de coragem,  resistência, altivez e muita competência, inclusive em terras do Maranhão.  Orgulho-me por poder declinar haver conhecido e privado da amizade de mulheres do porte de Noca Santos e Maria Aragão às quais rendo, também, minhas homenagens. Os pesquisadores devem à História o registro e o devido destaque desses dois exemplos da bravura feminina, principalmente por haverem sabido tão bem quebrar  muitos preconceitos, até mesmo no mundo da política.

          Não posso deixar de assinalar, entre os marcos de minha vida, os meus compromissos com minha comunidade de fé, pela força sacramental do Batismo. Pertenço, conscientemente, a uma Igreja que declarou, na Assembléia dos Senhores Bispos da América Latina, em Puebla, em 1979,  sua opção preferencial pelos pobres, reafirmando, assim, todo o magistério já proclamado muito antes pelo próprio Jesus, principalmente no Sermão da Montanha. Aprendi, inclusive, através d’Ele, que os mais felizes são “os que ouvem a Palavra e a põe em prática”.

        Esta prática é o grande desafio. Ela nos impele a romper com toda estrutura iníqua de Poder, sem fazer concessões, sem transigências.   Ela nos impulsiona a uma ação transformadora da sociedade, a partir do próprio testemunho de vida nas realidades concretas.  Por isso, o papa Paulo VI, ainda em dezembro de 1975, no documento A EVANGELIZAÇÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO, nos exorta a atingir, como que a modificar os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida, que se apresentam em contraste com a Palavra.

         O parágrafo 1º do art. 86 do Regimento Interno desta Assembléia me informa que a “Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a Mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”.  Esse dispositivo me faz crer que os critérios de julgamento, os valores que contam, os modelos, os centros de interesse, as linhas de pensamento e as fontes de inspiração que permeiam o agir desta Casa deverão estar em perfeita sintonia com o conteúdo do livro que está sobre a mesa dos trabalhos.   Caso contrário, não passaria de simples adorno, o que não terá sido o pensamento de quem propôs tal regra para este Parlamento.

         A par dessas considerações, acrescento, ainda, que o mandato que ora inicio pretende  dar voz aos  milhares de maranhenses que clamam por seus direitos elementares, como à saúde, educação, terra para morar e trabalhar, salário justo, segurança e vida.  Vida digna e em abundância.   Para tanto, este mandato será fundamentado nos princípios da transparência e participação popular, indo buscar nos movimentos sociais, nas pastorais e na indignação de tantos a essência para que seja, realmente, um instrumento de democratização.  Quero poder ser o elo, o ponto de ligação, o canal, entre a sociedade organizada e o Legislativo para exercer, em sua plenitude, o poder fiscalizador e elaborar leis justas, que reflitam o desejo da gente maranhense.  Esta é parte da revolução que acalento, que será expressa por meio de denúncias, mas, também, de forma propositiva, pois tenho certeza de que, neste espaço e com o aval de 8.873 eleitores que confiaram em mim, aos quais agradeço, de público e solenemente, é possível  “remar contra a maré”.

         Vivemos em um Estado onde o que se impõe é o mito de um populismo, “vinculado eternamente com o passado como origem”, conforme faz referências a professora Marilena Chauí, isto é, com um passado que não cessa, que não permite o trabalho da diferença temporal e se conserva como perenemente presente.   

         Esse mito, hoje, chamado de “Novo Tempo”, é aquele que não cessa de encontrar “novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo”.

         Para materializar tal afirmação, basta ler o discurso de posse do então governador José Sarney, em 1966, e o da governadora Roseana, em 1995 e em 1999. Qual a diferença, a contradição? A governadora, enfatizando que iria tirar o Maranhão do atraso, apenas criticava seus antecessores, a exemplo de seu pai, em relação ao vitorinismo, a cujo grupo ora pertencia, ora se afastava.   Não há, nem mesmo no “discurso”, distância fundamental entre um e outro.   A crítica é aos administradores do passado e não à estrutura sócio-político-econômica.

         Para exemplificar, bastam os números referentes ao Maranhão, nos últimos 35 anos.

         Matéria publicada no jornal O Imparcial, de 8 deste mês de fevereiro, diz que “a grilagem de apenas três áreas no Maranhão pode superar 1 milhão de hectares.  As ações na Justiça Federal e na Procuradoria Geral do Estado se arrastam há décadas, enquanto terras indígenas podem estar  sendo invadidas.   Famílias sem-terra aguardam por assentamentos e os títulos falsos, fabricados nos Cartórios, são utilizados para venda a fazendeiros do Sul e Sudeste do País ou para conseguir empréstimos bancários”.

         A origem do problema, segundo aquele matutino, é antiga. Assinala, ainda, que, “há quase 30 anos, uma das políticas implantadas pelo governo estadual era estimular a aquisição de terras no Maranhão. O pacote promocional contava, também, com isenção fiscal”. 

         Hoje, estimulados pelo Banco Mundial e articulados com o governo federal, os trabalhadores rurais maranhenses estão orientados a entrarem no programa “cédula da terra”. O Jornal Pequeno, edição de 1º deste mês, em seu editorial, intitulado “Paz Fictícia”, refere-se a esse programa destacando que, no Maranhão, “20% das propriedades adquiridas, em 1999, poderiam ter sido desapropriadas para fins de reforma agrária, 8 das 50 propriedades eram de interesse social. O cédula da terra é considerado como um autêntico balcão de negócios, baseados em suas operações de compra e venda da terra de latifúndio improdutivo, que, à égide da desapropriação, seriam indenizados em títulos da dívida agrária – TDAs, resgatáveis em até 20 anos, passam a ser pagos, em dinheiro e à vista.  O cédula da terra elevou os preços da terra. As desapropriações do INCRA se situaram na faixa de R$82,00 o hectare, enquanto as aquisições pelo cédula da terra atingiram, em média, R$152,00 o hectare.”  

         Isto significa dizer que, além do Maranhão ser um dos Estados da anti-reforma agrária, continua favorecendo latifundiários improdutivos. E mais: segundo a Federação dos Trabalhadores na  Agricultura do Estado do Maranhão – FETAEMA -  como consta nesse mesmo editorial do Jornal Pequeno,  “o número de áreas em conflitos agrários, pelo uso e posse da terra, que era de 72 em 1999, aumentou para 90 em 2000, o que representa uma elevação de 21,06% e conflagrou, intensamente, 54 Municípios, a exemplo de Chapadinha, no povoado Barroca da Vaca”.

              O Maranhão continua com 86,95% das terras cadastradas pelo INCRA sendo latifúndios improdutivos, com apenas 15% dessas terras exploradas na agricultura.

             Em relação à educação, continuamos com os piores índices, tanto no ensino fundamental como no médio e no superior.   O ensino superior tem  o menor número de profissionais de todo  País, segundo o Ministério da Educação.  É o Estado com menos professores portadores de curso superior e apenas 1% de sua população tem o 3º grau.  Além disso, exibe outro dado alarmante:  56.7%  de sua população é analfabeta. 

              E, se não bastasse, o governo do Estado firma convênio com a Fundação Roberto Marinho,  Rede Globo, cuja prática significa a demissão de professores de carne e osso, que serão substituídos pelo ensino virtual, televisivo, pelo vídeo.    Quem vai tirar as dúvidas dos alunos?   A própria tv, ou um super professor? Um super sem ser professor, porque não planeja, não define conteúdos, nem participa das dicussões metodológicas.   Na verdade, essa figura de orientador educacional, como está sendo chamado, é um desestímulo ao verdadeiro professor porque, não dando conta do todo – porque é impossível para qualquer ser humano – a relação dele para com os alunos fica bastante prejudicada.  De acordo com o professor Idevaldo Budião, que esteve, na semana passada, em São Luís, no Estado do Ceará, houve situação em que o aluno desmascarou o OA ou OE, quer dizer, orientador de aprendizagem ou orientador educacional, que não dominava determinada disciplina.   Além disso, esse tele-ensino não parte nunca da realidade concreta onde é aplicado; ele é universalizante e homogêneo.  Isto porque a realidade é um risco;  é preciso, pois, na concepção de nossos dirigentes, não mostrar o que é real.  Esse programa não passa, portanto, de um grande ensino supletivo, mascarado de ensino médio.

           E como se deu, ou está se dando, a qualificação desses professores polivalentes?     Tudo isso, além de ser o Maranhão um dos três maiores Estados fraudadores do FUNDEF…   segundo assinala O Imparcial do dia 9 deste mês.

            No campo da saúde, não há um hospital público novo.     A política da governadora, a mesma do presidente Fernando Henrique, é a da terceirização, ou fechamento dos poucos hospitais que tínhamos.   A polêmica com o governo do Piauí, há cerca de dois anos, se funda, exatamente, na ausência de hospitais no Maranhão e conseqüente aumento de demanda nos hospitais piauienses.  Em 1966, os maranhenses morriam de tuberculose, hoje morrem ainda de tuberculose, mas, também, de hanseníase, febre amarela e tantas outras doenças.

            Apenas para ilustrar:  em 1997, no Maranhão, foram registrados 20 mil casos de malária;  em 1999,  50 mil; em 2000, cerca de 100 mil casos, expandindo-se em mais  de 50 Municípios, com uma média alarmante de 1000 casos por semana.   Os especialistas nessas questões ressaltam que o Maranhão não tem política para as endemias.

            Vivemos em um Estado em que campeia total insegurança, nas ruas, nas praças, nas casas, nas agências bancárias e nas estradas.   Novamente, em um editorial, sob o título “Estradas Esquecidas”, o Jornal Pequeno, de 2 de fevereiro, traça um retrato do que é o Maranhão, quer nas BRs como nas MAs.  Nele, há um trecho que vale a pena ressaltar:  “Já o governo do Maranhão extinguiu o seu órgão especializado em estradas, o Departamento de Estradas de Rodagem –  D.E.R.  O organograma administrativo dividiu o território em 18 Gerências Regionais e colocou, nelas, amigos ou amigos políticos de Roseana Sarney para representá-la.   As residências do D.E.R. desapareceram.  Não há mais engenheiros-residentes examinando e fiscalizando as estradas.  Se um bueiro ou um aterro rompe, não há um profissional específico para diligenciar o seu conserto”.    Assim, os maranhenses zig-zagueiam pelas estradas com velocidade mínima, sendo assaltados e mortos. 

            Momentos de insegurança vivemos dentro e fora dos  bancos.   Não raro, assaltantes, além de roubar agências bancárias, deixam famílias e cidades em pânico permanente.   Recebi, recentemente, do Sindicato dos Bancários do Maranhão valioso relatório em que está assinalada, também, mais esta agrura que enfrenta essa laboriosa categoria.  Pinço, dele, os seguintes números:   Em 1999: assaltos – 17;  tentativas de assaltos – 03;  valor total roubado – 611.375,00 reais.   Em 2000:  assaltos  -26; tentativas de assaltos – 02; valor total roubado – 4.173.400,00 reais.  Em 2001  (resultados parciais):  assaltos – 06; tentativas de assaltos – 02; valor roubado – 411.000,00 reais 

           Por falar em insegurança, os últimos acontecimentos nos remetem a uma reflexão sensata e séria com relação ao ser humano.   Refiro-me à rebelião dos internos em Pedrinhas, dos dias 20 e 21 de janeiro.   De plano, coloco-me à disposição para  dirimir qualquer dúvida acerca de meu entendimento sobre o sistema carcerário do Brasil e, em especial, de meu Estado.

          O complexo penitenciário de Pedrinhas foi construído no início dos anos 60, com capacidade original para 300 internos, aproximadamente.  Em 1993, o prédio foi ampliado, com a construção do chamado Anexo,  comportando, a partir de então, cerca  de 450 recolhidos.  Acontece que, hoje, estão, ali, mais de 1000 pessoas, vivendo em condições sub-humanas. 

          A rebelião, ou motim, foi em razão dessa situação.  Foi uma rebelião bárbara.  Mas o intuito da maioria daquelas pessoas, daqueles seres humanos, era atingir a sensibilidade das autoridades  apenas para melhores condições de vida, para denunciar a prática da delação, do “dedo-duro”, em troca de privilégios para alguns.  A propósito, o objetivo legal dessas casas  prisionais é estimular, entre os internos, a ressocialização.

           Mas, como ressocializar, ou socializar, com práticas anti-sociais?

          Tenho convicção de que toda sociedade tem seus mecanismos de tratamento daqueles que infringem as regras.   A patologia é fenômeno corrente desde as mais distantes sociedades.  No entanto, essas sociedades, a exemplo das indígenas, não tratam os seus como se fossem animais.  Buscam, sim, e com sucesso, aquilo que a moderna sociedade ocidental transformou em laboratório dos horrores,  que é o cárcere. 

            A minha luta e a luta do meu partido  – senhores deputados, senhoras deputadas -  é no sentido de que todos, independentemente de cor, sexo, religião, condição social, tenham assegurado o direito de defesa e, se condenados,  sejam tratados como gente, para que, como gente civilizada, possam voltar ao convívio social.

          A rigor, como seres humanos, todos nós somos suscetíveis de enfrentarmos uma situação patológica.  Isto não é sinônimo de suscitar  impunidade ou fomentar a barbárie.   A barbárie, ao meu ver, está é na fala do gerente de Segurança, ao afirmar:  “A cada rebelião é dinheiro do povo sendo tomado”, entrevista concedida ao Jornal do Maranhão do dia 2 deste mês.  Tal  manifestação é de quem deseja colocar, ainda mais, a população contra essas pessoas jogadas a sua própria sorte, à míngua. 

             Para mim e para o PT, barbárie social é o Maranhão e mais dois outros Estados  -  Amapá e Rio Grande do Norte – projetarem gastar menos com Segurança Pública do que com a Assembléia Legislativa.

             De acordo com dados publicados pela Folha de São Paulo, do dia 29 de janeiro último, fornecidos pelos próprios governos, para cada real gasto com o Legislativo quanto ao que os Estados planejam gastar, em 2001, no caso do Maranhão,  apenas R$0,19 com a segurança da população. Em valores nominais, o Maranhão prevê o desembolso de R$69,91 milhões para manter a Assembléia,  mas vai gastar apenas R$13,55 milhões em segurança.

            São essas inversões de prioridades políticas que levam ao aumento da violência, ao inchaço dos cárceres, ao surgimento dos “neo gladiadores”.   E  nós cidadãos e cidadãs comuns e de bem, rigorosos com nossos deveres para com o Estado, somos levados ao medo, ao pânico, ao isolamento frágil de nossos lares, sujeitos de uma pedagogia do medo cujo principal protagonista é o Estado.

           É essa a situação de nosso Maranhão onde as relações passadas de patrimonialismo, pessoalidade e amizade de um grupo e seus fiéis escudeiros são sempre revitalizadas de maneira circular. 

           Têm sido esses os governos autocráticos, caracterizados pelo mando e obediência, que foram construídos em nossa terra.  Governos da tutela e do favor.   A governadora Roseana Sarney busca operar acima de tudo e expressão do todo, instrumentalizando o poder midiático e com uma imagem que mostra um Maranhão de simulação, um Maranhão que não existe, um simulacro de democracia.   Sua prática não diferencia em nada da de todos os outros governantes e nem da história política de nosso Estado.                                

             Nosso desafio é apresentar e representar, aqui neste Parlamento, o Maranhão dos maranhenses, com resistência, participação política e transparência, mostrando e demonstrando que a atividade parlamentar deverá ser sempre a de um educador, ou educadora, de massa.

             Como últimas considerações, sublinho que é com imensa alegria, satisfação, esperança e responsabilidade que nós do Partido dos Trabalhadores tomamos assento nesta Casa.  E, para mim, é extremamente difícil, mas honroso, substituir o ex-deputado e hoje prefeito de Imperatriz, o companheiro Jomar Fernandes, que, com muita coragem e ousadia, honrou os princípios do nosso partido, neste Parlamento, e a confiança que o povo do Maranhão lhe conferiu.   

            Uma das atitudes mais ostentadas, neste início de século, em nossa sociedade, é o cepticismo político, uma atitude de desconfiança e descrédito nos grandes sonhos utópicos, nas esperanças de transformações radicais do mundo em que vivemos.

           A posição é cômoda. Afirmações do tipo  todos os partidos, no fundo, são iguais; todos os políticos merecem ser condenados; a política se faz em torno de interesses e não de ideais são apresentadas como verdades inquestionáveis de superação da ingenuidade para quem as exibe.

           No entanto, essas posturas desembocam, na maioria das vezes, na passividade, na aceitação da sociedade tal como ela é e a determinam, colaborando para o aumento da alienação do povo e contribuindo para transformar nossos poderes institucionais em casas de negociatas ou clubes de amigos, servindo de subsídio para aumentar o descrédito da sociedade para com os políticos em geral e, em particular, para com os deputados.

            Por outro lado, em nossa democracia, excluímos do povo o direito de tomar decisões diretas, repassando esta responsabilidade aos nossos representantes eleitos, que, na sua maioria, costumam ignorar seus eleitores e transferir sua fidelidade política a interesses corporativos, sobretudo às fontes de suas campanhas, fazendo do nosso sistema político apenas uma simulação virtual de um modelo democrático.

           Qual seria, então, o sentido da presença de um parlamentar do PT nesta Casa Legislativa ? 

            No Brasil, apesar do espaço que, ultimamente, a atividade parlamentar ganhou nos meios de comunicação, o Legislativo tem poderes extremamente limitados, comparados com o Executivo forte e absolutista, decorrente do pacto entre as elites ao final da  Monarquia, ao final, também, da ditadura Vargas e ao final, ainda, da ditadura militar.

           Por isso, entendo que não é possível substituir a organização dos trabalhadores e as lutas populares pela atuação parlamentar, nem alimento ilusões sobre as possibilidades de transformações sociais exclusivamente a partir deste Poder.

           Mas tenho clareza de que o espaço institucional deve ser disputado e ocupado na perspectiva de consolidar a presença popular como sujeito principal das transformações. Dentro da política de acúmulo de forças, o objetivo de nossa relação com a institucionalidade será a ocupação deste espaço para a demonstração de que é possível criar uma nova forma de gerir a coisa pública, colocando o aparelho do Estado, com todos os seus vícios e impropriedades, a serviço dos setores oprimidos da sociedade; fazendo desta tribuna um espaço de denúncias e proposições em favor dos excluídos, radicalizando a democracia e colocando esta instituição a serviço dos interesses da maioria da população. 

                Este mandato, que ora inicio, se propõe, também, a ser um instrumento para o crescimento da credibilidade social que nosso partido necessita na busca da hegemonizacão dos mais amplos setores da sociedade, visando ao fortalecimento do sonho da construção de uma sociedade mais justa, ética e solidária.

                 Nesse sentido, nossa ação parlamentar deverá servir de ferramenta para combater projetos e medidas antipopulares, originados do Executivo e do próprio Legislativo, ou de grupos de pressão do poder econômico e político do nosso Estado, bem como se propõe a desmistificar o governo virtual, que se apresenta como popular, mas que, na realidade, só vem contribuindo para aumento da exclusão social e a marginalidade no Maranhão. Portanto, defino-me  – e não poderia ser diferente -  como oposição de esquerda a todos aqueles que comungam desse projeto que, a cada dia, condena centenas de pessoas deste Estado à fome e à miséria absoluta, inclusive no que tange aos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, à terra, à segurança.

               Não me resta outra alternativa, enquanto parlamentar, comprometida com uma verdadeira transformação social, senão assumir essa postura e proclamar, na oportunidade de estréia nesta tribuna, o que penso e como tenho agido.

                 Há décadas,  o Maranhão é governado pela mesma elite que, agora, se apresenta com um discurso de novo e eficiente, mas que, na verdade, apesar das propagandas oficiais, não passa de uma intervenção política para a conservação de um Estado patrimonialista, subserviente aos interesses de grupos políticos e econômicos no âmbito regional, que busca conciliar as exigências contraditórias de um Estado de miseráveis, frente aos interesses do grande capital, numa situação periférica e dependente.  O resultado desses seguidos governos  tem sido negativos para a maior parte da população. Somos um Estado rico em potencialidades, mas repleto de pobreza; uma terra fértil e abundante habitada por famintos; uma região onde a natureza é generosa, embora marcada pela morte no campo, por doenças seculares, há muito dizimadas, hoje, apresentadas em caráter de epidemias (malária, leishmaniose, hanseníase), além de grande número de crianças nas ruas, desemprego, violência urbana etc. 

               O Maranhão tem a maior taxa de pobreza do Brasil.   O  índice de famílias que sobrevivem com até meio salário mínimo cresceu, assustadoramente, nos últimos anos.  Em 1996, era apresentado o seguinte percental:  56.5%;  em 1997, 64%;  em 1998, 67.2%.    Que dirão as estatísticas de hoje?

              Há, em nosso Estado, apenas 48.96% das residências urbanas abastecidas com alguma rede geral de água.   Esgoto sanitário chega somente a 12.32% das famílias.   E a coleta de lixo só para 26.58% das casas.

              Tenho bastante consciência de minhas limitações nesta Casa, onde muitos de seus membros aceitam, endossam, aprovam o projeto político-administrativo que tem como resultado, como saldo, esses índices terríveis.

              É preciso, portanto, chamar a atenção para o fato de que a questão não está apenas em proclamar a opção pelas classes e setores mais excluídos, mas ter uma prática político-pedagógica, rigorosamente, coerente com a ação verbal.  Uma coisa é a expressão oral da opção pelas classes oprimidas, pelas massas populares, a outra é a ação prática em si, desempenhada em nosso dia-dia.

              Não me calarei ao presenciar qualquer forma de injustiça, nem farei vistas grossas ao me deparar com irregularidades praticadas pelos poderes constituídos. Estarei, permanentemente, combatendo a corrupção e o mau uso de dinheiro público,  denunciando-os, em todos os espaços possíveis.

             Mesmo assim, não medirei esforços na busca de obter aliados confiáveis, que comunguem desses ideais e respeitem esses princípios, mantendo sempre nossa independência política, para, juntos, fazermos, desta Assembléia, um espaço de luta e defesa da vontade popular.

              É com humildade, respeito e muita responsabilidade que coloco tudo isso nesta primeira sessão legislativa ordinária, certa de que estou sendo bem entendida e na expectativa de que poderei ter em muitos dos meus pares o apoio necessário para o exercício desta árdua mas honrosa tarefa.