Igrejas e questões político-agrárias no Maranhão, Brasil.

IGREJAS E QUESTÕES POLÍTICO-AGRÁRIAS NO MARANHÃO

Victor Asselin

      Permitam-me, ao fazer memória da história eclesial dos anos 60-90, dedicar estas palavras aos trabalhadores e trabalhadoras da área rural deste Estado e da periferia da cidade de São Luis e torná-las celebração, pois sua  coragem e sua luta só podem ser expressados em sentimento de indignação diante de tamanha corrupção e de agradecimento pelo dom da vida de muitas vítimas.

Foi-me proposto o tema “As Igrejas cristãs e as questões político-agrárias no Maranhão”. Ser-me-á difícil tratar do assunto de maneira exaustiva, pois esta conversa não é o fruto de uma longa pesquisa. Bem ao contrário, é fruto de ume experiência de vida. Consultei algumas notas que ainda me restam e as juntei às lembranças que a memória conservou. Tratarei quase exclusivamente das comunidades de base, como se chamavam na época, nas áreas rurais, incluindo a da Ilha de São Luis, como um JEITO NOVO DE SER IGREJA ou como caracterizava Dom Pedro Casaldáliga “o jeito que os pobres descobriram de ser Igreja”.

Portanto, não tratarei da ação tradicional da Igreja na área rural, não abordarei a ação da Igreja na cidade de São Luis e, embora tenha muita afinidade com a opção das comunidades de base do interior, não falarei da ação da Igrejaem São Luisno momento em que foi desencadeado o processo de ocupação do terreno urbano.

Num primeiro momento, caracterizarei a ação das comunidades de base no Maranhão em quatro períodos:

  • antes de 1968: tempo de gestação das comunidades de base;
  • 1968-1975: tempo de descoberta de sua identidade;
  • 1976-1989: tempo de aprofundamento fé e vida, religião e política.
  • Após 1989: tempo de hesitação

Numa segunda parte, aprofundarei a questão rural da época e a violência exercida sobre os trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Numa terceira parte, destacarei alguns pontos que me parecem importantes como resultados do processo das comunidades e concluirei formulando alguns desafios para a Igreja do Maranhão.

PRIMEIRA PARTE – A IGREJA CATÓLICA 

1. Antes de 1968 – Tempo de gestação das Comunidades de base

            No Maranhão, fim dos anos 60, existiam a Arquidiocese de São Luis, tres dioceses e cinco prelazias: Caxias, Grajaú, Carolina, Pinheiro, Viana, Balsas, Bacabal e Cândido Mendes (hoje Zedoca). Dom  Mota sucedeu a Dom Delgado em 1964 como Arcebispo, Dom Fragoso, auxiliar de Dom Delgado, foi nomeado para Crateús e chegou em 1966 Dom Edmilson como auxiliar de Dom Mota. Todos os bispos das dioceses e prelazias, exceto Cândido Mendes, eram religiosos e, exceto Caxias e Bacabal, italianos. Posteriormente foram criadas as dioceses de Coroatá, Brejo e Imperatriz.

Dom Delgado e seu auxiliar tinham grande interesse nas questões sociais e deram apoio significativo ao trabalho de educação de base. O laicato militante da Ação católica se fazia presente na sociedade e solidário das “Reformas de base” propostas pelas autoridades governamentais no começo dos anos 60, como o estava também a direção da Conferência dos bispos. Paulo Freire tinha iniciado, com a “pedagogia do oprimido”, o “Movimento de Educação de base” (MEB). Destacava-se a ACO (Ação católica Operária) na cidade de São Luis e a ACR (Ação católica rural) no meio rural. Porém o golpe de Estado de 31 de março de 1964, imposto pela força militar fez abortar o projeto.

O anúncio de um Concílio Ecumênico, feito pelo papa eleito em 58,  João XXIII, criou novas expectativas. Havia questionamentos a respeito da DESOBRIGA, modalidade de assistência religiosa da Igreja Católica ao povo da área rural no Maranhão. Algumas inquietações se expressavam na então Prelazia de Pinheiro, fim dos anos 50, após a chegada dos missionários canadenses. Mons Gerard Cambron foi a figura que iniciou o diálogo.

            Os anos da realização do Concílio Vaticano II ajudaram padres a amadurecer a necessidade de transformar o jeito de ser Igreja. Mantinha-se um contato permanente com as discussões no Concílio e se iniciou um processo de criação de pequenas comunidades, em particular nas áreas rurais, sob a liderança de catequistas devidamente formados a este fim. Era uma tentativa de descentralização do poder do pároco. Cabia-lhes conduzir as atividades religiosas e organizar as visitas do pároco preparando os pais para o batismo de seus filhos e para o casamento dos adultos. Essa nova prática surgiu em algumas paróquias da Prelazia de Pinheiro e de Balsas e, posteriormente, em paróquias da parte rural da então Arquidiocese de São Luis, hoje prioritariamente territórios das dioceses de Brejo e de Coroatá.

Havia algumas comunidades vivas no interior do município de Rosário e de Itapecuru. Quero prestar uma homenagem especial a esta região que sobreviveu naquele tempo, apesar da falta de acompanhamento. Eram comunidades com características próprias. Nesta      região se destacavam lideranças como Calixto, Justo, Davi e outros que se juntaram depois.

O Concílio Vaticano II permitiu aos bispos de estabelecer relações entre eles. Sabemos que Dom Helder Câmara foi um eloqüente articulador dos bispos latino-americanos durante as suas estadiasem Roma. Essetempo levou os bispos a sentir a necessidade de uma pastoral mais organizada. Iniciou-se um processo de planejamento da Ação pastoral no Maranhão e algumas dioceses tomaram a iniciativa de realizar anualmente a Assembléia diocesana de pastoral, reunindo leigos, religiosos e padres. A pequena comunidade, chamada de base, já existente em certas áreas no molde já explicado acima, era considerada uma alternativa à desobriga, em outras palavras, uma alternativa à paróquia. Esta situação desencadeou uma tensão entre os promotores de ambas as partes, gerando até às vezes incompatibilidade de trabalho entre os líderes das comunidades de base e seus animadores e os párocos que mantinham firme a ação tradicional.

Foi um período em que se questionou muito a ação da Igreja. Tempo ricoem buscas. Precisavasuperar a desobriga.

2. ANOS 68-75 – Tempo de descoberta de sua identidade

            Em 1968, iniciou-se um novo período: as comunidades descobrem sua identidade. Em dezembro daquele ano, realizou-se em São Luis, Tirirical, o primeiro encontro das Comunidades de Base da Arquidiocese de São Luis. Participaram deste encontro, as lideranças da paróquia de Tirirical, na época área que se estendia do atual São Cristóvão até Itaqui-Bacanga e as comunidades que formam hoje os territórios das dioceses de Brejo e Coroatá. O encontro foi organizado pela coordenação pastoral da Arquidiocese tendo como coordenador o Pe Gerard Dupont e animado pelo padre Albani Linhares da diocese de Sobral, falecido o mês passado na cidade de Fortaleza. Iniciativa que se repetiu anualmente até o ano de 1973.

A década de 70 foi fértil em compromissos na vida da Igreja. Medellin estava aí e a “opção pelos pobres” vinha dar um rosto ao Concílio Vaticano II na América Latina. Existia o Instituto de Pastoral Latino-americano em Quito, Ecuador, que ministrava um curso de seis meses para habilitar os agentes da Igreja para uma ação na linha da libertação na América Latina. O padre Ernane Pinheiro de Recife tinha feito aquele curso e queria que a gente o fizesse. Dom Luis, bispo atual de Caxias também o fez.

Tínhamos que descobrir um novo caminho. Quem expressou bem o que a gente vivia é um lavrador do povoado Salgado de Itapipoca, Ceará.

“… com muita fé e boa vontade que eu tenho, não sei como irei … “só prometo uma coisa, desta maneira de trabalhar eu não mais continuarei…o jeito dos trabalhos … dá muito mais chance aos exploradores explorarem com menos trabalho … continuar fazendo reuniões, visitas, só falando em amor, união, paz, fé etc.. e não falar do sofrimento do povo não dá mais … são os latifundiários que não tem amor e ficam tirando o couro dos pobres.

… até que abri os olhos …”

2.1 A articulação na Arquidiocese de São Luis

Estamos em 1973. Para realizar um trabalho de articulação do povo numa linha de compromisso com a realidade, tínhamos que pensar a nível mais amplo. Já existia no Maranhão uma articulação das Comunidades de base em algumas dioceses. Porém, o padre ainda era a mola do trabalho. “Onde não há padre, o pessoal torna bicho. É o padre que faz a animação no lugar”. Assim se expressava um leigo.

“As Comunidades cresceram, dizia o Arcebispo, e eu preciso de um coordenador a tempo integral para elas”. Nasceu a coordenação das comunidades do território da Arquidiocese de São Luis. Dois problemas emergiam: o individualismo dos agentes e o isolamento dos grupos comunitários e a fragilidade das Comunidades de base organizadas em torno do culto dominical e da catequese.

Após contatos com as diversas regiões, com a finalidade de tomar um rumo mais acertado, articulamos um grande encontro das Comunidades de base da Arquidiocese de São Luis, em dezembro de 1973. Neste encontro, queria se fazer uma avaliação mais aprofundada delas. O Pe Claúdio Perani do CEAS, Salvador, BA, assumia o papel da assessoria junto ao Pe Albani Linhares da diocese de Sobral, Ce, e do Pe Gérard Cambron. Pe Albani era muito conhecido no meio. Havia tempo que vinha acompanhando o trabalho das comunidades.

A presença do Pe Cláudio Perani foi muito importante. Passo a transcrever algumas de suas observações enviadas após o encontro. Iniciava seus comentários dizendo:

“O fato de poder reunir com tanta facilidade uma assembléia numerosa de  camponeses revela a existência de um trabalho bem dinâmico no setor rural.

Fiquei impressionado ao ver o grau de responsabilidade do povo: ele sabe dizer a própria palavra, assume, organiza, questiona, tem responsabilidades … ”

Em seguida fazia dois questionamentos :

  1. O problema da relação agentes-povo.

O primeiro questionamento se referia à relação entre os agentes e o povo. Dizia ele:  “A necessidade de respeitar o povo e de favorecer sua  responsabilidade, autonomia e participação não significa – evidentemente – uma omissão do agente. Minha impressão é que exista uma certa omissão, em lugar de reconhecer a própria influência e questioná-la para ver como melhor utilizá-la em favor do povo.

Em primeiro lugar, mesmo quando a gente se afasta de uma intervenção direta, não deixa de influir em várias outras maneiras…

Em segundo lugar, as afirmações do povo não podem ser consideradas, assim sem mais, como palavra do Espírito Santo, só pelo fato que vêm do povo. Ao contrário, quanto mais espontâneas, tanto mais fácil que sejam equívocas, condicionadas por toda uma ideologia de opressão que se torna presente em mil maneiras na vida do camponês. A funcão do agente não é simplesmente técnica, mas deve proporcionar a possibilidade de uma visão sempre mais crítica (que liberta).”

b. A questão da ideologia do povo (e dos agentes)

O segundo questionamento levanta a ideologia do povo e dos agentes.

“O plenário manifestou o prevalecer de uma visão individualista e voluntarista. Individualista: grande parte da atenção foi concentrada sobre a responsabilidade do “padre” e do “dirigente”. Voluntarista: muitas soluções iam na linha da fé, paciência, coragem, etc.

“Não havia uma análise mais estrutural que relacionasse entre si os vários problemas, compreendendo mais profundamente as causas escondidas. Daí o fato de apresentar soluções típo: formar a família, educar as pessoas, etc., numa visão bastante estática.

“Nessa mesma linha, a falta de uma visão mais “conflitiva”do evangelho.”

Após este encontro, duas necessidades saltavam aos olhos: a necessidade da articulação dos agentes e das bases e a importância da análise mais profunda da realidade.

O encontro de dezembro de 1973 não ficou sem resposta. Logo após o encontro, Albani, Carolina e eu nos reunimos, sob a sigla VAC (Victor – Carolina – Albani), com a finalidade de nos interrogarmos sobre a modalidade de desencadear um processo de articulação dos agentes e sobre a modalidade de colaborar para que as bases desencadeassem seu próprio processo. Fizemos uma segunda reunião em janeiro de1974. Apartir daí, articulação e capacitação andaram juntas, aberto em âmbito estadual, regional e nacional.

É de suma importância atentar ao fato de que uma das forças das comunidades de base do Maranhão foi o fenômeno de sua articulação nos diversos níveis, estadual, regional, nacional. Vejamos.

2.2 Articulação no âmbito estadual

 Em janeiro de 1974, iniciava-se um processo de articulação a nível estadual, capacitando as lideranças nos seus respectivos municípios de acordo com suas necessidades. O encontro anual da Arquidiocese de São Luis, iniciado em 1968, passou a ser semestral (julho e dezembro) e eram convidadas lideranças de todas as dioceses do Estado. Reuniam-se de100 a120 pessoas. A coordenação do encontro, incluindo as tarefas de conteúdo, manutenção e cozinha, era assumida por região escolhida no fim de cada encontro. Os temas até então da vida interna da Igreja passaram a ser os da vida do povo: direitos humanos, direitos do lavrador, lei da renda, direitos e deveres do lavrador, etc.

Os camponêses começaram a abrir os olhos. Na avaliação do encontro de dezembro de 1974, pudemos escutar comentários como estes:

“Isso deu para mostrar que a gente deve ajudar não só na parte espiritual, mas também material.”

“Descobri que temos direitos. Vai ser uma base que vai me afirmar.”

“Se alguém disser “faça isso”, vou dizer “diga de novo”, “espera aí.”

“Estou satisfeito em saber que o homem do campo pode reclamar.”

“Sinto-me com grande responsabilidade.

2.3 Articulação no âmbito regional

Nesse mesmo período, a articulação estadual se estendeu ao regional

do Maranhão-Piaui-Ceará, divisão eclesiástica da CNBB na época,  NE I.  Viveu-se um tempo ricoem solidariedade. Sãoos encontros realizados na Meruoca, Ce, em20 a25 de fevereiro e em21 a30 de agosto de 1974 e outros em Teresina, Pi. Apareceram conflitos em terras da Igreja. A gente se perguntava: como vamos nos comportar em luta contra a Igreja que é também nossa ? Esta situação nos levou a buscar, a nível mais amplo, um trabalho de libertação. A pedagogia libertadora era nossa principal preocupação.

Do encontro de agosto de 1974, na Meruoca, nasceu uma equipe regional de articulação que se deu como tarefa o acompanhamento e a animação dos participantes das regiões MAPICE. Era importante estender nossa articulação com os outros grupos existentes. Os membros da equipe continuavam a se interrogar sobre a viabilidade de tomar a iniciativa da articulação regional das bases. Que tipo de interferência podemos ter neste processo ? Como fugir do perigo de elitização ? Os agentes se organizaram em pequenos grupos de acordo com seu interesse de estudos e aprofundamentos: história – religiosidade popular – sindicato – lutas populares – leis da terra – luta de classe e projeto babaçu.

O pessoal do Ceas,em particular Claúdioe Andrés, facilitaram muito a caminhada da articulação regional com visitas às regiões e com cursos de capacitação.

2.4 Articulação no âmbito nacional

E mais, na mesma época, havia interesse em desencadear um processo de articulação nacional.  Estávamos em anos difíceis da ditadura. Alguns bispos tinham iniciado um processo de articulação no âmbito da CNBB e desejavam ampliá-la para chegar até o povo. Imaginaram convidar algumas lideranças das diversas regiões do país. O nosso regional, bastante articulado, recebeu o convite. A primeira reunião se realizou nos dias8 a10 de fevereiro de 1974 em Salvador, BA. Procurava-se pistas para a articulação a nível nacional. As preocupações e as perguntas dos participantes eram as mesmas que a gente se fazia no Maranhão. O que significa a “opção pelos pobres”? “Tem-se a consciência de dominado”?

Pelo fato da conjuntura nacional, os participantes não queriam e não podiam ser considerados como grupo. Era preciso porém não ser um grupo nem “clandestino” e nem “público”. Criar comunhão entre pessoas-chaves das diversas regiões do país em vista de uma ação libertadora era o objetivo de todos. Por isso a gente delineou alguns critérios para uma ação libertadora. Uma ação é libertadora, dizia-se, quando ela

. atinge a raiz e não só os efeitos

l             l eva a uma mudança;

. desperta a consciência crítica;

. leva o povo a se auto-determinar;

. incentiva a participação desde a base.

Duas vezes por ano, essas pessoas se encontravam em âmbito nacional.

2.5 Encontro de Vitória, E.S.

Em Vitória do ES, vivia Dom Luis Fernandes. Era bispo auxiliar da Arquidiocese, muito interesssado pelas Comunidades de base. Queria fazer uma avaliação mais aprofundada do trabalho dele. A este fim, no segundo semestre de 1974, resolveu convidar algumas pessoas de diversas regiões do país trabalhando com elas. O encontro era marcado para os dias6 a8 de janeiro de 1975. Pedia enviar com antecedência o relato de uma experiência de uma comunidade eclesial de base. Neste momento começou a aparecer a denominação eclesial. Contava ele que a idéia deste encontro tinha nascido numa conversa com Eduardo Hoornaert quando se interrogava sobre o futuro das CEB’S. E Eduardo de dizer : “Porque não reunir esses grupos do Brasil dentro dos objetivos da diocese de Vitória para estudos ?”

O objetivo de Dom Luis era, ajudado pela colaboração dos participantes das diversas regiões do país, descobrir pistas concretas para  o trabalho futuro da Igreja de Vitória. No fim daquele encontro foram apresentadas diversas opções que serviram de subsídios para a elaboração das conclusões do encontro. No meu caderno de anotações leio:

“Nas diversas opções apresentadas, optou-se, em primeiro lugar, o assumir concreto do significado de “libertação”: problema político, cultural e ministerial. Quanto ao problema político, destacou-se um ponto fundamental: TERRA. Isso significa que se deve tomar uma posição a respeito da propriedade. Quanto ao problema ministerial, criar uma assessoria para refletir sobre a passagem entre o sistema clerical e aquele novo que vai brotar. É necessário garantir a autonomia da base.”

Essas opções discutidas em plenário foram formuladas nas conclusões finais de maneira seguinte :

“Em obediência ao Evangelho e aos apelos que vem da realidade vivida pelo povo, optamos por uma evangelização libertadora através do trabalho nas CEB’S. Isso implica numa clara opção nossa pelos oprimidos.

Na linha da ação política, que a Igreja participe da luta de libertação do povo, denunciando toda forma de injustiça e suas causas, propondo uma sociedade sem barreiras que impedem a fraternidade e a comunhão entre os homens.”

Dom Luis não pretendia desencadear um processo de articulação nacional das CEB’S. Mas assim foi, pois o ano seguinte, em 1976, houve um segundo encontro em Vitória com uma participação mais ampla de agentes trabalhando nas CEBS e em 1977 foi o encontro de João Pessoa, encontro que teve todas as características da articulação nacional das lideranças compromissadas com a causa do povo. E assim seguiram os encontros nacionais.

2.6 Encontro no âmbito da Amazônia Legal

Concomitante ao encontro das CEB’s em Vitória, ES, Pe Virgílio Uchoa, assessor da linha dos ministérios da CNBB, começou a articular um encontro de representantes trabalhando no território da Amazônia Legal para estudar a questão TERRA.

No dia 19 de junho de 1975 estávamos reunidos, agentes das regiões e membros das comissões nacional e regionais de Justiça e Paz,em Goiânia. Trabalhamosaté o dia 22. Num primeiro momento assistimos a palestras de representantes do INCRA e da Contag. Em seguida tentamos uma análise crítica da problemática terra na Amazônia Legal. Destacou-se a importância do instrumento jurídico, da falta da posse legal e da conscientização e do comportamento da Igreja. Fez-se uma crítica ao modelo brasileiro. O dia seguinte falou o Superintendente da SUDECO, representando o Governo na circunstância.

Prosseguindo, fez-se uma pergunta: “Dentro do que estamos fazendo, qual o objetivo, a visão, os impasses e as contradições da ação da Igreja?” Os debates foram animados e preocupantes. O que fazer para que este encontro produza seu fruto ?

Lembro daquela noite, onde, num quarto de dormir, estavam presentes Andrés, Claúdio, Ivo, D. Pedro e eu alimentanto informalmente a conversa. Estávamos procurando jeito de liderar as conclusões do encontro. Surgiu, não sei como, a idéia de sugerir a Dom Moacyr Grechi, responsável pela linha missionária da pastoral da CNBB, a criação de uma Comissão de assessoria a ele para o assunto terra. Idéia genial. No momento da caminhada final do encontro, a proposta foi apresentada, votada e aprovada. Acabava de nascer a Comissão Pastoral da Terra como órgão de assessoria ao bispo responsável pela linha missionária da CNBB.

3. Anos 1976-1989: Tempo de aprofundamento

O Maranhão estava em plena crise. Desde o “Maranhão Novo” do então ex-governador José Sarney, o Estado vivia fos tensões, violências e mortes.  A grilagem pipocava em todos os cantos, em particular na área do Pindaré, diocese de Viana. O novo bispo nomeado, presente ao encontro da Amazônia Legal, vinha para “botar órdem” e acabar com a memória de Dom Hélio Campos.

A notícia da criação da CPT  foi uma feliz notícia para o Maranhão. Chegava como uma recompensa a tantos esforços de tantos agentes da Igreja comprometidos com o povo.

Ivo Poletto assumiu a tarefa do secretário-executivoem Goiânia. Nesteintervalo do segundo semestre de 1975, ele visitou as diversas regiões, inclusive o Maranhão. Precisava informar. Dom Mota, arcebispo de São Luis, em cuja arquidiocese assumia eu a coordenação das CEB’S, ainda não tinha dado seu acordo. Manifestou sua adesão em 5 de março 1976, após a criação oficial da CPT no Maranhão, decisão tomada pelos agentes já engajados nas CEBS e movimentos populares diversos.

A CPT desencadeou o processo de articulação pelas bases e deu uma vitalidade às comunidades eclesiais de base, sonho que a equipe de articulação sonhava há alguns anos.

Continuavam os encontros a nível nacional. Porém, em maio de 1976, tomou-se conhecimento de que o meio rural se apresentava mais organizado e articulado através da CPT, que os índios já tinham sua organização através do CIMI e que estava também articulado o meio operário, em particular nas regiões de São Paulo, dando nascimento à CPO. Resolveu-se então encerrar esta modalidade de encontro por ter conseguido rapidamente seu objetivo, isto é articular os rostos diferentes do povo de Deusem ação. Nomesmo ano, em agosto, a equipe de articulação do MAPICE também questionou a necessidade de continuar os encontros a nível regional. Após uma avaliação dos últimos acontecimentos, chegamos à conclusão de que também os encontros regionais tinham cumprido sua missão. A raiz da articulação das CEBS estava plantada e cabia aos jardineiros a tarefa de continuar a cultivá-la.

Diante dos fatos e do crescimento da consciência dos homens e das mulheres no campo, hoje, ninguém duvida. A Criação da Comissão Pastoral da Terra em junho de 1975 foi um gesto profético para alguns e uma loucura para outros. Ela não nasceu nem por acaso e nem por geração espontânea. Chegou como um ponto de encontro de diversos caminhos que vinham se construindo. E chegou como resposta à busca das CEBS: unir Fé e vida numa prática política e ecumênica. Apareceu o rosto camponês da Igreja. Foram anos de amadurecimento das CEBS e da ação da Igreja.

 4. Após 89: Período de hesitação

O movimento das “Diretas já” e da Constituinte marcaram a participação popular, selando sua luta numa Constituição chamada “Constituição cidadã”, pois, apesar de suas ambigüidades, conseguiu firmar importantes conquistas. As CEBS no Maranhão, a exemplo das outras regiões do país, deram suas contribuições nesta conquista.

Seguiu-se um período de hesitação: assistimos à desarticulação dos movimentos, à dispersão das forças, ao fechamento dos espaços conquistados em âmbito eclesial, ao abandono, à fuga e à perda parcial da liderança, à perda de visão de conjunto e de motivação, a um vazio de informações, etc. Enfim é como se, com a volta ao governo civil, todos os problemas tivessem sido resolvidos.

Este período de indeterminação permitiu às elites de continuar a manter os pobres na ilusão. O episcopado não tinha mais o vigor e o dinamismo dos anos 70-80. Apartir de 1990, apareceram as novas tendências na Igreja. Priorizava-se o “espiritual”. Sentia-se a influência dos movimentos religiosos internacionais. A hierarquia da Igreja pouco a pouco esqueceu seu compromisso com as « angústias e tristezas do povo” e voltou à sua vida interna, provocando assim uma mudança radical na formação dos seus agentes de pastoral. As CEB’S e os movimentos sociais mais significativos não encontraram nesta reviravolta o ambiente de avaliação, de reflexão e de crescimento desejado e tomaram certa distância.

Não tendo acompanhado de perto e de dentro as CEBS após 1990, deixo de fazer sua análise e, com muita segurança e brilho, João Maria poderá fazê-la.

 SEGUNDA PARTE – A LUTA CONTRA A GRILAGEM ….. TERRA,                                                          campo de ação das CEBS

            A TERRA, a luta pela terra ou mais exatamente a luta contra a grilagem marcou a vida das CEBS. Com a CPT os cristãos e cristãs lavradores acabavam de encontrar o caminho para definir a sua identidade, rosto camponês da Igreja no Maranhão, como já falamos. Na cidade houve uma luta semelhante com a ocupação do terreno urbano. São Luis é uma ilha. Numa ilha, não se invade, se ocupa o terreno.

1. Uma memória

“No dia 21 de Abril de 1500, quando aqui chegaram os portugueses, o país que viria a ser chamado Brasil perdeu a autonomia sobre seu território e iniciou-se o processo de grilagem.

“… a Lei de terras instituiu, (Lei 601 de 1850)  no Brasil, o cativeiro   da terra – aqui, as terras não eram e não são livres, mas cativas”       escrevia José de Souza Martins. E continua: “Quando , a 31 de março            de 1964, mudaram os donos do poder, consagrou-se uma nova etapa           de grilagem do território.” (p. 12)

A grilagem de terra no Maranhão deve ser compreendida no contexto de que grilagem é problema estrutural e por isso, é planejada e estimulada.

2. Alguns aspectos históricos

                       Até a década de 30 se esboçava um plano de integração do norte de Goiás, hoje Tocantins, a partir de Anápolis. Nos anos 40, o projeto da Colônia Agrícola Nacional de Goiás em Ceres aberto pelo INIC (Instituto nacional de Imigração e colonização) depois SUPRA – INDA- IBRA e INCRA – foi um ponto de atuação dos grileiros no médio norte de Goiás, no sul do Pará e na região tocantina, Carolina, Estreito e Imperatriz. Nos anos 50 foi a construção da nova capital Brasília e da estrada Belém-Brasília.

O que era Imperatriz, no começo do século XX ? Fundada em 1852, foi elevada à categoria de cidade em 1924. Em 1950 contava 1.152 habitantes e, em 1960, 4.137 habitantes. E o que era Santa Luzia do Tide (Clotilde) na mesma época ? Existiam povoações bem antigas beirando o rio Zutiuá mas Santa Luzia foi criado em 1951 por três lavradores vindo de Pirapemas. Tornou-se município em 1959.

3. As grandes mudanças e a grilagem

Estava se preparando uma MUDANÇA RADICAL em toda esta região. As terras do Maranhão eram devolutas (cativas como dizia José Martins) e passaram a ser cobiçadas pelos interesses de São Paulo, Triângulo Mineiro e Goiás. Multiplicaram-se as fraudes. Uma vez planejado e criado o problema social, precisava usar de criatividade para justificar e legalizar a apropriação dessas terras. Sucederam-se leis e organismos de acordo com as necessidades do momento. Foram anos de extrema violência. Vamos relembrar alguns momentos desta história, pois nos ajudará a compreender a situação do povo maranhense e o compromisso assumido pelas comunidades eclesiais de base naqueles anos. Dividirei esses momentos em três etapas:

-         Primeira etapa da grilagem o Maranhão: 1956-64

-         Segunda etapa da grilagem no Maranhão: 65-68

-         Terceira etapa da grilagem no Maranhão: 69-80

3.1  Primeira etapa da grilagem no Maranhão: 1956-64

Em 1956 determina-se a construção da nova capital e da estrada Belém Brasília; em 1958 já existiam alguns grilos Gurupi,, Torre Segunda, Campo Alegre e Frades na parte oeste do Estado e ao longo da Belém-Brasília vieram lavradores mineiros, baianos e capixabas, típo classe média rural. Estes empregavam mão de obra e ocupavam 200, 300,500 hectares. Os empreiteiros da estrada ocupavam também trechos de terra para fins especulativos.

O clima de Imperatriz era de muita violência. Era lugar de esconderijo na Beira do Tocantins, refúgio de foragidos, assassinos e pistoleiros. Pedro Ladeira era um. Dizia-se: « Quem matava cinco, deixava seis amarrados pra morrer no outro dia ».

No começo dos anos 60, afraude se instalou. Criaram pessoas fictícias, emitiram escrituras particulares baseadas em inventário que nunca existiu. Foi a primeira etapa da grilagem em que se manifestaram os interesses paulistas, encabeçados pelo senador Orlando Zancaner de São Paulo. Nessa mesma época, ao longo do trecho da estrada em construção, vindo de Belém em direção a Brasília, apareceu a “indústria de usucapião”, desencadeada no município de Turiaçu em 1963 através do juiz de direito José Ribamar Fiquene e dos falsos registros do cartório de Carutapera, O Juiz Fiquene foi posteriormente juiz de Imperatriz.

3.2   Segunda etapa da grilagem no Maranhão: 1965- 68

Em 1965 começa o asfaltamento da estrada Belém-Brasília e em 1966, o governo brasileiro deu permissão à Força aérea dos USA de mapear aerofotogramétricamente o país. O grileiro João Inácio promovia venda de terras para os norte-americanos.

Nesta segunda etapa, houve um impulso da grilagemem direção  Marabáeem direção Açailândia. Houvegrande migração, minoria baianos, mineiros, capixabas e maioria piauienses e cearenses. Eram em geral, pobres. Dizia-se: “atrás da pobreza, vem os grileiros”.

Em 27.10.66, por lei federal,  incorpora-se os100 kmde cada lado das rodovias federais construídas, em construção ou planejadas ao patrimônio da União e o Governo José Sarney a partir de janeiro 67, toma diversas medidas.

Três medidas tomadas pelo governador Sarney são de suma importância para entender o destino do Estado do Maranhão. Em outubro de 1968, ele cria a Delegacia de Terras em Imperatriz, nomeando Pedro Nunes de Oliveira, delegado do órgão, e Agostinho Noleto, procurador. O objetivo da delegacia: disciplinar a ocupação e titular as áreas, transferindo o domínio público para o domínio privado. Estourou mesmo a grilagem. Em 6.12.68, ele cria a Sagrima (Secretaria de Agricultura do Maranhão e nomeia Lourenço Vieira da Silva, secretário. Enfim, em 28.11.69, cria a Lei de terra, 2.979, que facultava a venda de terras sem licitação a grupos organizados em sociedades anônimas, sem número limitado de sócios, podendo requerer cada um até3.000 ha.

Para complementar o quadro, em 9.7.70, foi criado por Lei federal 1.110, o INCRA, órgão máximo para administrar as terras ao longo das rodovias federais. Em Imperatriz foi o começo da proteção dos requerimentos das grandes propriedades.

A segunda etapa da grilagem se formalizou em 1968 pela fraude do inventário no cartório do 2º Ofício de Imperatriz em torno da figura fictícia de Faustino Pereira de Carvalho. É GRILO PINDARÉ, chamado grilo da Fazenda Pindaré. Grilo Pindaré é um grilo privilegiado. Grilo de dimensão muito elástica. Nunca foi fazenda. Foi grilo que consistiu em se apossar de todas as terras livres do Estado do Maranhão. Em 1975, o juiz Federal Carlos Madeira ao julgar um processo aberto pelo Incra e pelo Estado, dizia: “que desvalidos são esses que tinham uma posse digna dos maiores representantes de Portugal ?”

3.3   Terceira etapa da grilagem no Maranhão: 1969-80

Fim do ano 60 e começo do ano 70, abre-se a primeira picada da estrada Açailândia-Santa Luzia. O grilo Pindaré toma proporções enormes. Instam-se grandes projetos agropecuários. A delegacia de Terras era bem pequena para os grandes apetites. Sarney, já senador, apresenta a candidatura de José Leite, pernambucano, à prefeitura de Santa Luzia, o que abriu as portas para os empresários pernambucanos na região. O governo militar, em 1.4.71, por decreto-lei 1.164, declara a faixa dos100 km. de cada lado das estradas federais, “área de segurança nacional”.

Pedro Neiva de Santana tinha sucedido a Sarney como governador do Maranhão. Houve uma verdadeira corrida para as terras do Pindaré. As transmissões eram feitas com extrema rapidez. Pedro Neiva consagrou a grilagem. Não acreditava na documentação apresentada, mas estava diante do grupo poderoso dos senadores Orlando Zancaner de São Paulo e Osiris Teixeira de Goiás, apoiados pelo então senador Sarney. Querendo atrair investimentos para o Estado, acolheu o grupo de Ituiutaba (MG), recomendado pelo governador de Minas, Rondon Pacheco. Isso deu sinal verde a Agostinho Noleto para realizar o que tinha projetado por volta de 68-69 e o juiz Delfino Sipaúba de Imperatriz dizia : “Porque não podemos autorizar o registro do grilo quando o próprio Estado autoriza ?

Em 6.12.71, a Lei estadual 3.230 cria a Comarco, incorporando ao seu patrimônio uma área de terras localizada nos municípios de Grajaú, Lago da Pedra, Vitorino Freire, Pindaré-Mirim, Santa Luzia e Amarante, avaliada em1.700.000 hectarese uma outra área de400.000 hectares. Na região do Maracaçumé (Turiaçu), além dos 46 requerimentos já existentes na área, reservou-se300 hectarespara assentar 10 mil famílias e o restante era para os grandes projetos.

Chegou o governo Nunes Freire que não queria entregar terras a latifundiários outros que maranhenses. Ameaçado de perder o cargo, foi obrigado a assinar escrituras de grilagem.

Delegacias de Terras, Sagrima, Incra e Comarco criaram o conflito social. As forças se enfrentavam. No governo de Castelo entra em cena a Coterma (abril 79) a nível estadual e o Getat (fev. 80) a nível federal. O Incra tinha autorizado a ocupação para mais de um requerente em cima das mesmas terras. Agora o Getat tinha que resolver. No Maranhão, a Coterma quis resolver o conflito social fazendo acordos em terras do Estado. Para acelerar o processo criou-se a Ceter (80), nomeando o Pe Hélio Maranhão, ligado diretamente ao governador para fazer mediação entre lavradores e Estado.

Na terceira etapa da grilagem, em 1972, se reincentivou a fraude cartorial do tempo do governador de Pedro Neiva de Santana e Lourenço Vieira da Silva, secretário de agricultura, foi autorizado a fazer o devido registro.

O que ficou claro nesta etapa é que o grilo teve um ponto de partida e se estendeu até conseguir a realização do propósito inicial, isto é apropriar-se de todas as terras devolutas do Estado identificadas como necessárias para o desenvolvimento e a segurança.

Com este superficial panorama, podemos verificar o percurso da grilagem no interior do Maranhão. De Imperatriz, a grilagem segue o rumo para Grajaú-Barra do Corda passando por Porto Franco e pela antiga estrada Imperatriz-João Lisboa; abre-se novas fronteiras para o Oeste com a estrada Imperatriz-Coquelândia, passando por Cidelândia, Trecho Seco em direção a São Pedro da Água Branca; abre-se novas fronteiras para o Leste, Br-222, Açailândia-Santa Luzia, entrando nos municípios de Pindaré, Monção, Santa Inês, Bom Jardim e Viana e novas fronteiras ao longo da estrada Belém-Brasília, penetrando na Serra do Tiracambu, sul de Carutapera. Abílio, personagem importante na fraude de documentos, dizia: “grilo que eu faço, galinha não come e nem voa. Nó que eu dou, ninguém desata”

4. Operação limpeza da área – Violência

Toda a área grilada era habitada por lavradores. Era campo de atuação das comunidades eclesiais de base. Precisava limpar a área. A operação limpeza da área é uma história sangrenta e indigna de toda pessoa que tem um mínimo de dignidade. Pedro Ladeira, homicida fugido da Justiça de Minas foi uma peça chave junto aos órgãos de terras, da justiça e da polícia de Imperatriz para o verdadeiro massacre que se operou na área do Pindaré.

4.1 A caça aos posseiros

Caçar os posseiros para afastá-los da área era o objetivo. Diversos métodos eram utilizados como atirar semente de capim por avião ou helicóptero sobre a plantação de arroz dos lavradores. Também a polícia apreendia as espingardas, armas de caça, ou qualquer utensílios necessários à lavoura como facão, faca, foice. Tudo isso muitas vezes era acompanhado de ameaças de morte: “tenho uma sepultura para você e outra para sua família” ou “já dei uns tiros no irmão do Dr. Jurandir… com vocês não vale a pena se sujar. Basta vender uma vaca e com o dinheiro pagar um pistoleiro”.

Quando os grileiros e seus empregados encontravam resistência, passavam a invadir, destruir e queimar as roças com apoio da polícia. Prendiam e levavam os posseiros para a cadeiaem Imperatriz. Visitavamas casas à noite, vasculhavam e cercavam a casa, apresentando-se às vezes como policiais federais.

O sargento Furrupa fez muita desgraça na área. Matou, humilhou gente sofrendo, deixou mulher perdida pelas matas e queimou casas na região de Buriticupu. A polícia militar de Imperatriz recebia de Pedro Ladeira uma “mesada” de 20 mil mensais. Conseguiram aliciar alguns posseiros para torná-los corretor de terras ou para ser pistoleiros, Os Bonfim (Resende) são exemplos. Contratava-se também pistoleiros de fora do Estado. Era uma verdadeira organização do crime.

Não se pode avaliar o número de mortos no Pindaré. Os moradores falam de um número incalculável. Quincas Bonfim mandou matar 7 num só dia. Tirou as orelhas das vítimas e saiu mostrando. Diz-se que Bonfim matou mais de 80; no meio da fazenda Cacique foram encontrados cadáveres no meio da mata; na fazenda dos irmãos Valle morreram mais de 100 peões e na fazenda vizinha de Olynto Garcia havia um cemitério.

Uma autoridade de Imperatriz me dizia que na cidade deviam se registrar tres mortos por noite e que a própria polícia fazia parte das quadrilhas. Acrescentou um morador: “ninguém tinha coragem de sair de noite antes da energia chegar. Aparecia tantos mortos pelas ruas, sem o  “couro” do rosto para não ser reconhecido…”

Em caso de grande resistência, era a chacina, pois inventava-se uma acusação de subversão e se matava a liderança. O fato é que, apesar de terem do seu lado toda a força política, econômica, judiciária e militar, os grileiros não conseguiam o afastamento de muitos posseiros. É assim que, na região de Buriticupu, teve-se então a idéia de inventar um movimento subversivo. Enquadrar os posseiros como terroristas seria o único meio de resolver o problema e afastá-los da área. Ladeira dizia : “poderemos matar sem que seja crime”. Os posseiros foram surpresos por rajadas de metralhadoras e tiros de fuzis. Intenso tiroteio. Alguns lavradores passaram dias nas matas. Todos os lavradores encontrados eram presos, espancados. A operação durou quase uma semana e lavradores foram acusados de subversão, preso, sem poder comunicar com quem quer que seja.

A morte do líder sindical João Palmeira é exemplo da violência praticada contra os lavradores. Um dia João Palmeira foi surpreendido com seus colegas na sua roça na hora do almoço por um bando de pistoleiros. Sem conversa, o tiroteio começou. Palmeira foi crivado de balas. Não tendo morrido logo, os jagunços o sangraram a faca.  José Viana que quis ajudar morreu também. Após a chacina, o próprio Ladeira passou pela casa da esposa de João Palmeira “dando notícia para mandar buscar o corpo dos que estavam mortos nas matas.” A viúva foi falar com o Comandante do 50 Bis que lhe disse: « era para ter sido morto há muito tempo, por ter o costume de viver a tomar as terras dos outros”. Numa carta da viúva ao presidente Geisel dizia : “gostaria de esclarecer a V.Exa, que qualquer investigação ou sindicância que fosse determinada a ser feita pelas autoridades do Incra ou mesmo da Polícia Federal do Maranhão, serão todas em vão, porque elas nunca conseguem apurar a verdade… quero acreditar que seja do conhecimento de V. Exa que o Presidente do Incra Lourenço Tavares Vieira da Silva é bastante familiarizado dos grileiros que infestam esta região, notadamente os que estão vindo do Estado de MG”.

4.2 Contratação dos trabalhadores

Outro método usado para “limpar a área” como se dizia, foi a contratação de trabalhadores. Por exemplo, Pedão, delegado de polícia de Açailândia, contratava trabalhadores para a derrubada e, uma vez o terreno pronto, os matava. Um morador dizia : « lá era sumidoro de gente ». Numa fazenda, 30 trabalhadores tinham sido contratados. Fizeram o serviço até o fim, tirando como adiantamento apenas o necessário para as despesas. Fazendo as contas, Zé Cândido cercou os peões com sua turma e botou fogo. Morreram todos queimados na mata.

« O crime é algo milagroso. Não há culpados e ninguém fica sabendo. O assassino nunca aparece e quem sabe nunca diz. Quem morre é considerado o criminoso. Aqui tem que se passar por bobo ou por medroso. Ouvir as coisas e se esquecer, senão está morto. »

TERCEIRA PARTE – Reflexões sobre o compromisso dos cristãos e                                                 cristãs das CEBS

            As comunidades Eclesiais de Base são verdadeiras escolas de aprendizagem e a terra, o campo da prática de sua fé. Essa prática foi ricaem descoberta. Apresentarei algumas conquistas que me parecem importantes.

1. Algumas conquistas

1.1              Religião e fé cristã são diferentes

Os participantes das CEBS descobriram que fé cristã tem uma identidade que a distingue da religião e que o Evangelho não é uma religião. A prática ensinou que a fé cristã não é só falar de um engajamento religioso, mas de uma opção de vida que segundo o Evangelho de Jesus, implica uma decisão que engloba tudo. A fé cristã é a adesão a um projeto que exige uma opção total e totalizante. E este projeto é o de Jesus. A fé não é um ato qualquer entre muitos outros nem uma opção ligada a um setor da vida. Ela quer ser une inspiração que orienta a visão, os critérios, as atitudes e a prática das pessoas, dos grupos ou de comunidades. Ter fé é entrar com Jesus na aventura do Reino, é construir o Reino com Ele, é fazer com Ele o caminho para que o Reino aconteça.

1.2 Religião e política andam juntas

Os cristãos e cristãs começaram a entender que a fé cristã além de estabelecer uma relação com o Pai de Jesus, estabelecem também uma relação com sua obra, a Criação. Descobriram que essa prática é o viés político da fé. Falar de política é falar da fé vivida no social, é falar do engajamento na sociedade civil, é falar da participação do povo na vida pública. Entendendo a fé desse jeito, não havia problema em dialogar com todos e todas, até com aqueles e aquelas que tem referências e valores diferentes da fé cristã. As CEBS começaram a viver a prática do ecumenismo.

1.3 Política, questão de vitalidade para as CEBS

Os participantes das CEBS chegaram a definir a política como uma  questão de existência e de vitalidade para elas. Mais do que nunca, tornou-se um imperativo de priorizá-la e lhe dar lugar de destaque em virtude da necessidade de se fazer presente nas mais variadas situações revoltantes das maiorias “sem emprego”, “sem teto”, “sem terra”, e dos “sem” de todo típo. Política é uma exigência da fé cristã. É a prática amorosa do Samaritano.

1.4 Evangelho e Política tem o mesmo objetivo

A política é a SERVA da plena realização do ser humano e de todos os humanos, a SERVA DA FELICIDADE. Por isso tem que se preocupar, em primeiro lugar, com o povo que vive marginalizado, excluído da participação na sociedade. É também o objetivo do Evangelho expressado na opção pelos pobres. Esta compreensão passou a ser o objetivo de sua luta contra a grilagem e a favor da conquista da terra. E não havia melhor inspiração do que o Evangelho de Jesus Cristo para sustentar sua luta quotidiana, pois Ele mesmo tinha feito a opção pelos excluídos como pedagogia para buscar o Bem Comum. Evangelho e política se dão as mãos para estabelecer a justiça.

Neste contexto, os cristãos e cristãs amadureceram a sua fé cristã. Foi fruto de uma longa caminhada. Tomou raízes na ação católica da geração anterior e continuou com a inspiração do Concílio Vaticano II. As CEBS tomaram o risco de viver a Igreja de maneira diferente. Dom Pedro Casaldáliga dizia: é “o jeito que os pobres descobriram para ser Igreja”.

2. Dificuldades

A prática desta articulação fé-vida foi e ainda é semeada de muitas dificuldades, pois elas são como dois caminhos que corremem paralelo. Destacamosduas dificuldades que foram vividas pelas CEBS na prática política: a prevalência do projeto pessoal no exercício do mandato e o afastamento dos agentes da Igreja dos seus militantes.

2.1 Prevaleceu na política o projeto pessoal

A politização das CEBS levou diversos cristãos e cristãs a se engajar em partidos políticos e alguns, a assumir um mandato. Para estes, houve ambiguidade no jeito de exercê-lo. Não houve a devida mudança de mentalidade nos militantes de tal maneira que o exercício do poder continuava a se legitimar pela lógica do exercício tradicional da política e não pela perspectiva do serviço ao Bem Comum. Fez-se na prática o que se condenava na teoria. Dito de outra maneira: faltou coerência no exercício do poder. Prevaleceu para muitos o projeto pessoal. As motivações evangélicas que deveriam ter justificado o agir dos cristãos no exercício do mandato, se perdeu no caminho.

2.2 Os agentes da Igreja se afastam dos militantes políticos

O compromisso de cristãos e de cristãs das CEBS na militância política gerou uma resistência da parte dos responsáveis conservadores da Igreja. Exerceu-se pressão para que se afastassem do engajamento em partido político. Dizia-se: temos que separar a ação pastoral do engajamento político e as CEBS evoluíam em pensamento diferente. Silenciosamente, uns se afastaram por estratégia e outros foram cooptados pelo poder oficial. A voz da hierarquia enfraqueceu e as CEB’S perderam a visibilidade que lhes era garantida pelo prestígio da hierarquia da Igreja.

CONCLUINDO esta reflexão, podemos dizer que, apesar de certos fracassos registrados, a Igreja ganhou experiência. Num seminário de avaliação realizado em junho de 2002 na cidade de Balsas com a presença de cristãos e cristãs do Estado, dizia-se:

“Temos a certeza da nossa capacidade e, apesar de tudo, ganhamos pontos. Existem líderes que perseveram e outros que buscam uma formação que os ajudará a viver sua fé em coerência com sua escolha. Ganhamos também porque descobrimos o caminho que liga fé e vida, religião e política. Enfim, ganhamos uma educação de base madura que criou raízes e o espírito da democracia e a luta pela terra cresceram muito.”[i]

O que são As CEBS, hoje?  Não acompanho atualmente o andamento das CEBS. Nas minhas atuais andanças, encontro cristãos e cristãs, adeptos de uma prática religiosa espetacular e emotiva e encontro também pessoas sensíveis à situação de pobreza e de marginalização vivida pela maioria do povo. Nestes, sinto que são comprometidos com a causa da transformação e com a elaboração de uma nova ordem sócio-política, encontrando no Evangelho sua fonte de inspiração. Engajam-se nas “políticas públicas”. É o Evangelho que se faz presente nas dimensões do temporal.

3. Desafios

            Eu não poderia terminar esta conferência sem lançar alguns desafios para as Igrejas, a começar para a minha, a nossa, a Igreja católica.

3.1 A fé cristã desafia o exercício do PODER

“Quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de   vocês”, dizia Jesus.

O poder só pode ser exercido para o serviço do Bem Comum, pois o verdadeiro poder reside na dignidade da pessoa humana. Ele não se exerce por imposição, arrogância, egoísmo e ambição, mas pela gratuidade do amor. Tal exercício do poder hoje, supõe uma articulação eficiente com a sociedade civil para continuar a construir o Estado democrático de direito, também sinal do Reino. O poder exercido nas Igrejas é inspirador para construir a democracia ?

3.2 A fé cristã desafia a ordem de nossas prioridades

A fé cristã relembra que o Bem Comum só pode ser conquistado por uma luta constante em favor de um projeto a serviço das pessoas e jamais contra as pessoas. Para que esse projeto fique em acordo com o Evangelho, o engajamento implica uma luta contra a injustiça junto a uma constante busca de amor do inimigo. A Igreja católica tem que rever seriamente suas prioridades. Inspirada pelo Evangelho, influenciará o meio político e ajudará os políticos a descobrir que sua missão, como afirmava Paulo VI, “é o exercício por excelência da caridade”

3.3  A fé cristã desafia a prática quotidiana

A fé cristã dinamiza o processo de mudança, alimentando a Esperança através da paciência histórica sem exigir a eficácia e os resultados imediatos. A precipitação afasta as pessoas e muitas vezes as impede de assumir seu papel de protagonista de sua história. A Esperança não é uma simples renovação de repetir o que já aconteceu, mas é um futuro aberto para um novo começo, superior ao primeiro. Quanta riqueza para um povo conquistador do seu futuro!

A fé cristã lembra que carregamos com os outros uma utopia, um sonho que nenhuma mediação histórica esgotará. Carregamos a Esperança que vem da certeza que, neste poço da vida da história, Jesus Cristo já se banhou. Temos a Esperança que esta construção do Reino será realizada. A nossa Esperança inspira mesmo o mundo de hoje, o meio no qual vivemos?

3.4 A fé cristã desafia as religiões

A fé cristã questiona as religiões. Em nome de qual deus a religião não autorizaria a união dos cristãos e cristãs em torno de reformas profundas de mudança ? Em nome de qual deus a religião justificaria ainda o processo secular de dominação e de conformismo ? Em nome de qual deus a religião substituiria a sua voz profética por favores recebidos ou a receber ? Em nome de qual deus a religião permitiria a submissão para manter prestígio e privilégio ?

3.5 A fé cristã desafia o diálogo

O que dizer a respeito do diálogo ? Nós católicos, cristãos e cristãs não somos os únicos a lutar para construir o Reino. Existe muita gente de diversas religiões e de diversos outros movimentos que até podem não fazer referência a nenhuma inspiração religiosa, mas que tem o espírito da vida. Em razão de nossa fé somos incentivados e impelidos a construir o Reino com todas essas pessoas de crenças e de referências diferentes das nossas. Em razão de nossa fé, somos parceiros. Não temos o privilégio e nem a responsabilidade de construir sozinho o Reino. Somos todos e todas chamados. O espírito que deve nos guiar é aquele do diálogo, numa convergência de forças e numa complementaridade de inspirações. O Espírito sopra onde quer, tanto nas religiões quanto fora delas. O ecumenismo, o diálogo inter-religioso e a capacidade de diálogo com aqueles e aquelas que tem sua inspiração fundada até fora da religião não somente são possíveis e oportunos mas necessários pois ninguém esgota o tamanho da tarefa da construção do Reino no campo social. A prática das CEBS abriu esse caminho, caminho do verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Como estabelecer em verdade o DIÁLOGO ?

            Façamos voto de ver a Igreja católica junto às outras igrejas cristãs tornarem-se instâncias de diálogo com a sociedade, unindo e comungando com todas as expressões do Reino.

Conferência pronunciada na III semana Acadêmica de Ciências Religiosas, Iesma, São Luis, Ma. 31.10.08 e publicado em Alterinfos DIAL, França em 10.08.09.

FÉ CRISTÃ : RELIGIÃO E POLÍTICA

                  FÉ CRISTÃ :  RELIGIÃO   E  POLÍTICA

Reflexão sobre o compromisso dos cristãos e cristãs

VICTOR ASSELIN*

“…na medida em que estamos dispostos em transgredir todos os limites da moral pretextando servir uma pessoa ou uma coletividade qualquer, estamos fazendo dela um deus. No mais real sentido, cegado pela separação entre religião e política, caimos na idolatria. Fizemos do Estado um deus.” [i]

“Os cristãos da pós-modernidade (individualmente ou agrupados em novas associações) terão condições de ser novamente atores políticos significativos ? A política terá possibilidade de exercer influência sobre a religião ?” Eis a pergunta que aqui sugerimos. Reformulo a pergunta nos termos seguintes: “Os cristãos e cristãs engajados na política no Brasil são atores significativos ? Quais relações estabelecem entre religião e política ? Podem existir interações entre as duas ? Em outras palavras, é possível ser cristão e político ? É possível lutar contra a injustiça e amar seu inimigo ? Minha reflexão sobre o tema tentará avaliar o engajamento dos cristãos e cristãs, em particular da Igreja católica, no contexto socio-econômico-político brasileiro. Assim sendo, a palavra « religião » vai se situar num universo restrito assim como o será a palavra « Igreja »

A relação religião-política sempre foi difícil para a Igreja católica. Congar, no fim de sua vida, deplorava o fato de que esta questão fosse tão pouco trabalhada. Hoje, ela se torna mais complicada pelo fato da privatização da experiência religiosa sem a mediação das instituições, no interior da lógica da valorização da subjetividade. As religiões que no passado tiveram a capacidade de orientar a vida social, hoje tem até dificuldade de ser fontes de sentido para o mundo e a pessoa. A modernidade e pós-modernidade obrigam as Igrejas a renunciar a qualquer pretensão de impor à sociedade seus princípios e suas normas. Neste contexto, qual é a postura dos cristãos e das cristãs ? Qual é o horizonte político a ser descoberto para as Igrejas ?

Atualmente, no Brasil, um número crescente de pessoas declaram não ter religião e 15,4% da população diz-se evangélica. Há poucos anos, este último grupo maintinha-se afastado da política. A partir das eleições de 2002 percebe-se uma presença política significativa destas igrejas na vida do país e na Igreja católica o tema política é recolocado entre as suas principais preocupações.[ii]

Para situar melhor a reflexão, apresentarei em primeiro lugar, de forma resumida, a leitura socio-pastoral dos cinquenta últimos anos da Igreja católica no Brasil escrita por assessores da Conferência Episcopal do Bispos do Brasil – CNBB. Em seguida, considerarei a análise que fazem os cristãos e cristãs sobre o tema “Religião e política” e as articulações que decorrem dela para, num terceiro momento, destacar alguns elementos a considerar na pespectiva de perseguir o sonho cotidiano do Reino.

1a parte: Leitura socio-pastoral da Igreja católica no Brasil

No Brasil assim como um pouco em toda parte do mundo ocidental cristão, a religião passou do primado da instituição ao primado do indivíduo e de um olhar voltado para a transcendência a uma busca de soluções imediatas aos problemas humanos de cada dia.

1.1   Evolução da Igreja Católica de 1950-2000

Inspirando-me da leitura do teólogo brasileiro Alberto Antoniazzi,[iii]  quatro etapas marcam a evolução da Igreja católica nos últimos cinquenta anos.

1.1.1 Em primeiro lugar, a Igreja representava uma sólida instituição tradicional, onde os fieis aceitavam a autoridade da hierarquia eclesiástica para orientar sua fé.

1.1.2 Depois, o acento foi colocado sobre as comunidades. Eram comunidades relativamente pequenas onde a relação entre as pessoas se fazia direta e aconchegante. É a época do crescimento das comunidades eclesiais de base (CEB’s) nos anos 70 e dos “novos movimentos” dos anos mais recentes.

Nos dois casos, as relações de proximidade e de parentesco são importantes, a experiência da fé é alimentada pelo grupo e a doutrina geradora da verdade é aquela que se faz coerente com a experiência da comunidade. Entretanto, as CEB’S e os “novos movimentos” se diferenciam: as primeiras pelo seu engajamento social e as segundas pelo seu caráter emotivo e os laços afetivos instituídos entre as pessoas.

1.1.3 Em seguida, as CEB’S e os “novos movimentos” irão expressar à sua maneira o elemento principal que os caracteriza. As CEB’S acentuam o caráter social do seu engajamento enquanto os “novos movimentos”, não sentindo a necessidade de partilhar sua vida em grupo, preferem seguir o exemplo de alguém qui lhes parece mais autêntico na sua experiência religiosa. É a terceira etapa.

1.1.4 Enfim, quando os cristãos e cristãs dos “novos movimentos” buscam a legitimação de sua fé  no interior de si mesmo – “minha religião, sou eu” dizia um católico não praticante – e que a comunidade não tem mais importância a não ser que ela representa um espaço de supermercado onde o cliente escolhe e compra o que ele quer, os cristãos e cristãs das Comunidades eclesiais de base, tomando consciência de ter priorizado o engajamento político e social prejudicando sua relação com Deus, procuram aprofundar a motivação do seu engajamento. O contexto da presente reflexão toma como pano de fundo a experiência vivida no âmbito destas Comunidades eclesiais de base – CEB’S.

1.2  A Igreja das Comunidades ecclesiais de base (CEB’S)

O que dizer a respeito das Comunidades eclesiais de base ? Retomar alguns traços de sua evolução pode nos ajudar a entender como, em nome de sua fé, cristãos e cristãs descobriram a importância do engajamento político. As CEB’S não são o fruto de uma geração espontânea mas o resultado do engajamento de cristãos e cristãs – bispos, padres, religiosos, religiosas e leigos – formados pela Ação Católica, especialmente JEC, JOC, JUC, e confirmados pela abertura do Concílio Vaticano II, que tomaram o risco de viver a Igreja de maneira diferente. [iv]

“AS ALEGRIAS E AS ESPERANÇAS, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração. Com efeito, a sua comunidade se constitui de homens que, reunidos em Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o Reino do Pai. Eles aceitaram a mensagem da salvação que deve ser proposta a todos. Portanto, a comunidade cristã se sente verdadeiramento solidária com o gênero humano e com sua história.[v]

1.2.1 A hierarquia da Igreja aliada à Elite

O laicato militante da Ação católica se fazia bem presente na sociedade e solidário das “Reformas de base” propostas pelas autoridades governamentais no começo dos anos 60, como o estava também a direção da Conferência dos bispos. Paulo Freire tinha iniciado, com a “pedagogia do oprimido”, o “Movimento de Educação de base” (MEB). Porém o golpe de Estado de 31 de março de 1964 imposto pela força militar fez abortar o projeto. A crise política gerou outra crise no seio do episcopado. Toda a direção da Conferência nacional  dos bispos se demitiu e, em maio do mesmo ano, os “metropolitas” se reuniram e emitiram uma declaração. Apoiaram os militares na sua intenção de libertar o Brasil da ameaça comunista, agradeciam e desejavam que a reconstrução do país se realizasse, inspirada pelo Ensinamento Social da Igreja. O poder mudava mas o episcopado ficava o aliado do poder.

1.2.2        A hierarquia da Igreja  aliada ao povo

Passaram anos e os militares manifestaram pouco a pouco profundas divergências com o Ensinamento Social da Igreja. A realidade tornava-se tão negativa que as simpatias e as expectativas dos bispos para com os militares se deterioram. Também, a Igreja amadurecia na sua vida interna uma nova opção política e pastoral que parecia reverter o “concordato moral” com o poder e as classes dirigentes. Esta opção, resultado do regime militar e da recusa das elites de manter o compromisso tácito da aliança, levou a Igreja como instituição a renunciar à aliança com as elites e a assumir firmemente a solidariedade com o povo. Este passo foi de uma importância capital. O episcopado tomava a decisão de reconstruir a Igreja a partir da “base”, isto é a partir de sua inserção na vida do povo, o que lhe deu grande credibilidade junto a ele. Agentes de pastoral tomaram a iniciativa de sensibilizar as comunidades aos problemas vividos nos seus meios respectivos. Parte da hierarquia apoiava e encorajava a sociedade civil a combater a violência e o autoritarismo. A luta se organizou prioritariamente em torno do acesso à terra e da conquista pela democracia. Apesar de tantos sofrimentos – pois foram anos de confronto com o martírio – faziam-se grandes passos, principalemente no setor da organização e do desenvolvimento de uma mística de ação. Assim os movimentos populares fizeram a conquista de sua autonomia de ação, de reflexão e de formação. .

Aliada ao povo…como “Mestra da Verdade”

Em 1976, o episcopado, abalado pela forte onda de violência, reagiu energicamente com o Comunicado pastoral ao Povo de Deus [vi] e, imediatamente após, em 1977, com o documento Exigências cristãs de uma Ordem política [vii]. Foram opções inequívocas em favor da democratização do país. Era uma tomada de posição como “Mestra da verdade e da ética”. Indicava à sociedade a verdadeira e correta ordem política.

Estes gestos do episcopado desencadearam um movimento nacional : greve aconteceram, evidentemente consideradas ilegais em regime ditatorial, manifestações para a defesa dos direitos à terra e ao terreno urbano  se organizaram, a oposição sindical se articulou como forma alternativa à proposta imposta pelos militares e concentrações se multiplicaram nas diversas regiões do país. O movimento popular ganhou tanto espaço e força que introduziu um movimento nacional  de mobilização para exigir a volta ao Estado civil e as eleições do Presidente da República pela via direta. A força do povo teve ganho sobre o governo militar e as eleições se realizaram em 1985.

Aliada ao povo…como defensora da vontade popular

Em 1986, os bispos reunidos em Conferência publicaram o documento “Por uma nova ordem constitucional”.[viii] Estávamos no momento da elaboração da nova Constituição do país. O episcopado não agia mais como « Mestra da verdade » mas como “defensora da vontade do povo”. Foi um tempo rico em participação. « Todo poder vem do povo e em seu nome é exercido” diz a lei suprema do país. A participação de todos os grupos da sociedade, inclusive das classes pobres, na elaboração da Constituição foi tão generalizada que o documento foi e é chamado “Constituição cidadã”, publicada em 1988.

Celebrava-se a volta ao governo civil e o país tinha sua nova Constituição. Os objetivos previstos pelas CEB”S e pelos movimentos populares estavam realizados embora se encontrassem ainda diante de um futuro indefinido.

1.3 Um período de hesitação

Seguiu-se um período de hesitação: assistimos à desarticulação dos movimentos, à dispersão das forças, ao fechamento dos espaços conquistados em âmbito eclesial, ao abandono, à fuga e à perda de parte da liderança, à perda de visão de conjunto e de motivação, a um vazio de informações, etc. Enfim é como se, com a volta ao governo civil, todos os problemas tivessem sido resolvidos.

Este período de indeterminação permitiu às elites de continuar a manter os pobres na ilusão. O episcopado não tinha mais o vigor e o dinamismo dos anos 70-80. Apartir de 1990, apareceram as novas tendências na Igreja. Priorizava-se o “espiritual”. Sentia-se a influência dos movimentos religiosos internacionais. A hierarquia da Igreja pouco a pouco esqueceu seu compromisso com as « angústias e tristezas do povo” e voltou à sua vida interna, provocando assim uma mudança radical na formação dos seus agentes de pastoral. As CEB’S e os movimentos sociais mais significativos não encontraram nesta reviravolta o ambiente de avaliação, de reflexão e de crescimento desejado e tomaram uma certa distância.

Apesar de tudo isso, o processo.de democratização foi um fator importante para a maturação política dos cristãos e cristãs das CEB’S. Novas questões apareceram, em particular a da militância em partido político. Deve se engajar num partido político ou não ? Em qual partido? Esta questão era demais para os responsáveis conservadores da Igreja. Exerceu-se pressão para forçar as CEB’S a se afastar do engajamento em partido político pois, dizia-se, temos que separar a ação pastoral do engajamento político. A liderança da hierarquia mais conservadora não tinha evoluída e se fechou no seu pensamento tradicional referente ao político enquanto os cristãos e as cristãs evoluiam em pensamento diferente por terem conhecidos experiência diferente. Assim sendo, silenciosamente, por estratégia, afastaram-se da hierarquia da Igreja. O poder oficial cooptou boa parte das lideranças das CEB’S. Enfraqueceu a voz da hierarquia. As CEB’S continuaram a percorrer seu caminho, perdendo porém a visibilidade que tinham anteriormente, garantida pelo prestígio da Conferência dos bispos.

Resultado: prevaleceu para muitos cristãos e cristãs engajados em partido político o projeto pessoal mas para outros, foi um tempo de amadurecimento. Devemos concluir com isso que a volta à democracia, vitória do povo, foi uma ducha de água fria para as CEB’S ? Teriam perdidos a animação e a motivação do engajamento e o símbolo da opção pelos pobres ? O que é que se passou mesmo ? Vamos tentar uma leitura, levantando tres fatores que merecem nossa atenção. [ix]

  1. No tempo da ditadura, todos tinham a impressão de ter e de seguir un projeto de conjunto. Em efeito, a Igreja era o guarda chuva de todos os movimentos populares e dos partidos políticos de esquerda, até então clandestinos. O posicionamento era claro: lutar contra a ditadura. Com a abertura política, apareceram novos espaços e cada um procurou ocupar o lugar que lhe conviesse. O que parecia formar uma unidade se dividiu em múltiplos grupos e, então, todos tomaram consciência de que não existia de fato um projeto político global, alternativo e articulado que pudesse assegurar a união dos diversos setores até então articulados. Seguiu-se grande confusão. A Igreja, nas suas mediações, não tinha percebido a importância de equilibrar sua inserção-fermento com o anúncio de um projeto global. Ela ainda não tinha percebido na sua prática toda a importância do sonho utópico de Jesus Cristo. Foi-lhe difícil entender que toda realização humana, inclusive na política, era limitada e que somente a utopia podia impedir a parada do processo histórico ou sua acomodação. Entendemos então porque, como Igreja, os cristãos e cristãs tinham perdido o “elan” de gerar o NOVO. Com o passar do tempo, tomamos consciência que é a utopia do Evangelho que restabelece o equilíbrio entre as mediações concretas de presença e a comunhão ao sonho. De fato, não é importante que a Igreja ame os pobres mas é importante que os pobres se sintam amados por Deus.

2. O segundo fator a ser lembrado é tudo o que mudou na Igreja após a volta ao Estado civil. No tempo da ditadura, a Igreja tinha renunciado ao poder e chegado a ser solidária do povo, em particular dos pobres. A mudança tinha sido radical. Seu ponto de referência não era mais sua vida interna mas as “angústias e as alegrias” do povo. Realizava na sua prática a articulação entre religião e política. Religião e política se articulavam pela prática do serviço aos pobres. Sua ação era pé no chão, de onde tirava seu dinamismo. Na realidade, ela se encontrava no terreno onde Deus escreve sua história e seus agentes sentiam a necessidade de crescer neste dinamismo para não perder o entusiasmo, o que deu origem à mística que inspirava e unia. Infelizmente, produziu-se uma mudança qualitativa na hierarquia da Igreja que provocou um fechamento sobre ela mesma. A vida do povo não era mais a inspiração de sua modalidade de presença e do agir. Em consequência, as CEB’S viveram período de hesitação com a perda da mediação que alimentava seu engajamento.

3. O terceiro fator se refere aos militantes cristãos. Diversos líderes vindos das CEB’S tiveram acesso ao poder pelo exercício de um mandato. Houve ambiguidade no jeito de exercê-lo. Logo se percebeu que não tinha havido mudança de mentalidade nos militantes de tal maneira que o exercício do poder continuava a se legitimar pela lógica do exercício tradicional da política e não pela perspectiva do serviço ao Bem Comum. Fez-se na prática o que se condenava na teoria. Dito de outra maneira: faltou coerência no exercício do poder. As motivações evangélicas que deveriam ter justificado o agir dos cristãos no exercício do mandato, não existiam mais. Uma ausência de mística na ação.

Uma Igreja Aliada ao povo…como educadora à cidadania

Como seria o hoje da Igreja ? Existem cristãos e cristãs, adeptos de uma prática religiosa espetacular e emotiva que os deixa livres de escolher suas crenças e seus valores morais. Mas não é bem a característica atual pois existem cristãos e cristãs sensíveis à situação de pobreza e de marginalização vivida pela maioria do povo nesta sociedade subjugada à economia mundial. Estes se comprometem com a causa da transformação e com a elaboração de uma nova ordem socio-política e encontram no Evangelho sua fonte de inspiração. Apesar de certos fracassos registrados, a Igreja ganhou experiência. Num seminário de avaliação realizado em junho de 2002, cristãos e cristãs diziam: “Temos a certeza da nossa capacidade e, apesar de tudo, ganhamos pontos. Existem líderes que perseveram e outros  que buscam uma formação que os ajudará a viver sua fé em coerência com sua escolha. Ganhamos também porque descobrimos o caminho que liga fé e vida, religião e política. Enfim, ganhamos uma educação de base madura que criou raízes e o espírito da democracia e a luta pela terra cresceram muito.” [x]

A retomada da articulação das forças vivas da Igreja, justificada pela necessidade de uma avaliação aprofundada dos cristãos e cristãs engajados no movimento “Um outro Brasil é possível” está em fase de afirmação. De um lado, resurge o engajamento político na militância de partidos políticos e de outro lado, as comunidades redescobrem seu papel de educadoras à cidadania.

Após as eleições de 2002, fez-se uma sondagem sobre os políticos eleitos para o Legislativo. Verificou-se que os que receberam formação política nos quadros da Igreja católica tinham sinais de maior qualidade. Porém a sondagem aponta a urgência de uma maior preocupação com o desafio pastoral do acompanhamento espiritual dos políticos conscientes da necessidade de uma mística de ação e com uma formação mais qualificada.

A vitória da oposição em outubro de 2002 marcou a saída de um longo processo histórico. Tinha iniciado nos anos 60 e tomado configuração nas “Reformas de base”, reformas que o golpe do Estado de 1964 levou ao aborto. Entretanto, as sementes tinham caido em terreno fertil e criaram raízes na sociedade por meio das CEB’S, das Associações de bairros, dos núcleos de movimentos sindicais, dos diversos movimentos sociais e das organizações que se tornaram mais tarde ONG. E mais, o documento da CNBB de 2002 sobre as eleições [xi] expressou sem ambiguidade a disposição do episcopado em apoiar o projeto de construção nacional, priorizando a defesa da dignidade e dos Direitos Humanos e o desenvolvimento para todos. Em consequência, as CEB’S tomaram a initiativa de se engajar nas “políticas públicas”. Os bispos manifestaram seu apoio ao projeto do despertar da consciência e continuam a estimular o povo a uma participação efetiva à vida pública. Não pode haver real democracia sem a real participação do povo.

2a parte:  Religião e política [xii]

A perseverança dos cristãos e cristãs das CEB’S em manter o relacionamento entre a fé e a vida sustentou a prática de articulação entre religião e política. E mais, o engajamento pela defesa dos direitos das pessoas e dos grupos sociais, realizado diversas vêzes em contexto ecuménico, permitiu um aprofundamento do laço entre os dois. Entretanto, a prática desta articulação fé-vida ainda é semeada de muitas dificuldades pois elas são como dois caminhos que correm em paralelo. De um lado, a cultura secular de dependência levou o povo a “satanizar” a política, de tal maneira que ainda hoje ela fica nas mãos da elite; por outro lado, a experiência de cristandade “depolitizou” a fé e afastou os cristãos e cristãs do seu engajamento. Podemos então perguntar: é possível lutar contra a injustiça e amar seu inimigo ? Em outras palavras, é possível com a fé cristã articular religião e política ?

Esta pergunta fica constantemente subjacente ao engajamento dos cristãos e cristãs das CEB’S por se encontrar sempre diante de um dilema no seu jeito de viver a Igreja. A atual situação é mais do que evidente: os “novos movimentos” mobilizam a população em torno do religioso; os movimentos sociais, em torno de uma causa a conquistar. Por sua parte, os cristãos e cristãs das CEB’S procuram uma maneira de aproximar os dois: fé na vida. Para eles o engajamento político se tornou a expressão da fé no cotidiano. As manifestações públicas que visavam a expressão das escolhas e das opiniões do povo, o levaram a descobrir a política como participação popular. A política, reconhecida como suja e sórdida, pegou um novo sabor, o do Evangelho.

Chegou o momento de interpelar a fé cristã : o que entendemos por fé ? o que diz a fé ?

2.1  A fé cristã

Falar da fé cristã não é só falar de um engajamento religioso mas de uma opção de vida que, segundo o Evangelho de Jesus, implica uma decisão que engloba tudo. Mateus fala de um tesouro escondido num campo e de uma pérola preciosa.[xiii]  A fé cristã é a adesão a um projeto que exige uma opção total e totalizante. E este projeto é o de Jesus. A fé não é um ato qualquer entre muitos outros nem uma opção ligada a um setor da vida. Ela quer ser une inspiração que orienta a visão, os critérios, as atitudes e a prática de uma pessoa, de um grupo ou de uma comunidade. Ter fé é entrar com Jesus na aventura do Reino, é construir o Reino com Ele, é fazer com Ele o caminho para que o Reino aconteça. Em outras palavras, não basta dizer « Senhor, Senhor » para entrar no Reino pois ele não pertence a todos aqueles e aquelas qui acham que tem direito de entrar nele mas àqueles e àquelas que fazem a Vontade, o projeto do Pai, proposto e relembrado por Jesus. A “fé” sem as obras está morta. Dito isso, podemos afirmar que a fé cristã se expressa principalmente em duas dimensões: religiosa e política. O engajamento religioso é a relação com a transcendência, isto é com o Pai de Jesus e o engajamento político é a relação com a obra do Pai de Jesus, a Criação. Para viver a fé, além do engajamento religioso, deve existir um engajamento ético e a ética exige uma prática em conformidade com a fé. É o viés político da fé cristã. . Consequentemente, falar de política é falar da fé vivida no social, é falar do engajamento na sociedade civil, é falar da participação do povo na vida pública. Neste sentido, a fé cristã implica necessariamente a expressão  religiosa e o engajamento político. O divórcio entre os dois conduz a religião à alienação e a política à idolatria. Entendendo desse jeito a fé, será mais fácil dialogar com todos e todas até com aqueles e aquelas que tem referências e valores diferentes das nossas.

2.2 A política

Fica importante distinguir a política como organização da sociedade e a política como « militância » no seio de um partido político. A primeira concepção é inerente à fé cristã pois se revela como parte constitutiva de sua expressão. Quanto à segunda, apesar de ser essencial à existência da política como organização da sociedade, se apresenta ao cristão  e à cristã como uma opção facultativa entre outras. Vamos elaborar alguns traços de reflexão a respeito de cada uma dessas duas compreensões que, longe de se excluir, se chamam mutuamente para uma realização plena de sua finalidade.

2.2.1        A política como organização da sociedade

A comunidade cristã, a Igreja, não pode desconsiderar o engajamento político como organização da sociedade. É uma questão de existência e de vitalidade para ela. Mais do que nunca, é oportuno e necessário que ela a priorize e lhe dê lugar de destaque. Deve acolhê-la em pé e os dois pés no chão pois é imperativo para ela de se fazer presente nas mais variadas situações revoltantes das maiorias “sem emprego”, “sem teto”, “sem terra”, e dos “sem” de todo típo. Não existe cidadania sem engajamento político e, não existindo, a democracia se torna impossível. Tudo o que é relacionado ao humano é ligado à política.

O texto bíblico do pagamento do tributo a César constitue um fundamento da presenca da Igreja na política. As mais frequentes interpretações deste texto concentram sua atenção sobre a separação das esferas: poder temporal e poder espiritual. Mas pode ser interpretado de outra maneira. Eis a leitura que faz um leigo cristão:

“Façamos a leitura do texto a partir dos direitos de César”, dizia ele. “Quando Jesus diz : “Dá a César o que é de César”, ele reconhece tanto a existência da ordem temporal quanto os deveres que todos devem ter para com ele. Ele chama a atenção sobre a colaboração que devemos ter para que a ordem temporal seja organizada e funcione de maneira a tornar mais fácil  a plena realização de todos os membros da sociedade. Isso tudo tem a ver com a política. O engajamento dos cristãos na política não tem outra finalidade a não ser aquela da plena realização desta exigência”.[xiv]

Convém sublinhar aqui, a título de exemplo, a preciosa colaboração e o testemunho que os participantes dos “Foruns sociais mundiais” – expressão de diversas raças e religiões – oferecem ao mundo inteiro.

A presença da Igreja na política é uma exigência da fé cristã. A sua Doutrina social o relembra e a realidade de hoje o reclama. A política é uma “Terra de missão”.

A. Uma exigência da fé

A necessidade da presença da Igreja na política fica uma exigência da fé cristã. Fazer política é ato essencial  de toda prática do amor evangélico pois é lutar contra a tentação de servir antes de tudo sua carreira individual e é purificar a todo dia o engajamento que permite o ajustamento entre a conduta individual e o serviço ao Bem Comum. É a prática amorosa do Samaritano. O papa Paulo VI considerava a vocação política como a forma mais elevada da caridade. A política feita com amor se dirige a todos e todas e em particular a todos aqueles e aquelas que desconhecemos. Fazer política e ser consequente no seu agir são atitudes cristãs, coerentes e indispensáveis para quem pretende resistir aos novos ídolos imperiais.

Paulo VI escrevia que « a política é uma maneira exigente de viver o engajamento cristão ao serviço dos outros.” [xv]  Aceitando esta afirmação, ninguém pode dizer : «eu não faço política » pois, quem assim fala, na mesma medida, já escolheu fazer a política de recusa do serviço aos outros. A política não pode ser negócio de culto de personalidade nem objeto de idolatria ou de uma simples luta para o poder fora das normas da ética e ainda menos de um comércio de interesses pessoais e corporativos. Fazer política encontra seu símbolo no lava-pés e na perspectiva do SERVIÇO presente no Evangelho onde Jesus se torna a figura do verdadeiro político enquanto Pilatos representa a figura do exercício do poder sacrificando o projeto de vida. Servir o outro na sua dignidade é reencontrar o verdadeiro exercício do poder. Lucas dá um exemplo : « Entre eles houve … uma discussão sobre qual deles deveria ser considerado o maior. Jesus, porém, disse : « Os reis das nações têm poder sobre elas, e  os que sobre elas exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas entre vocês não deverá ser assim. Pelo contrário, o maior entre vocês seja como o mais novo; e quem governa, seja como aquele que serve.”[xvi]

B. O Bem Comum, fundamento teológico do poder

Além de ser uma exigência da fé cristã, a Igreja, na sua Doutrina social, apresenta o Bem Comum como o fundamento teológico do poder, justificando assim o engajamento político.

Vaticano II definia a « política » como o « uso do poder legítimo en vista da conservação do Bem Comum da sociedade”. [xvii]  O papa João Paulo II retomou esta definição acrescentando-lhe que o « Bem comum » é « o conjunto das condições da vida social que permitem aos indivíduos, às famílias e às associações de poder realizar de maneira mais plena e mais fácil sua própria realização, sua própria perfeição, isto é, a plena realização da pessoa.” [xviii] Assim entendido, a política não pode ser a SERVA da economia, como o entendem hoje muitos governantes, mas deve ser a SERVA da plena realização do ser humano e de todos os humanos, a SERVA DA FELICIDADE.

Para que o Bem comum se realize, acrescentava João Paulo II no seu encontro com os políticos «é necessário garantir a todos e todas iguais oportunidades e dar uma atenção especial àqueles e àquelas que, por motivo de saúde ou por causa de sua condição social, correm o risco de ficar para trás.” [xix]  É uma outra maneira de falar da opção pelos pobres. A opção pelos pobres exige o ter cuidado com aqueles e aquelas que, por sua situação de exclusão social, isto é por não ter as condições mínimas de sobrevivência ou por motivos de saúde, não podem participar como os outros e, assim, correm o risco de ficar à margem da sociedade. Fazer política é vigiar pela felicidade de todos e todas, conservando porém um olhar e uma atenção especiais para com os excluídos da vida e da felicidade.

C. A política, terra de missão – Lugar de uma prática do amor evangélico

A política, hoje, é uma « terra de missão ». Por este motivo, ela deve se situar bem no coração da Igreja. A política é uma « terra de missão » porque é um campo da atividade humana bastante desconhecido e visto com preconceitos, especialmente da parte dos militantes cristãos, É também “terra de missão” porque é um campo de atividade onde a tentação do poder se faz muito intensa. O exercício da política nunca foi tão afastado da Doutrina social da Igreja.

A maior parte dos espaços tanto no interior quanto no exterior da Igreja, dominados pelo ídolo-mercado, se fecharam por causa do seu pensamento que se tornou único e autosuficiente e, em nenhum outro momento de sua história, a disputa pelo poder foi tão afastada da busca do Bem comum. As forças que comandaram até o momento presente o Estado brasileiro investiam unicamente na modernização dos “patterns” de consumo das classes ricas, prejudicando portanto o nível de vida das classes dos trabalhadores e trabalhadoras e marginalizando uma parte considerável da população. Não teria sido o dever da Igreja, tomando a sério a sua função profética, de denunciar o afastamento da política do seu sentido cristão ?

É preciso também notar que uma visão política  frágil e mesquinha não se encontra somente nos setores populares não organizados mas nas suas lideranças que não chegam a tomar consciência do que o povo pensa e a entender o seu agir. Prevalece ainda o velho esquema: “Nós sabemos e o povo deve ser ensinado por nós ». A política dos grandes temas relativos à humanidade da pessoa e da sociedade ainda fica muito longe de nossa consciência social e de nossa ação política. Para efetivar uma mudança na vida política, a Igreja não poderia na  programação de formação das comunidades estimular  a participação efetiva dos seus membres à vida pública ? Quão preciosa seria esta contribuição das Igrejas !

Concluindo. A política é uma verdadeira terra de missão pois ela é um lugar de necessária colaboração para que os valores do Reino possam encontrar nela a sua plena realização. Reconhecer a política como uma “terra de missão” é aceitar que o Evangelho aí seja proclamado no que tem de fundamental, isto é que seja proclamada a humanidade do ser humano como universalidade e como realização de Deus.

2.2.2  A política como partido político

Agora temos que falar da política como partido político, como militância em partido político. O que diz a fé cristã a este respeito ? o que diz a Igreja ? o que tem a dizer os cristãos e cristãs ? Documentos oficiais da Igreja católica instituem uma diferença entre a hierarquia que pensa política como serviço ao Bem Comum e o leigo como protagonista da construção do mundo através da militância política partidária. Esta distinção abre espaço para uma perigosa dicotomia: o temporal para os leigos e o espiritual para a hierarquia. Antes de ir mais adiante, eis um testemunho de uma cristã, eleita deputada estadual no Maranhão. Seu engajamento  em diversos setores da vida já tem tempo suficiente para ser experiência a ser relembrada. Vamos ler um trecho do seu discurso de posse:

“Não posso deixar de assinalar, entre os marcos de minha vida, os meus compromissos com minha comunidade de fé, pela força sacramental do Batismo.   Pertenço, conscientemente, a uma Igreja que declarou, na Assembléia dos Senhores Bispos da América Latina, em Puebla, em 1979,  sua opção preferencial pelos pobres, reafirmando, assim, todo o magistério já proclamado muito antes pelo próprio Jesus, principalmente no Sermão da Montanha.   Aprendi, inclusive, através d’Ele, que os mais felizes são “os que ouvem a  Palavra e a põe em prática.

Esta prática é o grande desafio. Ela nos impele a romper com toda estrutura  iníqua de Poder, sem fazer concessões, sem transigências. Ela nos impulsiona a uma ação transformadora da sociedade, a partir do próprio testemunho de vida nas realidades concretas.  Por isso, o papa Paulo VI, ainda em dezembro de 1975, no documento A EVANGELIZAÇÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO, nos exorta a atingir, como que a modificar os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida, que se apresentam em contraste com a Palavra.

O parágrafo 1º do art. 86 do Regimento Interno desta Assembléia me informa que a “Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a Mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”.  Esse dispositivo me faz crer que os critérios de julgamento, os valores que contam, os modelos, os centros de interesse, as linhas de pensamento e as fontes de inspiração que permeiam o agir desta Casa deverão estar em perfeita sintonia com o conteúdo do livro que está sobre a mesa dos trabalhos.   Caso contrário, não passaria de simples adorno, o que não terá sido o pensamento de quem propôs tal regra para este Parlamento.[xx]

O partido político é a mediação necessária para traduzir um projeto de sociedade e é por meio dele que os cidadãos e cidadãs descobrem as perspectivas de um projeto nacional que atenda melhor as necessidades do povo. Ele é absolutamente indispensável.  Importa interrogar o porque da Igreja ter tanta dificuldade em lidar com os partidos políticos. Não aprofundaremos aqui esta questão mas quantas vezes tivemos a oportunidade de nos dar conta que, quando um leigo engajado na comunidade cristã resolve entrar na política partidária e consegue assumir um mandato, logo está sendo abandonado.  Quantas vezes as comunidades cristãs recrutaram candidatos e candidatas para se engajar na política de partido, fizeram campanha eleitoral com eles e acabaram por se afastar deles. O que é que poderia explicar essa dificuldade de relações ?

À primeira vista, poder-se-ia afirmar que o problema não existe e que a Igreja sempre se fez próxima dos partidos políticos tanto da esquerda como da direita mas este jeito de pensar não explica porque os movimentos da Igreja ligados aos partidos políticos tem dificuldade em conservar seu carisma cristão. Após diversos ensaios, numa primeira reflexão, os cristãos e cristãs chegaram à conclusão de que se tratava de uma compreensão errada da relação entre religião e política..

Explico: existe uma situação de dois pesos duas medidas qui explicita a desigualdade no jogo. De um lado, verifica-se a relação de boa vizinhança mantida pelos movimentos católicos conservadores com os partidos políticos conservadores ou com os partidos que tem o colorido cristão, criados ou não pela Igreja ou apoiados por ela. Porque será que estes partidos são sempre aceitos e vistos como algo desejável ? Por outro lado, nota-se que certos agentes de Igreja e políticos são profundamente incomodados quando as pastorais e os movimentos, em razão de suas posições e práticas, se aproximam e agem, em certas circunstâncias, em acordo com os partidos políticos de esquerda que tem propostas e práticas inovadoras e perseguem o objetivo da justiça.  Porque será que assim aconteça ?

A primeira situação parece dizer que de fato devemos separar religião e política do mesmo jeito que separamos economia e direitos sociais, política e justiça. Separando a religião da política, tem-se a certeza de que o cristão engajado ficará no terreno das preocupações internas da Igreja e que o político ficará também sobre o seu próprio terreno. É uma compreensão pelo menos estranha da relação entre religião e política. É uma compreensão que expressa claramente o fechamento sobre a sua esfera de poder. Assim concebendo, não estaríamos diante de uma concepção errada da política e do Evangelho ? Pois bem, separando religião e política, estamos expressando uma crise de perspectiva e uma impossibilidade de compreender as mudanças sociais e políticas e em particular de compreender a razão da vinda de Jesus. Fazer política, não seria proclamar e tornar efetivos os valores inerentes à condição humana ? Perder a dimensão do universal e consequentemente do sentido pleno e singular da política e do Evangelho, é comprometer seriamente a missão da Igreja.

2.2.3    Aproximar-se não é assimilar

Pelo visto, faz-se necessário estabelecer uma justa relacão entre religião e política, o que não significa confundí-las. Não se trata de transformar os movimentos e\ou as ações das Igrejas em instrumentos de partidos políticos mas de entender que existem diversas maneiras de lutar em defesa da vida e que existem diversos rostos de expressão do amor concreto e histórico,  todos porém construindo o Reino.

Os cristãos e as cristãs teriam vantagem em se aproximar das pessoas de boa vontade, organizadas em movimentos e\ou partidos políticos, que no seu compromisso cotidiano expressam a disposição de dar os passos necessários para construir o Reino prometido e já realizado pela Vida, Morte e Ressurreição de Jesus. Neste sentido, os partidos políticos de esquerda e o Evangelho tem uma cumplicidade surpreendente pois tanto os partidos quanto o Evangelho são fermento, sal e luz. Eles indicam claramente o lugar e a importância radical da força transformadora do Evangelho, são inspiradores de novos projetos sociais, políticos, econômicos, culturais e espirituais e, também,  engendram a Esperança no coração da humanidade ainda mantida presa pelas elites dominantes. A humanidade tem necessidade da presença espiritualmente  revolucionária dos discípulos de Jesus. É uma urgência.

Fazer-se presente nos partidos políticos, animá-los, encorajá-los, comprometer-se com eles para que um dia a sociedade tenha capacidade de gerir seu próprio destino e de depender cada vez menos  de mecanismos de contrôle e de repressão é uma outra maneira de aproximar religião e política sem confundí-las. Aliás, isso faz parte também da missão das Igrejas. Seria uma outra maneira para os cristãos e as cristãs de ajudar os partidos a reconhecer que o povo, em particular os pobres, devem ser mesmo os protagonistas do seu futuro e que isso se conquista com muita luta. Até hoje, os pobres sempre foram e estão em terceiro lugar. Na verdade, há sempre alguém que está aí para decidir por eles. Há sempre alguém para dizer o que eles pensam, o que eles querem  e até para explicar o que eles dizem, o que fazem, o que eles querem dizer e o que eles querem fazer. Quando não é o Estado, é o partido político. O dia em que os pobres exercerão o seu poder de decisão, o Reino estará próximo. Engajar-se “utopicamente” nesta missão histórica é praticar o Evangelho no que ele tem de mais dinâmico.

Assim fazendo, as Igrejas contribuirão a enfraquecer a falsa sede de poder que habita ainda em tantas pessoas e os partidos políticos sedentos do Bem Comum se encontrarão com o Evangelho na universalidade da pessoa humana, coração da prática evangélica.

2.3 A fé cristã, um encontro da religião com a política e da política com a religião

Religião e política são dois componentes da fé cristã. Porém ela não é instrumento técnico delas pois ambas tem sua autonomia. A fé as ilumina e as orienta. Como isto pode ocorrer ? A fé cristã é um processo de adesão a uma nova maneira de SER. Ela age como luz, fruto de uma opção pessoal de vida e de uma longa caminhada de comunhão  e de conversão a Jesus Cristo e a seu projeto. E esta luz ilumina a religião e a política de acordo com o jeito cristão de ser. Em outras palavras, sem uma experiência profunda de Jesus Cristo e de seu projeto, a fé cristã não pode pretender de maneira alguma iluminar a religião e a política. Assim sendo, é só a partir de um testemunho de Jesus que um cristão e uma cristã podem descobrir as interações entre a religião e a política. A prática de Jesus revela o amor do Pai para com seus filhos e anuncia a realização próxima do Reino, isto é, Ele anuncia um mundo governado de acordo com a vontade do Criador, liberto de todo mal e de toda injustiça, de todo sofrimento e de toda dor, restabelecendo em sua integridade as relações da humanidade com Deus, com seus semelhantes e com o mundo.

2.3.1  As contribuições da fé cristã à política

O que diz a fé cristã à política ? Como pode iluminá-la ? Tomando como referência o testemunho de Jesus, podemos destacar tres valores: o exercício do poder, a prioridade dada às pessoas e a Esperança. Essas três contribuições da fé cristã podem iluminar o exercício da política. Vejamos.

“Quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês” [xxi], dizia Jesus. O poder só pode ser exercido para o serviço do Bem Comum, pois o verdadeiro poder reside na dignidade da pessoa humana. Ele não se exerce por imposição, arrogância, egoismo e ambição mas pela gratuidade do amor. Tal exercício do poder supõe uma tomada de consciência de seus limites e da maneira de vivê-los em ligação constante com a sociedade civil. Tal exercício do poder consiste em viver a verdade não toda feita com antecedência mas verdade que se descobre por um esforço constante de participação e de comunicação.

A fé cristã relembra também à política que o Bem Comum só pode ser conquistado por uma luta constante em favor de um projeto a serviço das pessoas e jamais contra as pessoas. Para que esse projeto fique em acordo com o Evangelho, o engajamento implica uma luta contra a injustiça junto a uma constante busca de amor do inimigo. Esta dimensão tem para o Evangelho uma importância capital. É ela que ajuda os políticos a aprofundar suas relações entre eles e a descobrir as diversas tendências de busca do Bem Comum muitas vezes expressas nos partidos políticos nos quais militam.

Enfim, a fé cristã dinamiza o processo político alimentando a Esperança através da paciência histórica sem exigir portanto a eficácia e os resultados imediatos. A precipitação afasta as pessoas e muitas vezes as impede de assumir seu papel de protagonista de sua história. A Esperança não é uma simples  renovação de repetir o que já aconteceu mas é um futuro aberto para um novo começo, superior ao primeiro. Quanta riqueza para um povo conquistador do seu futuro !

 2.3.2  As contribuições da fé cristã à religião

Agora, o que diz a fé cristã à religião ? A fé cristã reconhece a autonomia da política e lhe reconhece a competência que tem para elaborar um projeto de vida em sociedade que permite a realização do Bem Comum. Porém, é necessário também reconhecer que, em geral, as pessoas tem tendência em se unir mais em torno de projetos de emergência e de assistência que melhoram as condições de vida a curto prazo mais do que em torno de projetos que, para servir o Bem Comum, exigem uma mudança profunda e estrutural. Não é raro constatar que, quando um projeto exige uma mudança em profundidade, as pessoas tem tendência em tomar distância, a resistir e até a excluir os protagonistas da mudança. Esta reação explicita bem a visão que muitos cristãos e cristãs tinham no tempo da ditadura no Brasil. Queria-se a mudança mas qual mudança? E esse agir era, de fato, em fidelidade à sua religião. Quantos afastamentos ! Quantas recusas ! Qual é essa fé que inspira uma tal religião ?

Sim, a fé cristã deve também questionar a religião. Em nome de qual deus a religião não autorizaria a união dos cristãos e cristãs em torno de reformas profundas de mudança ? Em nome de qual deus a religião justificaria ainda o processo secular de dominação e de conformismo ? Em nome de qual deus a religião substituiria a sua voz profética por favores recebidos ou a receber ? Em nome de qual deus a religião permitiria a submissão para manter prestígio e privilégio ? Não seria certamente em nome do Deus de Jesus ! Em efeito, a fé cristã deve interrogar a qualidade da religião dos cristãos e das cristãs.

A fé cristã relembra aos cristãos e cristãs que ela promove um projeto de sociedade onde devem ser vividos a dignidade, o respeito, o amor, a partilha dos bens e a participação e que são chamados a colaborar não somente pela contestação et pela crítica mas também por uma colaboração efetiva.

Digamos, para resumir, que se a fé cristã convida a política a mudar o projeto de sociedade para que ele seja realmente ao serviço do Bem Comum, ela convida tamtém a religião a mudar a concepção do seu deus. A fé cristã, aquela do Evangelho de Jesus, inspira e ilumina a religião e a política. Ela dá coragem, disposição e dinamismo e leva a ingressar na dinâmica da mudança.

2.3.3  Política e religião se encontram para realizar um sonho

Quando política e religião iluminadas pela fé cristã se encontram, elas se situam bem no centro do projeto de Jesus que é o projeto de Deus sobre o mundo. E neste projeto há espaço suficiente para que todo ser humano possa colaborar à sua realização concreta. A articulação entre as duas é possível por meio da opção pelos pobres, dos excluídos, dos que vivem à margem da sociedade.. Em efeito, o que une na fé cristã a religião e a política é a busca da libertação dos pobres e o que cria a comunhão entre o político e o cristão é a opção sem equívoco pela felicidade de todos os seres humanos, pela busca do Bem Comum. Os dois, cristão e político, se encontram quando eles lutam com gratuidade e despojados de interesses pessoais num projeto de comunhão e de fraternidade em favor do povo, dando prioridade aos mais pobres. O político ajuda o cristão a descobrir que o verdadeiro poder reside na conquista da cidadania e o cristão ajuda o político dinamizando seu quotidiano na perspectiva do “já realizado” e do “ainda não”. Na fé cristã não se pode separar religião e política. Unidas, elas permitem a mudança do mundo no qual vivemos e constrõem o Reino. São os dois rostos inseparáveis do Evangelho.

Quando a gente se engaja a colaborar na mudança do modelo de vida em sociedade para que esteja em coerência com o projeto de Deus, estamos fazendo política e quando tomamos cuidado da qualidade do nosso engajamento que ilumina e inspira o percurso na realização deste projeto, estamos vivendo a fé. Assim sendo, não podemos falar nem de política cristã e nem de política neutra. Falando desse jeito seria ressuscitar a sombra de Pilatos. O Evangelho de comunhão só pode se viver num engajamento solidário dos políticos e dos cristãos num projeto de sociedade que renova a face da terra.

Religião e política na fé cristã se unem para realizar um sonho. É o sonho a serviço de uma utopia. É o sonho de um mundo onde a dignidade de cada um e de cada uma é reconhecida, onde reina a liberdade, onde os direitos humanos são respeitados, onde as condições mínimas de vida são asseguradas, onde existirão novas relações de igualdade, de respeito, de autenticidade, onde o outro não será em primeiro lugar um inimigo mas será aceito como uma parte de si mesmo, onde todos terão acesso às riquezas, onde todos e todas se respeitarão e viverão sua autonomia na cumplicidade das diferenças e onde será reconhecido definitivamente o Pai de Jesus.

A. Alguns elementos a levar em conta

Como fazer para que a política, no Brasil, seja o que deve ser, isto é a “arte do possível”? Como fazer para que o projeto do Deus de Jesus Cristo se torne realidade ? Para melhor entendimento, vamos considerar tres elementos : o Reino de Deus, o diálogo e a clareza a respeito das suplências e, para terminar, algumas considerações referentes à situação política atual do Brasil. [xxii]

1. No centro: O Reino de Deus

Jesus relembrava que tinha vindo para que « houvesse vida em abundância ». Quando buscamos articular religião e política, não podemos esquecer o fundamentalismo, o integrismo e a cristandade vividos pela Igreja católica e não podemos esquecer que, no decorrer desta história, ela buscou sua sobrevivência na política. Nesta reflexão que ora fazemos, não temos a preocupação da promoção e da afirmação da Igreja em si mas a do avanço do projeto de Jesus, projeto do Reino. A vida de Deus neste mundo foi maculada. A vida humana e seu meio ambiente são seriamente comprometidos. Eis a razão porque, parece-me, que articular religião e política na fé cristã é acreditar que Jesus veio neste mundo para libertar a vida e que nossa responsabilidade consiste em trabalhar para que aconteça.

2.  O diálogo

A necessidade do diálogo constitue outro elemento importante para que religião e política se articulem bem. Nós católicos, cristãos e cristãs não somos os únicos a lutar para construir o Reino. Existe muita gente de diversas religiões e de diversos outros movimentos que até podem não fazer referência a nenhuma inspiração religiosa mas que tem o espírito da vida. Em razão de nossa fé somos incentivados e impelidos a construir o Reino com todas essas pessoas de crenças e de referências diferentes das nossas. Em razão de nossa fé, somos parceiros. Não temos o privilégio e nem a responsabilidade de construir sózinhos o Reino. Somos todos e todas chamados. O espírito que deve nos guiar na articulação da religião e da política não é aquele de « nós fazemos e os outros, não” mas aquele que, pelo diálogo, numa convergência de forças e numa complementariedade de inspirações, nos chama a servir o único Espírito que sopra onde quer. Este Espírito sopra tanto nas religiões quanto fora delas. É o que nos permite construir juntos a vida e a felicidade que, cristãos e cristãs,  denominamos de « projeto do Reino de Deus ». O ecumenismo, o diálogo interreligioso e a capacidade de diálogo com aqueles e aquelas que tem sua inspiração fundada até fora da religião não somente são possíveis e oportunos mas necessários pois ninguém esgota o tamanho da tarefa da construção do Reino no campo social. Temos necessidade de todos e todas. É o espírito da presente pesquisa e reflexão.

Entretanto, como cristão e cristã, neste diálogo, temos algo específico a dar : a ESPERANÇA. Carregamos com os outros uma utopia, um sonho que nenhuma mediação histórica esgotará. Carregamos a Esperança que vem da certeza que, neste poço da vida da história, Jesus Cristo, aquele que o Pai ressuscitou, já se banhou. Temos a Esperança que esta construção do Reino será realizada.

3. A clareza nas suplências

Faço apenas menção de um terceiro elemento necessário  para uma justa articulação da religião e da política, o do discernimento nas suplências. Existem coisas que fazem parte da natureza da Igreja, de sua missão e que lhes são essenciais et existem outras que são apenas provisórias. Esta distinção tem que ser feita pois misturar o essencial e o provisório só dificultaria a articulação e conduziria a equívocos e ambiguidades difíceis de superar.

B.  Um agir na conjuntura política atual do Brasil

Os cristãos e cristãs das comunidades eclesiais de base tem uma longa experiência de engajamento social e político. As eleições dos últimos anos são o resultado de todos esses anos de fracassos, de angústias, de demorados sofrimentos, de teimosia no trabalho e de uma fé profunda que sempre os sustentou. A chegada de um operário sem diploma na presidência da República e a eleição do governador atual no Maranhão, apesar de todas as suas ambiguidades e limitações, são resultados inéditos. Somos cada vez mais conscientes da necessidade da participação popular para continuar e sustentar o espaço conquistado na construção do Reino. Ouso apresentar algumas orientações :

1. Em primeiro lugar, relembramos que a democratia necessita ser solidificada. Infelizmente não será possível fazê-lo enquanto os políticos continuarão a defender seus interesses pessoais numa promiscuidade entre o público e o privado. Haverá eleições municipais num futuro próximo em todo o país. Uma primeira tarefa consistirá em enfrentar estes equívocos, num trabalho articulado, aberto e corajoso, a ser proposto de maneira clara às comunidades pedindo lhes que iniciem um novo processo de participação, desta vez mais coerente, dos cristãos e cristãs na política. Para que aconteça, dever-se-á priorizar a formação permanente do trabalhador e da trabalhadora socializando o conhecimento e acentuar a mística do serviço.

2. Em segundo lugar, constatamos que quando os partidos políticos e os próprios políticos originados dos movimentos sociais chegam ao poder, duas alternativas se apresentam a eles: ou assumem responsabilidades e se integram ao poder –  corre-se nesse caso o risco de ser cooptados – ou optam por não participar do governo. Fiscalizam os engajamentos eleitorais e,  sem perceber, chegam a alimentar uma oposição que apenas gosta de se apropriar de toda crítica popular. Entre estes dois extremos  os movimentos populares deverão encontrar um espaço que seja o seu, isto é um espaço onde a autonomia e a capacidade crítica estejam a serviço de um novo projeto para o Brasil e para o Maranhão.

3. Em terceiro lugar, relembramos que, por medo de implicar a comunidade em opções de partido político, a hierarquia da Igreja católica insiste para que se deixe exclusivamente a cada cristão e cristã o direito de definir seu critério subjetivo que o conduzirá à escolha do seu candidato, critério que, supõe-se, estaria em correspondência aos valores evangélicos que a Igreja tem costume de pregar. Infelizmente,  este posicionamento fragiliza o prestígio dos partidos que são mediações indispensáveis para concretizar qualquer ideal político.

Este posicionamento, na situação atual, arrisca prejudicar muito o processo político eleitoral pois, além do partido, não temos ainda outra mediação organizada que pudesse se tornar instrumento auxiliar para ajudar o discernimento político, indispensável tanto para identificar os valores em jogo nas propostas políticas quanto para desmascarar as práticas de quem emprega a política para pervertir suas verdadeiras finalidades.

Enfim, digamos que essa opção doutrinal de natureza subjetiva falha pela sua incoerência,  pois a pretensa neutralidade da comunidade, na realidade, se torna pretexto para evitar o engajamento e muitas vezes esconde uma sutil cumplicidade. Nestes termos, a pregação teórica se torna ineficaz e perde sua credibilidade.

Dito isso, percebe-se a urgência de uma « pastoral política », nesta “terra de missão” para criar uma mediação necessária entre os princípios doutrinais e o engajamento dos cristãos e cristãs. Sem ela, continuar-se-á a prática do divórcio entre a religião e a política, prejudicando as duas e, com certeza, a fé cristã.

Conclusão

Na fé cristã, religião e política se encontram. As duas tem a mesma finalidade, a FELICIDADE de todos os seres humanos. E o seu ponto de encontro é a opção pelos pobres e excluídos pois eles são o sinal evidente das fraquezas de um projeto de sociedade caracterizado pelas desigualdades e ausência de fraternidade. Unir religião e política é questão de identidade que se impõe a todo cristão e cristã pois o projeto de Deus chamado de Reino tira suas raízes na experiência vivida, transcende-a e revela Deus. Jesus se inseriu na história apropriando-se de todas as dimensões da vida humana, inclusive os conditionamentos materiais e socio-econômicos, mostrando assim que todas as dimensões, independentes de sua referência eclesial, possuem um valor divino e teologal. A política, na medida em que integra as dimensões da reciprocidade, da solidariedade e da justiça, expressa sua vontade e concretiza o que Jesus quis e realizou.

 



[i] RACE, Alan, Les idoles de la sécurité, citado por Timothy RADCLIFFE, Que votre joie soit parfaite, Paris/Montréal, Cerf/Fides, 2002, p. 265.

[ii] RIBEIRO DE OLIVEIRA, Pedro A, Análise de conjuntura, CNBB, novembro 2002.

[iii] ANTONIAZZI, Antônio, “Leitura socio-pastoral da Igreja no Brasil (1960-2000)”, em Conjuntura Social e Documentação, CNBB, nos 638, 641, 642, 644.

[iv] BANDEIRA, Marina, A Igreja Católica na Virada da Questão Social, (1930-64), Rio de Janeiro, Vozes-Educam, 2000, p. 279-351.

[v] VATICANO II, “Igreja no mundo de hoje”, em Concílio ecuménico Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1966, p. 137.

[vi] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 8 (série azul).

[vii] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 10 (série azul).

[viii] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 36 (série azul).

[ix] ASSELIN, Victor, “Política, terra de missão”, seminário sobre “Fé e política”, Balsas, Ma, Brasil, 25-27 junho 2002, p. 4-5.

[x] Id., p. 5.

[xi] Eleições 2002, Propostas para reflexão, Documentos da CNBB, no 67 (série azul).

[xii] ASSELIN, Victor, “Política, terra de Missão”, texto de estudo, Balsas, Ma, Brasil, junho 2002.

[xiii] Mt. 13, 44-46.

[xiv] SAMPAIO, Plínio de Arruda, Notas, Seminário “Fé e Politica”, Balsas, Ma, Brasil, 25-27 de junho de 2002.

[xv] Paulo VI,  Octogesima Adveniens, no. 46.

[xvi] Lc 22, 24-26.

[xvii] VATICANO II, A Igreja no mundo de hoje, 74, dans Documentos do Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1966.

[xviii] JOÃO PAULO II, Jubileu dos Políticos, 2000.

[xix] Id.

[xx] HELUY, Helena, “Discurso de posse” na Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão, 01 de fevereiro de 2001.

[xxi] Mc 10, 43.

[xxii] MASSERDOTTI, Dom Franco, palestra “Política, terra de Missão”, Seminário Balsas, 25 junho 2002.

Conferência pronunciada  em francês no Seminário organizado pela Universidade Saint-Paul, Ottawa, Ontario, Canadá com o tema FÉ CRISTÃ E POLÍTICA, no dia 28 de fevereiro de 2003, publicada na revista « Sciences Pastorales » da Faculdade das Ciências Humanas da mesma Universidade, vol 23, nº 1, 2004, p. 55-79, traduzida em português pelo autor e atualizada em julho 2007.

Victor Asselin, sacerdote da diocese de Nicolet, Québec, Canada, exerce seu ministério há mais de 40 anos na região do Maranhão, Brasil. Iniciou seu trabalho pastoral  na diocese de Pinheiro em 1966, foi o coordenador da Pastoral desta  Diocese,  primeiro coordenador das Comunidades Eclesiais de Base pelo Maranhão, membro fundador da Comissão Pastoral Nacional da Terra, da qual foi seu primeiro Vice-presidente de 1975-1980,  fundador desta mesma Comissão no Maranhão em 1976. diretor da Rádio Educadora e diretor da Cáritas Maranhão. Fez direito na Universidade Federal do Maranhão e passou a exercer advocacia na prática da defesa dos direitos dos mais pobres e da conquista da cidadania, além de exercer o magistério no início das atividades do IESMA. Sempre se interessou pela política e chegou a exercer funcões em prefeituras do Estado.

RESUMO

A fé cristã e a política podem se articular e conviver juntas ?  Para nos convidar a uma reflexão sobre as relações necessárias entre ambas, o autor explica o intenso esforço que fizeram as Comunidades eclesiais de base  através de sua prática pastoral. Recusando de se fechar em problemáticas internas às Igrejas e tomando distância de um puro engajamento social sem motivações desinteressadas, os membros das CEBS tentaram descobrir como realizar o Reino num  agir político inspirado pela fé cristã. O autor também questiona: porque os bispos tem tanto medo da política ? Onde religião e política se encontram ? O que a utopia do Reino e a Esperança cristã tem a fornecer como contribuição para a construção social ?

Religion et Politique

RELIGION ET POLITIQUE

Réflexion sur l’engagement des chrétiens et chrétiennes des communautés ecclésiales de base (CEB) au Brésil

« … dans la mesure où nous sommes prêts à transgresser toutes les limites morales au prétexte de servir une personne ou une collectivité quelconque, nous faisons d’elle un dieu. Au sens le plus réel, obscurci d’ordinaire par la séparation moderne entre religion et politique, nous sommes tombés dans l’idolâtrie. Nous avonbs fait de l’État un dieu » (1)

 

« Les chrétiens de la post-modernité (individuellement ou regroupés dans de nouvelles associations) pourront-ils redevenir des acteurs politiques significatifs ? À l’opposé, le politique refluera-t-il de quelque façon sur la religion ? » Voici l’interrogation suggérée. Je me permets, pour mieux adapter le sujet à mes connaissances et mon expérience, de reformular la question dans les termes suivants: « Les chrétiens et les chrétiennes engagés en politique au Brésil, en Amérique du Sud, sont-ils des acteurs significatifs ? Quels liens font-ils entre la religion et la politique ? Peut-il exister des interactions entre les deux ? En d’autres mots, est-il possible d’être à la fois chrétien et politicien ? Est-il possible de lutter contre l’injustice et d’aimer son ennemi ?/ Ma réflexion sur le thème tentera d’évaluer l’engagement des chrétiens et chrétiennes, particulièrement de l’Église catholique, dans le contexte socio-économico-politique du Brésil. Le mot « religion » se situe alors dans un univers restreint come le sera aussi celui de l’ »Église ». La relation religion-politique a toujours été difficile pour l’Église. Congar, à la fin de sa vie, déplorait le fait que cette question ait été si peu travaillée. Aujourd’hui, elle devient plus compliquée du fait que l’expérience religieuse s’est déplacée vers l’individu sans la médiation des institutions, à l’intérieur de la logique de la valorisation de la subjectivité. Les religions, qui ont eu la capacité d’orienter la vie sociale, aujourd’hui se révèlent être des sources à peine possibles de sens pour le monde et la personne. La modernité et la post-modernité obligent alors les Églises à renoncer à quelque prétention d’imposer à la société des principes et ses normes. Dans ce contexte, quelle est la position des chrétiens et chrétiennes ? Quel horizon politique pouvons-nous découvrir pour les Églises ?

 

Actuellement, au Brésil, un nombre croissant de personnes déclarent ne pas avoir de religion et 15,4% de la population se dit évangélique. Jusqu’à ces années-ci, ce dernier groupe se maintenait loin de la politique, alors qu’aux élections d’octobre 2002 il obtenait presque 10% des élus tant au niveau de la Fédération que des États. Il est vrai que, dans le « cadre évangélique », nous devons faire la distinction entre Églises historiques et Églises de la Pentecôte et néo-Pentecôte. Reste un fait: parmi les élus de cette année, on compte 6 évèques et 13 pasteurs.(2)

 

Pour mieux camper la réflexion, je tentarai de faire dans un premier temps une lecture socio-pastorale des cinquante dernières années de l’Église catholique au Brésil. Dans un deuxième temps, je présenterai l’analyse que font généralment chrétiens et chrétiennes du thème « Religion et politique » et des articulations qui en ressortent. Pour, dans un troisième temps, dégager quelques é;l.éments à considérer afin de bien poursuivre le rêve quiotidien du Royaume.

 

1ère  partie: LECTURE SOCiO-PASTORALE  DE L’ÉGLISE CATHOLIQUE AU BRÉSIL

 

Au Brésil comme un peu partout dans le monde occidental à prédominance chrétienne, la religion est passée du primat de l’institution à celui de l’individu et d’un regad tourné vers la transcendance à une recherche de solutions immédiates aux problèmes humains de chaque jour.

 

1.1 Évolution de l’Église Catholique de 1950-2000

 

Nous inspirant de la lecture du théologien brésilien Alberto Antoniazzi (3), nous pensons que quatre étapes marquent l’évolution de l’Église catholique au Brésil dans les cinquante dernières années.

 

1) D’abord, on est parti d’une solide institution traditionnelle, où les fidèles acceptaient l’autorité de la hiérarchie ecclésiastique pour orienter leur foi.

 

2) Puis, l’accent fut mis sur les communautés. Il s’agissait de communautés relativement petites, où la relation entre les personnes est directe et proche. C’est l’Époque de la croissance des Communautés ecclésiales de base (CEB) dans les années 70 et des « nouveaux mouvements » des années plus récentes. Dans les deux cas, les relations de proximité et de parenté sont importantes, l’expérience de la foi est soutenue davantage par le groupe, la doctrine qui génère la vérité est celle qui se fait cohérente avec l’expérience de la communauté. Toutefois, les CEB’s et les « nouveaux mouvements/ se différencient: les premières par leur engagement social et les deuxièmes par leur caractère émotif et les liens affectifs institués entre les personnes.  

 

3) Par la suite, les CEB’s et les « nouveaux mouvements » vont exprimer à leur manière l’élément principal qui les caractérise. Les CEB’s accentuent le caractère social de leur engagement, alors que les « nouveaux mouvements » ne sentent pas la nécessité de partager la vie de groupe, mais préfèrent plutôt suivre l’exemple de quelqu’un qui leur semble plus authentique dans son expérience religieuse. C’est la troisième étape.  

 

4) Enfin, alors que les chrétiens et chrétiennes des « nouveaux mouvements » cherchent à légitimer leur foi à l’intérieur d’eux-mêmes – « ma religion, c’est moi », disait un catholique non pratiquant – et que la communauté n’a plus d’importance si ce n’est qu’elle représente un espace de supermarché où le client choisit et achète ce qu’il veut, de leur côté les chrétiens et chrétiennes des Communautés ecclésiales de base, prenant conscience d’avoir accentué l’engagement politique et social au détriment de leur relation avec Dieu, cherchent à approfondir la motivation de leur engagement.

 

Le contexte de la réflexion sur le thème proposé sera celui de l’expérience menée au sein de ces Commmunautés ecclésiales de base (CEB’s)

 

1.2 L’Église des Communautés ecclésiales de base (CEB’s)

 

Que dire sur les Communautés ecclésiales de base ? Retracer quelques traits de leur évolution peut nous aider à comprendre comment, au nom de leur foi, chrétiens et chrétiennes ont découvert l’importance de l’engagement politique. Les CEB’s ne sont pas le fruit d’une génération spontanée, mais le résultat de l’engagement de chrétiens et chrétiennes – évêques, prêtres, religieux, religieuses et laïcs – issus de l’Action Catholique, spécialement JEC, JOC. JUC, raffermis par l’ouverture du concile Vatican II, qui ont pris le risque de vivre l’Église de manière différente (4).

 

« Les joies et les espoirs, les tristesses et les angoisses des hommes de ce temps, des pauvres surtout et de tous ceux qui souffrent, sont aussi les joies et les espoirs, les tristesses et les angoisses des disciples du Christ, et il n’est rien de vraiment humain qui ne trouve écho dans leur coeur. Leur communauté, en effet, s’édifie avec des hommes, rassemblés dans le Christ, conduits par l’Esprit Saint dans leur marche vers le royaume du Père, et porteurs d’un message de salut qu’il leur faut proposer à tous. La communauté des chrétiens se reconnaït donc réellement et intimement solidaire du genre humain et de son histoire. (5)

 

1.2.1 Une Église alliée à l’élite

 

Le laïcat issu de l’Action catholique était bien présent à la société et solidaire des « Réformes de base » proposées par les autorités gouvernementales du début des années 60, comme l’était aussi la direction de la Conférence des Évêques. Paulo Freire avait initié, avec la « pédagogie de l’opprimé », le « Mouvement d’éducation de base » (MEB). Mais le coup d’État du 31 mars 1964 imposé par la force militaire faisait avorter le projet. La crise politique en engendrait une autre au sein de l’épiscopat. La direction de la Conférence nacionale des évêques démissionnait en bloc et, en mai de la même anne, les « métropolites » se réunissaient et émettaient une déclaration. On appuyait les militaires dans leur intention de libérer le Brésil de la menace communiste, on les remerciait et on souhaitait que la reconstruction du pays se réalise, inspirée par la Doctrine sociale de l’Église. Le pouvoir changeait, mais l’épiscopat restait l’allié du pouvoir.

 

1.2.2 Une Église alliée au peuple

 

Les années passèrent et les militaires manifestèrent peu à peu de profondes divergences d’avec la Doctrine sociale de l’Église. La réalité devint si négative que les sympathies et la nostalgie des évêques avec le pouvoir se détériorèrent. En même temps, mûrissait en son sein une nouvelle option politique et pastorale qui semblait renverser le « concordat moral » avec le pouvoir et les classes dirigeantes. Cette option, résutat du régime militaire et du refus des élites de maintenir le compromis tacite de l’alliance, entraîna l’Église comme institution à renoncer à l’alliance avec les élites et à assumer fermement la solidarité avec le peuple. Ce pas fut d’une importance capitale. L’Épiscopat prenait la décision de reconstruire l’Église à partir de la « base », c’est-à-dire de son insertion dans la vie des gens. Cette option lui donna une grande crédibilité auprès de la population. Quelques agents de pastorale prirent l’initiative de sensibiliser les CEB’s aux problèmes vécus dans leurs milieux respectifs. Une partie de la hiérarchie appuyait et encourageait la population civile à combattre la violence et l’autoritarisme. La lutte s’organisa principalement autour de l’accès à la terre et de la conquête de la démocratie. Malgré le grand nombre de souffrances - car ce furent des années de confrontation avec le martyre – on faisait de grands pas, surtout au niveau de l’organisation et du développement d’une mystique d’action.Les mouvements populaires firent ainsi la conquête de leur autonomie d’action, de réflexiion et de formation.

 

comme « Maîtresse de la Vérité »

 

En 1976, l’épiscopat ébranlé par tant de violence, réagit énergiquement avec le « Communiqué pastoral au peuple de Dieu » (6) et, tout de suite après, en 1977, avec le document « Exigences chrétiennes pour un Ordre politique » (7). C’étaient des options sans équivoque en faveur de la démocratisation du pays. Il s’agissait d’une position prise comme « Maître de la Vérité et de l’Éthique ». On indiquait à la société le vrai et le correct ordre politique.

 

Ces gestes de l’épiscopat déclenchèrent un mouvement national: des grèves apparurent, évidemment illégales en régime dictatorial, des manifestations pour la défense des droits à la terre et au terrain urbain s’organisèrent, l’opposition syndicale s’articulait comme forme alternative à la formule proposée par les militaires et les concentrations se multipliaient dans toutes les régions du pays. Le mouvement populaire était si fort qu’il conduisit à un mouvement national de mobilisation exigeant le retour à l’État civil et les élections du Président de la République par voie directe. La force du peuple vainquit le gouvernement militaire et les élections eurent lieu en 1985.

 

comme défenseur de la volonté du peuple

 

En 1986, les évêques réunis en Conférence publiaient le document « Pour un nouvel ordre constitutionnel » (8). C’était le moment de l’élaboration de la nouvelle Constitution du pays. L’épiscopat, cette fois-ci, ne se positionnait plus comme « Maître de la vérité », mais comme « défenseur de la volonté du peuple ». Ce fut un temps riche de participation. « Tout pouvoir vient du peuple et en son nom doit ètre exercé », dit la Loi suprème du pays. La participation de tous les groupes de la société et, en particulier, des classes pauvres, fut telle qu’on a appel. de document: « La constitution de la citoyenneté », publiée en 1988.

 

On célébrait le retour au régime civil et le pays avait sa nouvelle Constitution. Les objectifs visés par les CEB’s et les mouvements populaires étaient réalisés, mais on se retrouvait devant un  futur encore indéfini. Survint alors une période d’hésitations: on assista à la désarticulation des mlouvements, à la dispersion des forces, à la fermeture des espaces conquis en Église, à l’abandon, à la fuite et à la perte d’une partie du leadership, à la perte de vision d’ensemble et de motivation, au vide d’information, etc.

 

Cette période d’indétermination permit aux élites de continuer à faire illusion aux pauvres. L’Épiscopat n’avait plus la vigueur des années 70-80. Puis, à partir de 1990, apparurent de nouvelles tendances dans l’Église. On mettait l’accent sur le « spirituel ». L’influence des mouvements religieux internationaux se faisait sentir. D’engagée avec les « angoisses et les tristesses du peuple », la hiérarchie de l’Église retournait à sa vie interne, provoquant un changement radical au niveau de la formation de ses agents de pastorale. Les CEB’s et les principaux mouvements sociaux ne retrouvèrent pas, dans ce volte-face inattendu, l’ambiance d’évaluation, de réflexion et de croissance désirée et prirent une certaine distance.

 

Le processus de démocratisation fut un facteur d’importance pour la maturation politique des chrétiens et chrétiennes des CEB’s. De nouvelles questions apparurent, surtout celle de la « militance » au sein d’un parti politique. Devait-on s’engager dans un parti politique, ou non ? Dans quel parti ? Cette question était trop avancée pour les responsables conservateurs de l’Église. On exerça une pression pour forcer les CEB’s à s’éloigner de l’engagement au sein d’un parti politique, car, disait-on, il faut séparer l’action pastorale de l’engagement politique. Le leadership d’une hiérarchie plus conservatrice n’avait pas évolué au niveau de sa pensée sur la question, alors que chrétiens et chrétiennes connaissaient une expérience différente. Aussi, dans le silence s’éloignèrent-ils stratégiquement de la hiérarchie de l’Église. C’est alors que le pouvoir prit sous sa protection une bonne partie du leadership des CEB’s et que la hiérarchie se retrouva sans parole. Les CEB’s poursuivirent leur cheminement, tout en perdant la visibilité qui leur était donnée auparavant de par le prestige de la Conférences des évêques. Résultat: chez plusieurs chrétiens et chrétiennes engagés au sein d’un parti politique, prévalutle projet personnel. Mais, pour d’autres, ce fut un temps de maturation nécessaire.

 

Doit-on conclure que le retour à la démocratie, victoire du peuple, fut une douche d’eau froide pour les CEB’s ? Avait-on perdu l’animation et la motivation de l’engagement et le symbole de l’option pour les pauvres ? Que s’était-il donc passé ? Comme tentative d’explication à ce changement, j’entends soulever trois facteurs qui méritent une attention particulière (9).

 

1) Au temps de la dictature tous avaient l’impression d’avoir et de suivre un projet d’ensemble. En effet, l’Église était le parapluie de tous les mouvements populaires et des partis politiques de gauche, alors clandestins. La position était claire: opposition à la dictature. Mais avec l’ouverture politique, apparurent de nouveaux espaces et alors, comme Église, tous prirent conscience qu’il n’existait pas de projet politique global, alternatif et articulé qui pouvait assurer l’union des divers secteurs jusqu’alors articulés. Ce fut la confusion . L’Église n’avait pas su, dans ses médiations, équilibrer son insertion-ferment avec l’annonce d’un projet global. En d’autres mots, elle n’était pas arrivée à percevoir dans sa pratique toute l’importance du rêve utopique de Jésus-Christ. Il lui était difficile de comprendre que toute réalisation humaine, même en politique, était limitée et que c’était cette utopie qui faisait que le processus historique ne s’arrêtait jamais, ni ne s’accommodait. On comprit alors pourquoi, comme Église, les chrétiens et chrétiennes avaient perdu l’élan de gérer du NOUVEAU. Aujourd’hui, on a mieux conscience que c’est l’utopie de l’Évangile qui remet l’équilibre entre les médiations concrètes de présence et la communion au rêve. Il n’est pas important que l’Église aime les pauvres, maius il est important que les pauvres se sentent aimés de Dieu.

 

2) Le deuxième facteur à retenir concerne ce qui a changé dans l’Église après le retour à l’État civil. Au temps de la dictature, l’Église avait renoncé au pouvoir et s’était faite solidaire du peuple, en particulier des pauvres. Le changement était radical. Son point de référence n’était plus sa vie interne, mais les « angoisses et les joies » du peuple. Elle réalisait ainsi dans le concret l’articulation entre religion et politique. Religion et politique s’articulaient par la pratique du service aux pauvres. Son action collait au terrain de la vie des gens, d’où elle tirait son dynamisme. En effet, elle se trouvait sur le terrain où Dieu écrit son histoire. Puis, ses agents sentaient le besoin de grandir dans ce dynamisme pour ne pas perdre l’enthousiasme, ce qui donnait naissance à la mystique qui inspirait et unissait.

 

Malheureusement, il y eut un changementqualitatif de la hiérarchie de l’Église qui provoqua un renfermement sur elle-même. La vie des gens n’était plus l’inspiration de sa modalité de présence et d’action. Conséquemment, les CEB’s perdirent la médiation qui nourrissait la mystique de leur engagement.

 

3) Le troisième facteur réfère aux militants chrétiens. Beaucoup de leaders de CEB’s ont alors accédé au pouvoir par l’exercice d’un mandat. Il y eut ambiguïté dans la manière d’en faire usage, c’est-à-dire qu’il n’y avait pas eu de changement de mentalité chez les militants, de sorte que l’execice du pouvoir continua à se légitimer dans la logique de l’exercice traditionnel de la politique et non dans la perspective du service au Bien commun. On a fait dans la pratique ce que l’on condamnait en théorie. En d’autres mots, un manque de cohérence dans l’usage du pouvoir. Les motivations évangéliques, qui auraient dû justifier comme chrétiens l’exercice du mandat, n’existaient pas. Une absence de mystique d’action.

 

… comme éducatrice à la citoyenneté

 

Et l’aujourd’hui, comment se dit-il ? Même si au quotidien certains chrétiens et chrétiennes ont un intérèt pour une religion du spectaculaire et de l’émotion qui laisse les personnes libres de choisir leurs croyances et leurs valeurs morales, il reste néammoins des chrétiens et chrétiennes sensibles à la situation de pauvreté et de marginalisation vécue par la majorité dans une société à la merci d’une économie mondiale, et qui s’engagent à la transformation et à l’élaboration d’un nouvel ordre et trouvent dans l’Évangile leur source d’inspiration. Malgré certaines pertes, l’Église a gagné en expérience. Des chrétiens et chrétiennes réunis lors d’un séminaire réalisé en juin 2001 disaient: « Nous avons la certitude que nous sommes capables; nous avons gagné des points, car il existe encore des leaders qui persévèrent, des leaders qui sont nés du milieu ecclésial et qui recherchent une formation qui les aidera à vivre leur foi en cohérence avec leur choix; nous avons gagné, aussi, parce que nous avons découvert le chemin qui relie foi et  vie, religion et politique; nous avons gagné, enfin, car une éducation de base sérieuse a pris racine et l’esprit de démocratie et la lutte pour la terre ont beaucoup grandi. » (10)

 

La reprise de l’articulation des forces vives de l’Église, justifiée par la nécessité d’une évaluation approfondie des chrétiens et chrétiennes engagés dans le mouvement « Un autre Brésil est possible » est en train de s’affirmer. D’une part, resurgit l’engagement politique de chrétiens et chrétiennes au sein des partis politiques; d’autre part, les communautés redécouvrent leur rôle d’éducatrices à la citoyenneté.

 

Un sondage sur les politiciens formés dans les cadres de l’Église catholique (pastorale, CEB, mouvements et activités paroissiaux) élus en 2002 au Législatif montre que le travail de formation politique produit des fruits même s’il met devant le défi pastoral de son accompagnement spirituel et d’une formation encore plus qualifiée. La victoire de l’opposition en octobre dernier marque le débouché d’un long processus historique qui, dans les années 60, s’était configuré dans les « Réformes de base » et que le coup d’État de 1964 avait fait avorter. Les semences étaient tombées dans un terrain fertile et ont créé des racines dans la société par le moyen des CEB’s, des Associations de quartiers, des noyaux de mouvements syndicaux, des divers mouvements sociaux et des organisations qui sont devenues plus tard des ONG. De plus, le document de la CNBB sur les élections 2002 (11) dit clairement la disposition de l’.épiscopat à appuyer le projet de construction nationale, fixant comme priorité la défense de la dignité et des Droits humains et le développement pour tous. C’est en ce sens que les CEB’s ont pris l’initiative de sengager dans les « politiques publiques » et que les évêques appuient ce projet d’éveil et stimulent la population à une participation effective à la vie publique. Pas de démocratie réelle sans la participation réelle du peuple.

 

2e partie : RELIGION ET POLITIQUE (11)

 

La persévérance des chrétiens et chrétiennes à maintenir un lien entre la foi et la vie a soutenu la pratique de l’articulation entre la religion et la politique. De plus, l’engagement pour la défense des droits des personnes et des groupes sociaux, réalisé bien souvent en contexte oecuménique, a permis un certain approfondissement du lien entre les deux.

 

Cependant, la pratique de cette articulation foi-vie fut et est encore semée de plusieurs difficultés, car elles sont comme deux chemins qui courent en parallèle. D’une part, la culture séculaire de dépendance a amené le peuple à « sataniser » la politique, de telle manière qu’encore aujourd’hui elle demeure dans les mains des élites; d’autre part, l’expérience de la chrétienté a dépolitisé la foi et éloigné les chrétiens et chrétiennes de leur engagement. Est-il possible de lutter contre l’injustice et d’aimer son ennemi ? En d’autres mots, est-il possible dans la foi chrétienne d’articuler religion et politique ?

 

Cette question demeure constamment sous-jacente à l’engagement des chrétiens et ch.étiennes des CEB’s qui se retrouvent toujours devant un dilemme dans leur manière de vivre l’Église. La situation actuelle est plus qu’évidente: les « nouveaux mouvements » mobilisent la population autour du religieux; les mouvements sociaux, autour d’une cause à défendre. De leur côté, les chrétiens et chrétiennes des CEB’s cherchent une manière de rapprocher les deux: la foi dans la vie. Pour eux et elles, l’engagement politique est devenu l’expression de la foi au quotidien. Les manifestations publiques, qui avaient pour but l’expression des choix et des opinions du peuple, leur ont fait découvrir le politique comme participation populaire; alors que le politique était reconnu comme sale et sordide, il a pris une nouvelle saveur, la saveur de l’Évangile. Il convient maintenant d’interpeller la foi chrétienne: qu’entendons-nous par foi ? que dit la foi ?

 

2.1 La foi chrétienne

Parler de foi chrétienne n’est pas seulement parler d’un engagement religieux, mais d’une option de vie qui, au dire de l’Évangile, implique une décision qui englobe tout. Matthieu parle d’un trésor caché dans un champ et d’une perle précieuse.[xiii] La foi chrétienne est l’adhésion à un projet qui exige une option totale et totalisante. Et ce projet est celui de Jésus. Ainsi, la foi n’est pas un acte parmi d’autres ni une option reliée à un secteur de la vie, mais elle se veut une inspiration qui oriente la vision, les critères, les attitudes et la pratique d’une personne, d’un groupe ou d’une communauté. Avoir la foi, c’est entrer avec Jésus dans l’aventure du Royaume; c’est construire le Royaume avec Lui; c’est faire avec Lui le chemin pour que le Royaume arrive. En d’autres mots, il ne suffit pas de dire “Seigneur, Seigneur” pour entrer dans le Royaume, comme il n’appartient pas à tous ceux et celles qui disent qu’ils y entreront, mais pour y accéder il est nécessaire de faire la Volonté, le projet du Père, proposé et rappelé par Jésus. La “foi” sans les oeuvres est morte.

Ceci dit, nous pouvons affirmer que la foi chrétienne s’exprime principalement en deux dimensions: religieuse et politique. L’engagement religieux est la relation à la transcendance, au Père de Jésus; l’engagement politique, la relation à l’œuvre du Père de Jésus, la Création. Pour vivre la foi, en plus de l’engagement religieux, il doit exister un engagement éthique et l’éthique exige une pratique en conformité avec la foi. C’est le volet politique de la foi chrétienne. Ainsi, parler du politique, c’est parler de la foi vécue dans le social, c’est parler de l’engagement pour la société civile, c’est parler de la participation du peuple à la vie publique. En ce sens, la foi chrétienne implique nécessairement l’expression religieuse et l’engagement politique. Le divorce entre les deux conduit, d’une part, à l’aliénation et, d’autre part, à l’idolâtrie.

Si l’on comprend ainsi la foi, il est plus facile de dialoguer avec toutes et tous, même avec ceux et celles qui ont des références et valeurs différentes des nôtres.

2.2 Le politique

Il est important de distinguer le politique comme organisation de société et la politique comme “militance” au sein d’un parti politique. La première conception est inhérente à la foi chrétienne, car elle se révèle être partie constitutive de son expression; alors que la deuxième, même si elle est essentielle à l’existence du politique comme organisation de la société, se présente au chrétien et à la chrétienne comme une option parmi d’autres. Élaborons quelques traits de réflexion sur chacune des deux compréhensions qui, loin de s’exclure, s’appellent mutuellement pour une réalisation pleine de sa finalité.

2.2.1  Le politique comme organisation de la société

La communauté chrétienne, l’Église, ne peut mettre de côté l’engagement politique comme organisation de la société. C’est une question d’existence et de vitalité pour elle. Plus que jamais, il est opportun et nécessaire qu’elle lui donne une place de choix. Elle doit l’accueillir debout et les deux pieds sur terre, car c’est un impératif de se faire présente dans les situations révoltantes les plus variées des majorités “sans emploi”, des “sans terre”, des “sans-abri” et des “sans” de toutes sortes. Sans engagement politique il ne peut pas exister de citoyenneté et, conséquemment, la démocratie est impossible. Tout ce qui a relation à l’humain est relié au politique.

 Le texte biblique du paiement du tribut à César constitue un fondement de la présence de l’Église au politique. Les interprétations les plus fréquentes de ce texte concentrent leur attention sur la séparation des sphères: le pouvoir temporel et le pouvoir spirituel. Un laïc chrétien en a fait la lecture suivante:

Faisons la lecture du texte à partir des droits de César, disait-il. Quand Jésus dit: “Donne à César ce qui est à César”, il reconnaît autant l’existence de l’ordre temporel que les devoirs que tous doivent avoir envers lui. Il attire l’attention sur la collaboration que nous devons avoir pour que l’ordre temporel soit organisé et fonctionne de manière à rendre plus facile la pleine réalisation de tous les membres de la société, ce qui a affaire directement avec le politique. L’engagement des chrétiens dans le politique n’a d’autre finalité que celle de la réalisation de cette exigence. [xiv]

Il convient de souligner ici, à titre exemplaire, la précieuse collaboration et le témoignage que les participants des “Forums sociaux mondiaux” – expression de diverses races et religions – offrent au monde entier.

La présence de l’Église au politique est une exigence de la foi chrétienne, la Doctrine sociale nous le rappelle et la réalité d’aujourd’hui le réclame. Le politique est une “Terre de Mission”.

A. Une exigence de la foi chrétienne

La nécessité de la présence de l’Église au politique reste une exigence de la foi chrétienne. Faire politique est acte essentiel de toute pratique d’amour évangélique, car c’est lutter contre la tentation de servir sa carrière individuelle avant tout ; c’est purifier chaque jour l’engagement qui permet l’ajustement entre la conduite individuelle et le service du Bien commun. C’est la manière amoureuse du Samaritain. Paul VI considérait la vocation politique comme la forme la plus élevée de la charité. Le politique fait avec amour s’adresse à tous et spécialement à tous ceux et celles que nous ne connaissons pas. Faire politique et être conséquent dans son agir sont une attitude chrétienne cohérente et indispensable pour qui prétend résister aux nouvelles idoles impériales.

Paul VI écrivait que “la politique est une manière exigeante de vivre l’engagement chrétien au service des autres.” [xv] Si l’on accepte cette affirmation, nul ne peut dire: “moi, je ne fais pas de politique”, car qui déclare ne pas faire de politique, dans la même mesure, a déjà choisi une politique qui refuse de servir les autres dans un engagement organisé de la société. Le politique ne peut être affaire de culte de personnalité ni objet d’idolâtrie ou d’une simple lutte pour le pouvoir en dehors des normes de l’éthique et encore moins d’un commerce d’intérêts personnels et corporatifs. On retrouve ici le symbole du lavement des pieds et la perspective du SERVICE présentés dans l’Évangile, où Jésus devient la figure du véritable politicien, et Pilate, celle de l’exercice du pouvoir sacrifiant le projet de vie.

Servir l’autre dans sa dignité, c’est retrouver le véritable exercice du pouvoir. Luc en donne un exemple. “Il s’éleva… entre eux (les Apôtres) une discussion : lequel d’entre eux pouvait être tenu pour le plus grand. Jésus, cependant, dit: Les rois des nations dominent sur elles, et ceux qui exercent le pouvoir sur elles se font appeler bienfaiteurs. Mais pour vous, il n’en va pas ainsi. Au contraire, que le plus grand parmi vous se comporte comme le plus jeune, et celui qui gouverne comme celui qui sert.” [xvi]

B. Le Bien commun, fondement théologique du pouvoir

En plus d’être une exigence de la foi chrétienne, l’Église, dans sa Doctrine sociale, présente le Bien commun comme le fondement théologique du pouvoir et justifie ainsi la raison de l’engagement politique.

Vatican II définissait le “politique” comme l’“usage du pouvoir légitime en vue de la conservation du Bien Commun de la société”. [xvii] Le pape Jean-Paul II a repris cette définition en ajoutant que le “Bien commun”, c’est “l’ensemble des conditions de la vie sociale qui permettent aux individus, aux familles et aux associations de pouvoir réaliser de manière plus pleine et plus facile leur propre réalisation, leur propre perfection, c’est-à-dire la pleine réalisation de la personne.” [xviii]

Ainsi compris, le politique ne peut pas être le SERVITEUR de l’économie, comme le comprennent aujourd’hui bien des gouvernants, mais il doit être le SERVITEUR de la pleine réalisation de l’être humain et de tous les humains, le SERVITEUR du BONHEUR.

Pour que le Bien commun se réalise, ajoutait Jean-Paul II lors de sa rencontre avec les politiciens, “il est nécessaire de garantir à tous égales opportunités et de donner une attention spéciale à ceux et celles qui, pour motif de santé ou à cause de leur condition sociale, courent le risque de rester en arrière.” [xix] C’est une autre manière de parler de l’option pour les pauvres. L’option pour les pauvres demande d’avoir soin de ceux et celles qui, de par leur situation sociale d’exclusion, c’est-à-dire pour ne pas avoir eu les conditions minimales de survie ou pour motifs de santé, ne peuvent participer comme les autres et, ainsi, courent le risque de demeurer en marge de la société. Faire “politique”, c’est veiller au bonheur de tous, tout en gardant un oeil et une attention particuliers aux exclus de la vie et du bonheur.

C. Le politique, terre de mission – Lieu d’une pratique de l’amour évangélique

Le politique, aujourd’hui, est une “terre de mission”. Pour cette raison, il se doit d’être au cœur des préoccupations de l’Église. Le politique est une “terre de mission”, parce qu’il est un champ de l’activité humaine passablement méconnu et vu avec préjugés, spécialement de la part des militants chrétiens, et aussi parce que c’est un champ d’activité où la tentation du pouvoir se fait très intense. L’exercice du politique n’a jamais été aussi éloigné de la Doctrine sociale de l’Église.

La majeure partie des espaces tant à l’intérieur qu’à l’extérieur de l’Église, dominés par l’idole-marché, se sont fermés à cause de leurs pensées devenues uniques et autosuffisantes et, en aucun autre moment de son histoire, la dispute pour le pouvoir n’a été aussi éloignée de la recherche du Bien commun. Les forces qui ont commandé jusqu’à présent l’État brésilien mettaient uniquement leurs efforts à moderniser les “patterns” de consommation des classes riches, au détriment du niveau de vie des classes de travailleurs et en marginalisant une partie considérable de la population. Ne serait-ce pas le devoir de l’Église, dans le plein exercice de sa fonction prophétique, de dénoncer cet éloignement du sens chrétien du politique?

De plus, l’existence d’une vision politique fragile et étroite ne se rencontre pas seulement dans les secteurs populaires non organisés, mais aussi chez les leaders, qui n’arrivent pas à prendre conscience de ce que le peuple pense et fait. Au fond, prévaut encore le vieux schème: “Nous savons, nous, et le peuple doit être enseigné par nous”. Le politique des grands thèmes relatifs à l’humanité de la personne et de la société est très loin de notre conscience sociale et de notre action politique. Ne serait-ce pas une précieuse contribution de l’Église au politique que de stimuler la formation de communautés participant effectivement à la vie publique?

Le politique est une véritable terre de mission, car il est un lieu de collaboration nécessaire pour que les valeurs du Royaume puissent y trouver leur pleine réalisation. Le reconnaître comme lieu de mission, c’est accepter que l’Évangile y soit proclamé en ce qu’il a de fondamental, donc que soit proclamée l’humanité de l’être humain comme universalité et comme réalisation de Dieu.

2.2.2  Le politique comme parti politique

Il nous faut maintenant parler du politique comme parti politique, donc de la politique. Que dit la foi chrétienne? que dit l’Église? qu’ont à dire chrétiens et chrétiennes à ce sujet? Des documents officiels de l’Église catholique instituent une différence entre la position de la hiérarchie comme service au Bien commun et la position des laïcs comme protagonistes de la construction du monde dans la politique de partis. Cette distinction conduit à un danger de dichotomie: le temporel aux laïcs et le spirituel à la hiérarchie. Avant d’aller plus loin, voici le témoignage d’une chrétienne, élue député de l’État du Maranhão, au Brésil. Son engagement à divers niveaux dure depuis plus de 30 ans. Lisons un extrait de son discours d’investiture.

Il me faut souligner, parmi les traits marquants de ma vie, mes engagements dans ma communauté de foi, exigences de mon baptême. J’appartiens, consciemment, à une Église qui a déclaré, à l’Assemblée des évêques de l’Amérique latine à Puebla en 1979, son option préférentielle pour les pauvres, réaffirmant ainsi tout le magistère déjà proclamé bien avant par Jésus lui-même, principalement dans le Sermon sur la montagne. J’ai appris inclusivement, par Lui, que les plus heureux sont “ceux et celles qui écoutent la Parole et la mettent en pratique”.

Cette pratique est un grand défi. Elle nous pousse à rompre avec toute structure corrompue du Pouvoir, sans faire aucune concession ni accommodation. Elle nous pousse à une action transformatrice de la société en commençant par le témoignage de vie dans les réalités quotidiennes. C’est pour cela que le pape Paul VI, en décembre 1975, dans le document L’évangélisation dans le monde d’aujourd’hui, nous exhorte à changer, à modifier les critères de jugement, les valeurs qui comptent, les centres d’intérêt, les lignes de pensée, les sources inspiratrices et les modèles de vie qui se présentent en contraste avec la Parole.

Le paragraphe premier de l’article 86 du Régime interne de cette Assemblée m’informe que la “Bible sacrée doit demeurer, durant tout le temps de la Session, sur la table, à la disposition de qui veut en faire usage”. Ce dispositif m’amène à croire que les critères de jugement, les valeurs qui comptent, les modèles, les centres d’intérêt, les lignes de pensée et les sources d’inspiration sous-jacentes à l’agir de cette Maison devront être en parfaite concordance avec le contenu du livre qui se trouve sur la table des travaux. Dans le cas contraire, il ne serait qu’une décoration, ce qui ne respecterait pas la pensée de celui qui a proposé cette règle pour ce Parlement. [xx]

Le parti politique est la médiation nécessaire pour traduire un projet de société et c’est par lui que les citoyens et les citoyennes découvrent les perspectives d’un projet national qui réponde le mieux aux besoins de la population. Il est absolument indispensable. Nous n’en traiterons pas ici, mais il importe cependant de se demander pourquoi l’Église a tant de difficulté avec les partis politiques. Nous avons souvent remarqué que, lorsqu’un laïc engagé dans sa communauté assume un mandat, il est tout de suite abandonné. Combien de fois les communautés chrétiennes ont-elles recruté des candidats et candidates pour s’engager dans la politique de parti, ont-elles ensuite fait la campagne avec eux et elles, pour à la fin les abandonner! Qu’est-ce qui expliquerait cette difficulté de relations?

Au premier abord, on serait porté à dire que le problème n’existe pas et que l’Église a toujours été proche des partis politiques autant de gauche que de droite; mais ce point de vue n’explique pas pourquoi les mouvements d’Église liés aux partis politiques conservent peu de leur charisme chrétien. Après plusieurs essais de réflexion, les chrétiens et chrétiennes en sont arrivés à la conclusion qu’il s’agissait d’une fausse compréhension de la relation entre religion et politique.

Il existe en outre une situation de deux poids deux mesures, qui nous montre que le jeu est inégal. D’abord, considérons la relation des mouvements catholiques conservateurs avec les partis politiques conservateurs et avec les partis à couleur chrétienne, créés ou non par l’Église ou appuyés par elle. Pourquoi sont-ils toujours acceptés et vus comme quelque chose de désirable? Par contre, pourquoi certains agents d’Église et politiciens sont-ils fortement incommodés lorsque les pastorales et les mouvements, par leurs positions et leurs pratiques, se rapprochent et agissent, en certaines circonstances, de concert avec les partis politiques de gauche qui ont des propositions et des pratiques innovatrices et poursuivent l’objectif de la justice? Pourquoi en est-il ainsi?

La première manière de faire nous dit que religion et politique doivent être séparées comme on sépare économie et droits sociaux, politique et justice. Religion et politique étant séparées, on a la certitude que le chrétien engagé restera sur le terrain des préoccupations internes de l’Église et que le politicien restera aussi sur son propre terrain. Il s’agit d’une compréhension pour le moins étrange de la relation entre religion et politique. Une compréhension qui reflète une vision fermée de chacun sur sa sphère de pouvoir. Une fausse conception du politique et de l’Évangile. En séparant religion et politique on ne se rend pas compte qu’on exprime une crise de perspective et une impossibilité à comprendre les changements sociaux et politiques et surtout à comprendre la raison de la venue de Jésus. Faire politique, ne serait-ce pas proclamer et rendre effectives les valeurs reliées à la condition humaine? Perdre la dimension de l’universel et, conséquemment, du sens plénier et singulier du politique et de l’Évangile, c’est compromettre sérieusement la mission de l’Église.

2.2.3    Se rapprocher n’est pas s’assimiler

Il importe, bien sûr, d’établir une juste relation entre religion et politique, ce qui ne signifie pas les confondre. Il ne s’agit pas de transformer les mouvements et/ou les travaux de l’Église en appareil de parti politique, mais de comprendre qu’il y a diverses manières de lutter pour la vie et plusieurs visages d’expression de l’amour concret et historique, tous construisant le Royaume.

Chrétiens et chrétiennes ont avantage à se rapprocher des personnes de bonne volonté, organisées en mouvements et/ou en partis politiques et qui sont disposées à faire les pas nécessaires pour construire le Royaume promis et déjà réalisé par la Vie, la Mort et la Résurrection de Jésus. En ce sens, les partis politiques de gauche et l’Évangile ont une complicité surprenante, car les deux sont ferment, sel et lumière, les deux sont révélateurs du lieu et de l’importance radicale de la force transformatrice de l’Évangile, les deux sont inspirateurs de nouveaux projets sociaux, politiques, économiques, culturels, spirituels et les deux sont générateurs de l’Espérance au cœur de l’humanité emprisonnée par les élites dominantes. L’humanité a besoin de la présence spirituellement révolutionnaire des disciples de Jésus. C’est une urgence.

Se faire présent dans les partis politiques, les animer, les encourager, se compromettre avec eux pour qu’un jour la société administre son propre destin et dépende de moins en moins de mécanismes de contrôle et de répression est une autre manière de rapprocher religion et politique sans les confondre. D’ailleurs, cela fait aussi partie de la mission de l’Église. Ainsi, les chrétiens et chrétiennes aideront les partis à reconnaître que le peuple doit devenir le protagoniste de son destin et qu’il faut lutter pour y arriver. Jusqu’à aujourd’hui, les pauvres ont toujours été et sont toujours troisièmes. Quelqu’un est toujours là pour décider pour eux. En d’autres mots, il y a toujours quelqu’un pour dire ce qu’ils pensent, ce qu’ils veulent et même pour expliquer ce qu’ils disent, ce qu’ils font, ce qu’ils veulent dire et ce qu’ils veulent faire. Quand ce n’est pas l’État, c’est le parti politique. Le jour où les pauvres exerceront leur pouvoir de décision, le Royaume sera plus près d’advenir. S’engager “utopiquement” dans cette mission historique, c’est pratiquer l’Évangile dans ce qu’il a de plus dynamique.

De cette manière, l’Église contribuera à faire diminuer la fausse soif du pouvoir chez tant de personnes. Les partis politiques assoiffés du Bien commun se rencontreront avec l’Évangile dans l’universalité de la personne humaine, cœur de la pratique évangélique.

2.3       La foi chrétienne, une rencontre de la religion et du politique

Religion et politique sont deux composantes de la foi chrétienne. Celle-ci n’est cependant un instrument technique ni de l’une ni de l’autre, car elles ont chacune leur autonomie. Mais la foi les illumine et les oriente. Comment cela peut-il se faire? C’est que la foi est un processus d’adhésion à une nouvelle manière d’ÊTRE. Elle agit comme lumière, fruit d’une option personnelle de vie et d’un long cheminement de communion et de conversion à Jésus Christ et à son projet. Et c’est cette lumière qui illumine la religion et le politique à la manière chrétienne d’être. En d’autres mots, sans une expérience profonde de Jésus Christ et de son projet, la foi ne peut aucunement prétendre illuminer la religion et le politique. Ce n’est donc qu’à partir du témoignage de Jésus qu’un chrétien et qu’une chrétienne peuvent découvrir les interactions entre la religion et le politique.

La pratique de Jésus révèle l’amour du Père envers ses enfants et annonce la réalisation prochaine du Royaume. En d’autres mots, Il annonce un monde gouverné selon la volonté du Créateur, libéré de tout mal et de toute injustice, de toute souffrance et de toute douleur, rétablissant en son intégrité les relations de l’humanité avec Dieu, avec ses semblables et avec le monde.

2.3.1  Les contributions de la foi chrétienne au politique

Que dit la foi chrétienne au politique? Comment peut-elle l’éclairer? Du témoignage de Jésus, trois valeurs se dégagent. Elles se réfèrent à l’exercice du pouvoir, à la priorité donnée aux personnes et à l’espérance. Trois contributions qui peuvent éclairer l’exercice du politique.

“Que celui qui veut être le plus grand, qu’il serve” [xxi], disait Jésus. Le pouvoir ne peut être exercé que pour le Bien commun, car le véritable pouvoir réside dans la dignité de la personne. Il ne s’exerce pas par imposition, arrogance, égoïsme et ambition, mais par gratuité de l’amour. Un tel exercice du pouvoir suppose la prise de conscience de ses limites et de la manière de les vivre en lien constant avec la société civile. Un tel exercice du pouvoir consiste à vivre la vérité non pas toute faite d’avance, mais découverte par un effort constant de participation et de communication.

La foi chrétienne rappelle aussi au politique que le Bien commun ne peut être conquis que par une lutte constante en faveur d’un projet au service des personnes et non contre des personnes. Pour être en accord avec l’Évangile, l’engagement implique une lutte contre l’injustice, en même temps que la constante recherche de l’amour de l’ennemi. Cette dimension se révèle d’une importance capitale. C’est elle qui aide les politiciens à approfondir les relations entre eux et à découvrir les diverses tendances de recherche du Bien commun souvent exprimées dans les partis politiques auxquels ils adhèrent.

Enfin, la foi chrétienne dynamise le processus politique en alimentant son Espérance par la patience historique et en n’exigeant pas l’efficacité et les résultats immédiats. La précipitation éloigne les gens et souvent les empêche d’assumer leur rôle de protagoniste de leur histoire. L’Espérance n’est pas une répétition simplement rénovée de ce qui a été, mais un avenir ouvert sur un nouveau commencement, supérieur au premier. Quelle richesse pour un peuple bâtisseur de son avenir!

2.3.2  Les contributions de la foi chrétienne à la religion

Que dit la foi chrétienne à la religion, maintenant? La foi chrétienne reconnaît l’autonomie du politique et lui reconnaît la compétence d’élaborer un projet de vie en société qui permette la réalisation du Bien commun. Mais il faut reconnaître que les gens, en général, ont tendance à s’unir autour de projets d’émergence et d’assistance qui améliorent les conditions de vie à court terme et beaucoup moins autour de projets qui, pour servir le Bien commun, exigent un changement profond et structurel. Il n’est pas rare de constater que, lorsqu’un projet exige un changement en profondeur, les personnes ont tendance à s’éloigner, à résister et même à exclure les protagonistes du changement. Cette réaction résume bien la vision de beaucoup de chrétiens et chrétiennes au temps de la dictature au Brésil. On voulait le changement, mais quel changement? Et c’était en fidélité à sa religion qu’on s’éloignait et refusait. Quelle est donc cette foi qui inspire une telle religion?

La foi chrétienne se doit de questionner la religion. Au nom de quel Dieu cette religion n’autoriserait-elle pas l’union des chrétiens et chrétiennes autour de réformes profondes de changement? Au nom de quel Dieu cette religion justifierait-elle encore le processus séculaire de domination et de conformisme? Au nom de quel Dieu cette religion éteindrait-elle la voix prophétique par des faveurs reçues ou à venir? Au nom de quel Dieu cette religion permettrait-elle la soumission pour maintenir prestige et honneur? Ce ne serait sûrement au nom du Dieu de Jésus! La foi chrétienne se doit d’interroger la qualité de la religion des chrétiens et chrétiennes.

La foi chrétienne rappelle aussi aux chrétiens et chrétiennes qu’elle promeut un projet de société où doivent se vivre la dignité, le respect, l’amour, le partage des biens et la participation et qu’ils sont appelés à y collaborer non seulement par la contestation et la critique mais aussi par une collaboration effective.

Disons, en résumé, que si la foi chrétienne invite le politique à changer le projet de société pour qu’il soit au service du Bien commun, elle invite aussi la religion à changer la conception de son Dieu. La foi chrétienne, celle de l’Évangile, inspire et illumine la religion et le politique. Elle donne courage, disposition et dynamisme et fait entrer dans la dynamique du changement.

2.3.3  Politique et religion se rencontrent pour réaliser un rêve

C’est alors que politique et religion, illuminés par la foi chrétienne, se rencontrent dans le projet de Jésus, projet de Dieu sur le monde. Ce projet laisse l’espace nécessaire pour que tout être humain collabore à son élaboration concrète. Et l’articulation entre les deux est possible à travers l’option pour les pauvres. En effet, ce qui unit dans la foi chrétienne religion et politique, c’est la recherche de la libération des pauvres; et, ce qui crée la communion entre le politicien et le chrétien, c’est l’option totale pour le bonheur de tous les humains. Les deux se rencontrent alors qu’ils luttent avec gratuité et esprit dépouillé d’intérêts personnels dans un projet de communion et de fraternité en faveur du peuple, donnant la priorité aux plus pauvres. Le politicien aide le chrétien à découvrir que le véritable pouvoir réside dans la conquête de la citoyenneté et le chrétien aide le politicien en dynamisant son quotidien dans la perspective du “déjà-là” et du “pas-encore”. La religion et le politique ne peuvent pas se séparer dans la foi chrétienne. Unis, ils permettent le changement du monde dans lequel nous vivons et construisent le Royaume. Ils sont les deux visages inséparables de l’Évangile.

Quand nous nous engageons à contribuer au changement de modèle de vie en société pour qu’il soit en cohérence avec le projet de Dieu, nous faisons du politique; et, quand nous prenons soin de la qualité de notre engagement qui illumine et inspire le cheminement dans la réalisation de ce projet, nous vivons la foi.

Puisqu’il en est ainsi, nous ne pouvons ni parler du politique chrétien pour une société harmonieuse, ni du politique neutre. Ce serait ressusciter l’ombre de Pilate. L’Évangile de communion ne peut se vivre que dans un engagement solidaire des politiciens et des chrétiens dans un projet de société qui renouvelle la face de la terre.

Religion et politique dans la foi chrétienne se réunissent pour réaliser un rêve. C’est le rêve au service d’une utopie. C’est le rêve d’un monde où la dignité de chacun et chacune est reconnue, où règne la liberté, où les droits humains sont respectés, où les conditions minimales de la vie sont garanties, où existeront de nouvelles relations d’égalité, de respect, d’authenticité, où l’autre n’apparaîtra pas d’abord comme un ennemi mais sera accepté comme une partie de soi-même, où tous auront accès aux richesses, où tous se respecteront et vivront leur autonomie dans la complicité des différences et où sera reconnu définitivement le Père de Jésus.

A. Quelques éléments à considérer

Comment faire pour que le politique, au Brésil, soit ce qu’il doit être: “l’art du possible”? Comment faire pour que le projet du Dieu de Jésus Christ devienne réalité?

Pour que nous puissions y voir davantage clair, il m’apparaît important de considérer encore trois éléments. Au centre, le Royaume de Dieu. Puis, l’importance du dialogue et de la clarté au sujet des suppléances. Enfin, en fonction de la situation politique actuelle du Brésil, quelques autres éléments à prendre en considération. [xxii]

1. Au centre : le Royaume de Dieu

Jésus rappelait qu’il était venu pour qu’il y “ait de la vie en abondance”. Quand nous cherchons à articuler religion et politique, nous n’oublions pas le fondamentalisme, l’intégrisme et la chrétienté vécus par l’Église catholique et nous n’oublions pas non plus qu’au cours de cette histoire elle a cherché sa survie dans le politique. Dans la réflexion que nous faisons ici, nous n’avons pas la préoccupation de l’affirmation de l’Église en soi, mais bien celle de l’avancement du projet de Jésus, projet du Royaume. La vie de Dieu dans le monde est entachée. La vie humaine et son milieu ambiant sont fortement compromis. C’est pourquoi il nous semble que, articuler religion et politique dans la foi chrétienne, c’est croire que Jésus est venu dans le monde pour libérer la vie et que notre tâche consiste à l’aider pour réaliser ce travail.

2.  Le dialogue

Pour bien articuler religion et politique dans la foi chrétienne, voici un deuxième élément: la nécessité du dialogue. Nous, catholiques et chrétiens, ne sommes pas les seuls à lutter pour construire le Royaume. Il existe des gens de plusieurs autres religions et de beaucoup d’autres mouvements qui ne font pas référence à une inspiration religieuse mais qui ont l’esprit de vie. En raison de notre foi, nous sommes poussés et nous voulons construire le Royaume avec ces personnes de croyances et de références différentes des nôtres. En raison de notre foi, nous sommes partenaires. Nous n’avons pas le privilège ni la responsabilité de construire seuls le Royaume. Nous sommes tous appelés. L’esprit qui doit donc nous guider dans l’articulation de religion et politique n’est pas celui du “nous, nous faisons, et les autres, non”, mais celui qui par le dialogue, dans une convergence de forces et dans une complémentarité d’inspirations, nous appelle à servir l’unique Esprit qui souffle où il veut. Cet Esprit souffle autant dans les religions qu’en dehors d’elles. C’est ce qui nous permet de construire ensemble la vie et le bonheur que, chrétiens et chrétiennes, nous nommons le projet du Royaume de Dieu.

L’œcuménisme, le dialogue interreligieux et la capacité de dialogue avec ceux et celles qui ont leur inspiration fondée même en dehors de la religion ne sont pas seulement possibles et opportuns mais nécessaires, car personne n’épuise l’immensité de la tâche de la construction du Royaume dans le champ du social. Avons-nous besoin de tous? C’est l’esprit de notre recherche.

Il n’y a pas de doute que dans ce dialogue, en tant que chrétiens et chrétiennes, nous avons quelque chose à donner de spécifique: l’Espérance. Nous portons avec les autres une utopie, un rêve qu’aucune médiation historique n‘épuisera. Nous portons l’Espérance qui vient de la certitude que, dans ce puits de la vie de l’histoire, Jésus Christ, celui que le Père a ressuscité, s’est déjà baigné. Nous avons l’Espérance que cette construction du Royaume sera réalisée.

3. La clarté dans les suppléances

J’ajoute rapidement ce troisième élément: la nécessité de discerner, de voir clair au sujet des suppléances. Il y a des choses qui font partie de la nature de l’Église, de sa mission, et qui lui sont essentielles, et il y en a d’autres qui ne sont que provisoires. Cette distinction est nécessaire pour faire une bonne articulation entre religion et politique, car mélanger l’essentiel et le provisoire dans ce travail d’articulation nous conduirait à des équivoques et des ambiguïtés.

B.  Un agir dans la conjoncture politique actuelle du Brésil

Les chrétiens et chrétiennes des CEB au Brésil ont une longue expérience d’engagement social et politique. Les élections d’octobre dernier sont le résultat de ces années d’échecs, d’angoisses, de longues souffrances, de travail acharné et d’une foi profonde qui les a toujours soutenus. L’arrivée d’un ouvrier “sans diplôme” à la tête de la République est un exploit inédit. On est de plus en plus conscient de la nécessité de la participation populaire pour continuer d’avancer dans la construction du Royaume. Voici quelques orientations déjà définies:

1. La démocratie a besoin d’être solidifiée et cela ne sera pas possible tant que les politiciens continueront à défendre des intérêts personnels dans une promiscuité entre le public et le privé. Il y aura des élections municipales dans deux ans dans tout le pays. Une première tâche consistera à affronter ces équivoques, avec un travail articulé, ouvert et courageux, proposé clairement aux communautés avec l’orientation de commencer un nouveau processus de participation plus cohérent des chrétiens et chrétiennes dans le politique. Pour que cela se réalise, il faudra mettre un accent spécial sur la formation permanente du travailleur comme expression de la socialisation de la connaissance, ainsi que sur une mystique du service.

2. Quand les partis politique nés des mouvements sociaux arrivent au pouvoir, deux alternatives se présentent à eux: ou ils assument des responsabilités et s’intègrent au pouvoir – ça peut conduire à la cooptation –, ou ils évitent la participation au gouvernement tout en fiscalisant les engagements électoraux, alimentant ainsi l’opposition qui aime s’approprier de toute critique populaire. Entre ces deux extrêmes, les mouvements populaires devront trouver une place qui leur soit propre, c’est-à-dire une place où leur autonomie et la capacité critique soient au service d’un nouveau projet pour le Brésil.

3. Par crainte d’impliquer la communauté dans des options de parti politique, la hiérarchie de l’Église insiste pour laisser exclusivement à chaque chrétien et chrétienne le droit à son critère subjectif lors du choix de son candidat, critère qu’on supposerait correspondre aux valeurs évangéliques que l’Église prêche généralement. En conséquence, on diminue le prestige des partis, qui sont pourtant des médiations indispensables pour concrétiser quelque idéal politique que ce soit.

De plus, on ne mise sur aucune autre médiation organisée qui pourrait devenir un instrument auxiliaire aidant au discernement politique, indispensable autant pour identifier les valeurs en jeu dans les propositions politiques que pour démasquer les pratiques de qui emploie le politique pour pervertir ses vraies finalités.

Aussi, l’option simplement subjective manque de cohérence ; la prétendue neutralité de la communauté, en réalité, devient prétexte pour ne pas s’engager et pour vivre dans la complicité. Alors, la prédication théorique de la hiérarchie devient inefficace et perd de sa crédibilité.

D’où l’urgence d’une “pastorale politique” (et terre de mission) pour se constituer en médiation nécessaire entre les principes doctrinaux et l’engagement des chrétiens et chrétiennes. Sans elle, continuera de se pratiquer le divorce entre religion et politique pour le préjudice des deux et conséquemment de la foi chrétienne.

Conclusion

Dans la foi chrétienne, religion et politique se rencontrent. Elles ont la même finalité, le BONHEUR de tous les humains. Le point par excellence de leur rencontre est l’option pour les pauvres, car ils sont le signe évident des faiblesses d’un projet de société caractérisé par les inégalités et l’absence de fraternité. Unir religion et politique, c’est une question d’identité pour tout chrétien et toute chrétienne, car le projet de Dieu appelé Royaume prend ses racines dans l’expérience vécue, la transcende et révèle Dieu. Jésus s’est inséré dans l’histoire en s’appropriant toutes les dimensions de la vie humaine, y inclus les conditionnements matériels et socio-économiques, montrant ainsi que toutes les dimensions, indépendamment de leur référence ecclésiale, possèdent une valeur divine et théologale. Le politique, dans la mesure où il intègre les dimensions de la réciprocité, de la solidarité et de la justice, exprime sa volonté et concrétise ce que Jésus a voulu et réalisé.

 


[i] RACE, Alan, Les idoles de la sécurité, citado par Timothy RADCLIFFE, Que votre joie soit parfaite, Paris/Montréal, Cerf/Fides, 2002, p. 265.

[ii] RIBEIRO DE OLIVEIRA, Pedro A, Análise de conjuntura, CNBB, novembro 2002.

[iii] ANTONIAZZI, Antônio, “Leitura socio-pastoral da Igreja no Brasil (1960-2000)”, em Conjuntura Social e Documentação, CNBB, nos 638, 641, 642, 644.

[iv] BANDEIRA, Marina, A Igreja Católica na Virada da Questão Social, (1930-64), Rio de Janeiro, Vozes-Educam, 2000, p. 279-351.

[v] VATICANO II, “Igreja no mundo de hoje”, em Concílio ecuménico Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1966, p. 137.

[vi] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 8 (série azul).

[vii] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 10 (série azul).

[viii] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 36 (série azul).

[ix] ASSELIN, Victor, “Política, terra de missão”, seminário sobre “Fé e política”, Balsas, Ma, Brasil, 25-27 junho 2002, p. 4-5.

[x] Id., p. 5.

[xi] Eleições 2002, Propostas para reflexão, Documentos da CNBB, no 67 (série azul).

[xii] ASSELIN, Victor, “Política, terra de Missão”, texto de estudo, Balsas, Ma, Brasil, junho 2002.

[xiii] Mt. 13, 44-46.

[xiv] SAMPAIO, Plínio de Arruda, Notas, Seminário “Fé e Politica”, Balsas, Ma, Brasil, 25-27 de junho de 2002.

[xv] Paulo VI,  Octogesima Adveniens, no. 46.

[xvi] Lc 22, 24-26.

[xvii] VATICANO II, A Igreja no mundo de hoje, 74, dans Documentos do Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1966.

[xviii] JOÃO PAULO II, Jubileu dos Políticos, 2000.

[xix] Id.

[xx] HELUY, Helena, “Discurso de posse” na Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão, 01 de fevereiro de 2001.

[xxi] Mc 10, 43.

[xxii] MASSERDOTTI, Dom Franco, palestra “Política, terra de Missão”, Seminário Balsas, 25 junho 2002.

Conférence donnée au Colloque organisé par l’Université Saint-Paul d’Ottawa, Ontario, Canada, le 28 février 2003 sur le thème FOI CHRÉTIENNE ET POLITIQUE et publiée dans la revue « Sciences Pastorales » de la Faculté des Sciences Humaines de la même Université, vol. 23, no. 1 , 2004, p. 55-79

* Victor Asselin, prêtre du diocèse de Nicolet, au Québec, exerce son ministère pastoral depuis maintenant près de 30 ans dans la région du Maranhão, au Brésil. Il a aussi travaillé durant de nombreuses années pour une Commission épiscopale des évêques du Brésil chargée de faire pression pour la redistribution des fermes inoccupées aux paysans sans terre. M. Asselin enseigne à temps partiel au programme des Sciences de la mission et du dialogue interreligieux de la Faculté des sciences humaines de l’Université Saint-Paul à Ottawa. Il fait également partie d’une communauté de base à Montréal. Il passe au moins la moitié de chaque année au Brésil.

RÉSUMÉ

La foi chrétienne et le politique peuvent-ils vraiment s’articuler l’une à l’autre? Pour nous inviter à une réflexion sur les liaisons nécessaires entre ces deux réalités, V. Asselin nous explique l’effort intense de recherche en pratique pastorale qu’ont tenté les Communautés ecclésiales de base au Brésil. Refusant de s’enfermer dans des problématiques purement internes aux Églises, tâchant de prendre aussi leur distance d’un pur engagement social sans motivations désintéressées, les membres des CEB ont tenté de tenir les deux bouts en même temps: réaliser le Royaume à travers des agirs politiques s’inspirant des principes de la foi chrétienne. V. Asselin en profite pour pousser plus avant les questions. Pourquoi les évêques ont-ils tant peur du politique? Où religion et politique doivent-ils coûte que coûte se recouper? Faut-il travailler politiquement avec d’autres qui ne partagent pas la même foi? Qu’est-ce que l’utopie du Royaume et l’Espérance chrétienne ont à fournir comme contribution à la construction sociale?