O rosto camponês da Igreja

O rosto camponês da Igreja …

                                                              Victor Asselin

.Victor é canadense, mas muito cedo se fez maranhense. E foi a partir do Maranhão, como missionário ligado às comunidades eclesiais de base e aos camponeses, que participou e ajudou a fazer a história que contamos. Foi o primeiro vice-presidente da CPT e, entre muitas obras, revelou o intricado sistema da grilagem de terras por meio da pesquisa que resultou no livro sobre o Grilo do Pindaré.

         Em 22 de junho de 1975 foi criada a Comissão Pastoral da Terra. Vinte e cinco anos se passaram. Era um sonho ! Um gesto profético ! Era um loucura também, como diziam alguns na época. Mas a Pastoral da Terra não nasceu nem por acaso nem por geração espontânea. Ela chegou como um ponto de encontro de diversos caminhos que vinham se construindo. Assim, não posso falar da criação da CPT sem relembrar os anos que a antecederam.

         A década de 70 foi fertíl em compromissos na vida da Igreja. Medellin estava em cena e a “opção pelos pobres” vinha dar um rosto ao Concílio Vaticano II na América Latina. Na época, assumia eu a coordenação pastoral da diocese de Pinheiro, no Maranhão, responsabilidade que me levou a conhecer o Pe Ernani Pinheiro da Arquidiocese de Olinda-Recife. Seu entusiasmo após ter participado do curso do Instituto de Pastoral Latino-americana (IPLA)  incentivou-me a pedir minha inscrição para o mesmo curso em janeiro de 1973.

         Voltei do Equador em julho do mesmo ano com uma visão diferente. Tinha que descobrir um novo caminho. O grito do povo ecoava fundo em mim. Deixo um lavrador do povoado Salgado, em Itapipoca, no Ceará, expressar o que eu vivia naquele tempo.

“… com muita fé e boa vontade que eu tenho, não sei como irei … “só prometo uma coisa: nesta maneira de trabalhar eu não mais continuarei…o jeito dos trabalhos … dá muito mais chance aos exploradores explorarem com menos trabalho … continuar fazendo reuniões, visitas, só falando em amor, união, paz, fé etc. e não falar do sofrimento do povo não dá mais … são os latifundiários que não tem amor e ficam tirando o couro dos pobres.

… até que abri os olhos …”

A articulação no Maranhão

         Já existia no Maranhão uma articulação das CEB’S em algumas dioceses. A Arquidiocese de São Luis, na época, abrangia os territórios das dioceses de Brejo e Coroatá, hoje criadas. Porém, o padre ainda era a mola do trabalho. “Onde não há padre, o pessoal se torna bicho. É o padre que faz a animação no lugar”. Assim se expressava un collaborador leigo.

         Em 1973, as CEB’S tinham crescido. O fervor inicial tinha passado. Dois problemas emergiam: o primeiro, o individualismo dos agentes e o isolamento dos grupos comunitários; o segundo, a fragilidade das CEB’S, organizadas em torno do culto dominical e da catequese. Existia porém em São Luis um grupo da ACO que, pela formação anterior, tinha consciência crítica. Mas o “caboclo” vivia cada vez mais em situação de miséria. Já se falava do minério de Carajás. “São Luis poderá tornar-se um inferno” dizia alguém.

O encontro das CEB’S de dezembro de 1973

         Em dezembro de 1973, assumi a coordenação estadual das CEB’S. Nos dias14 a17 de dezembro realizou-se a Assembléia Arquidiocesana das CEB’S. O Pe Claúdio Perani do CEAS de Salvador, na Bahia, assumia o papel da assessoria com o Pe Albani Linhares da diocese de Sobral, no Ceará, e o Pe Gérard Cambron. Pe Albani era muito conhecido no meio. Fazia tempo vinha acompanhando o trabalho das comunidades.

         A presença de Claúdio neste encontro foi muito importante. Passo a transcrever algumas de suas observações, enviadas após o encontro.

“O fato de poder reunir com tanta facilidade uma assembléia numerosa de camponeses revela a existência de um trabalho bem dinâmico no setor rural.

Fiquei impressionado ao ver o grau de responsabilidade do povo: ele sabe dizer a própria palavra, assume, organiza, questiona, tem responsabilidades … ”.

              Em seguida fazia dois questionamentos :

            A. O problema da relação agentes-povo.

         “A necessidade de respeitar o povo e de favorecer sua responsabilidade, autonomia e participação não significa – evidentemente – uma omissão do agente.

         Minha impressão é de que exista uma certa omissão em lugar de reconhecer a própria influência e questioná-lá para ver como melhor utilizá-lá em favor do povo.

         Em primeiro lugar, mesmo quando a gente se afasta de uma intervenção direta, não deixa de influir de várias outras maneiras…

         Em segundo lugar, as afirmações do povo não podem ser consideradas, assim sem mais, como palavra do Espírito Santo, só pelo fato que vêm do povo. Ao contrário, quanto mais espontâneas, tanto mais fácil que sejam equívocas, condicionadas por toda uma ideologia de opressão que se torna presente de mil maneiras na vida do camponês. A funcão do agente não é simplesmente técnica, mas deve proporcionar a possibilidade de uma visão sempre mais crítica (que liberta).”

              B.  A questão da ideologia do povo (e dos agentes)

        O plenário manifestou que prevalece uma visão individualista e voluntarista. Individualista: grande parte da atenção foi concentrada sobre a responsabilidade do “padre” e do “dirigente”. Voluntarista: muitas soluções iam na linha da fé, paciência, coragem, etc.

        Não havia uma análise mais estrutural que relacionasse entre si os vários problemas, compreendendo mais profundamente as causas escondidas. Daí o fato de apresentar soluções típo: formar a família, educar as pessoas, etc., numa visão bastante estática.

        Nessa mesma linha, a falta de uma visão mais “conflitiva”do evangelho.”

        Duas necessidades saltavam aos olhos: a da articulação dos agentes e das bases e a importância da análise mais profunda da realidade.

         Logo após o encontro das CEB’S da Arquidiocese de São Luis em dezembro de 1973, Albani, Carolina e eu nos reunimos com a finalidade de nos interrogar sobre a modalidade de desencadear um processo de articulação dos agentes e sobre a de colaborar para que as bases desencadeassem seu próprio processo. Fizemos uma segunda reunião em janeiro de 1974. Depois de muita conversa, chegamos à conclusão de que cada um, de acordo com seu jeito, tentaria descobrir um caminho.

         A partir daí, articulação e capacitação andaram juntas nos âmbitos estadual, regional e nacional.

Articulação no âmbito estadual       

        No Maranhão, logo no começo de 1974, o encontro das CEB’s da Arquidiocese de São Luis tornou-se o encontro estadual, reunindo os representantes de todas as  dioceses do Estado. Os temas, até então da vida interna da Igreja, passaram a ser os da vida do povo: direitos humanos, direitos do lavrador, lei da renda, direitos e deveres do lavrador.

         Os camponêses começaram a abrir so olhos. Na avaliação do encontro de dezembro de 1974, pudemos escutar comentários como estes:

“Isso deu para mostrar que a gente deve ajudar não só na parte espiritual   

  mas também material.”

“Descobri que temos direitos. Vai ser uma base que vai me afirmar.”

“Se alguém disser “faça isso”, vou dizer “diga de novo”, “espera aí.”

“Estou satisfeito em saber que o homem do campo pode reclamar.”

“Sinto-me com grande responsabilidade.

Articulação no âmbito nacional

         Na mesma época, isto é nos dias8 a10 de fevereiro de 1974, participei do encontro realizado em Salvador na Bahia. Procuravam-se pistas para a articulação em nível nacional. As preocupações e as perguntas dos participantes eram as mesmas que a gente se fazia no Maranhão. O que significa a “opção pelos pobres” ? “Tem-se a consciência de dominado”?

         Os participantes deste encontro não queriam ser considerados um grupo mas seu desejo era ser reconhecidos pela modalidade de encontros sendo  nem “clandestinos nem publicitários”. Criar comunhão entre pessoas-chave das diversas regiões do país em vista de uma ação libertadora era o objetivo de todos. Por isso delineamos alguns critérios para uma ação libertadora. Uma ação é libertadora, dizia-se, quando ela : atinge a raiz e não só os efeitos; leva a uma mudança; desperta a consciência crítica; leva o povo a se autodeterminar; incentiva a participação desde a base.

         Após este encontro, pessoas se encontravam, duas vezes por ano, em âmbito nacional.

Articulação no âmbito regional

        No regional do MAPICE (Maranhão-Piaui-Ceará) viveu-se um tempo rico em solidariedade. Foram os encontros realizados em Meruoca, no Ceará, de 20 a 25 de fevereiro, e de 21 a 30 de agôsto de 1974 e em Teresina, no Piaui. Apareceram conflitos em terras de Igreja. Nós nos perguntávamos : como vamos nos comportar em luta contra a Igreja, a nossa Igreja ? Esta situação nos levou a buscar, num nível mais amplo, um trabalho de libertação. A pedagogia libertadora era nossa principal preocupação. 

         Do encontro de agôsto de 1974, em Meruoca, nasceu uma equipe regional de articulação, que se deu como tarefa o acompanhamento e a animação dos participantes da região MAPICE. Era importante buscar também a articulação com os outros grupos existentes. Os membros da equipe continuavam a se interrogar sobre a viabilidade de tomar a iniciativa de incentivar a articulação regional das bases. Que típo de interferência podemos ter neste processo ? Como fugir do perigo de elitização ? Os agentes se organizaram em pequenos grupos de acordo com seu interesse de estudos e aprofundamentos: história, religiosidade popular, sindicato, lutas populares, leis da terra, luta de classe e projeto babaçu.        

         O pessoal do CEAS, em particular Claúdio e Andrés, facilitaram muito a caminhada da articulação no regional, com visitas às regiões e com cursos de capacitação.

Encontro de Vitória, E.S.

         Dom Luis Fernandes era bispo auxiliar de vitória, Es. No segundo semestre de 1974, ele convidou pessoas de diversas regiões do país trabalhando com as CEB’S. O encontro era marcado para os dias6 a8 de janeiro de 1975. Pedia que fosse enviado com antecedência o relato de uma experiência de uma comunidade ecclesial de base. Contava ele que a idéia deste encontro tinha nascido numa conversa com Eduardo Hoornaert, quando se interrogava sobre o futuro das CEB’S. Dizia ele : “Porque não reunir esses grupos do Brasil que tem  objetivos  parecidos com os da diocese de Vitória ?”

         O objetivo de Dom Luis era descobrir pistas concretas para  o trabalho futuro da Igreja de Vitória ajudado pela colaboração dos participantes das diversas regiões do país. Dom Luis não pretendia desencadear um processo de articulação nacional das CEB’S mas foi o que aconteceu.

         No fim daquele encontro, foram apresentadas diversas opções e critérios de ação. Leio em meu caderno de anotações:

“Nas diversas opções apresentadas, decidiu-se, em primeiro lugar, por assumir concretamente o significado de “libertação”: problema político, cultural e ministerial. Quanto ao problema político, destacou-se um ponto fundamental: TERRA. Isso significa que se deve tomar uma posição a respeito da propriedade. Quanto ao problema ministerial, criar uma assessoria para refletir sobre a passagem entre o sistema clerical e aquele novo que vai brotar. É necessário garantir a autonomia da base.”

         Esta opção prioritária discutida em plenário foi formulada assim nas conclusões finais :

“Em obediência ao Evangelho e aos apelos que vem da realidade vivida pelo povo, optamos por uma evangelização libertadora através do trabalho nas CEB’S. Isso implica numa clara opção nossa pelos oprimidos.

Na linha da ação política, que a Igreja participe da luta de libertação do povo, denunciando toda forma de injustiça e suas causas, propondo uma sociedade sem barreiras que impedem a fraternidade e a comunhão entre os homens.”

Encontro no âmbito da Amazônia Legal

         Concomitante ao encontro das CEB’s em Vitória, o Pe Virgílio Uchoa, assessor da linha dos ministérios na pastoral da CNBB, começou a articular um encontro de agentes pastorais que trabalhavam no território definido como Amazônia Legal – o que compreendia, então, o Maranhão – para estudar a questão TERRA. Lembro-me ter encontrado Pe Virgilio na casa dos padres redentoristas em São Luis, Ma, para discutir o assunto. A Comissão Pontíficia Justiça e Paz patrocinaria o encontro.

         Em 19 de junho de 1975 estávamos reunidos, agentes das regiões e membros das comissões nacional e regionais de Justiça e Paz, em Goiânia. Trabalhamos até o dia 22. Num primeiro momento assistimos às palestras do Dr. Hélio Paulo de Arruda, diretor do departamento de projetos do INCRA e do representante da Contag. Em seguida, tentamos uma análise crítica da problemática terra na Amazônia Legal. Destacou-se a importância do instrumento jurídico, da falta da posse legal, a conscientização e o comportamento da Igreja. Fez-se uma crítica ao modelo brasileiro.

         No dia seguinte falou o Dr. Jorge, superintendente da SUDECO, representando ali o Governo.    

        Prosseguindo, perguntou-se: “No âmbitoDentro do que estamos fazendo, qual o objetivo, a visão, os impasses e as contradições da ação da Igreja?” Os debates foram animados e preocupantes. O que fazer para que este encontro produza seu fruto ?

         Lembro-me daquela noite, onde, num quarto de dormir, estavam presentes Andrés Mato e Claúdio Perani, do CEAS, Ivo Poletto, D. Pedro Casaldáliga e eu, alimentanto informalmente a conversa. Estávamos procurando um jeito de sistematizar e dar coerência às conclusões do encontro. Surgiu, não sei como, a idéia de sugerir a Dom Moacyr Grechi, responsável pela linha missionária da pastoral da CNBB, que pedisse uma comissão de assessoria para o assunto terra. Idéia genial. No momento da caminhada final do encontro, a proposta foi apresentada, votada e aprovada. Acabava de nascer a Comissão Pastoral da Terra como órgão de assessoria ao bispo responsável pela linha missionária da CNBB.

         O Maranhão estava em plena crise. Desde o “Maranhão Novo” do então ex-governador José Sarney, o Estado vivia fortes tensões, violências e mortes.  A grilagem pipocava em todos os cantos, em particular na área do Pindaré, na diocese de Viana. O novo bispo nomeado, presente ao encontro da Amazônia Legal, vinha para “botar órdem” e acabar com a memória de Dom Hélio Campos.

         A notícia da CPT  foi uma feliz notícia para o Maranhão. Chegava como uma resposta aos esforços de tantos agentes de Igreja comprometidos com o povo.

         Em agôsto de 1975, poucas semanas após a ciação da CPT, viajei para o Canadá por motivo de saúde e consegui retornar somente no começo de janeiro de 1976. Ivo Poletto tinha assumido a tarefa de secretário executivo da CPT em nível nacional. Neste intervalo do segundo semestre de 1975, ele visitou diversas regiões, inclusive o Maranhão. Recebi o convite para assumir o regional do Maranhão. Não havia ainda acordo de Dom Mota, arcebispo de São Luis, em cuja arquidiocese assumia a coordenação das CEB’S. Manifestou sua adesão em 5 de março 1976.

        O grupo de articulação do MAPICE questionava minha participação na recém-criada comissão. “Será uma comissão de cúpula na linha política ou ação de base na linha profética e pedagógica ?” perguntavam. Existiam certos temores. Um colega, após ter lido o primeiro boletim da CPT, dizia: “Pense bem, pois se for publicado um segundo boletim de conteúdo igual ao primeiro, esta Comissão não vai durar muito tempo”. Por diversos motivos. Sentia que a existência da CPT e minha participação causariam alguns afastamentos de amigos e amigas. Aconteceram, sim, mas a CPT desencadeou o processo de articulação pelas bases e deu vitalidade às comunidades eclesiais de base, sonho que a equipe de articulação acalentava havia alguns anos.

         Em maio de 1976, reunidos em Goiânia, ainda em local emprestado e sentados no chão, fizemos um relato do trabalho realizado nas diversas áreas. O problema da terra não era só problema da Amazônia Legal, mas de todo o país. A dificuldade de relacionamento entre a CPT e grupos de bispos, sindicatos,   FUNAI era marcante. Não havia muita sensibilidade do episcopado em relação ao problema, apesar de existir regiões em situação de desespero. Foi também naquele encontro que definimos o objetivo da CPT nos termos de “interligar, assessorar, dinamizar deixando margens às experiências diversas conforme as realidades”. Já era possível contar um quadro das regiões com seus animadores.

E depois …

         Nos dias18 a20 de maio de 1976, no encontro de articulação nacional, processo desencadeado em fevereiro de 1974, o meio rural se apresentou mais organizado e articulado. Estava também articulado o meio operário. Resolveu-se então acabar com este típo de grupo e de encontro.

         No mesmo ano, no mês de agôsto, a equipe de articulação do MAPICE também questionou a necessidade de continuar os encontros regionais. Após uma avaliação dos últimos acontecimentos, chegamos à conclusão de que aqueles encontros tinham cumprido seu objetivo – a raiz da articulação estava plantada e os jardineiros que fôramos haviam servido e cumprido a missão. Concluímos deixando ao futuro a missão de avaliar o acerto de nossa decisão.

         Hoje, diante dos fatos e do crescimento da consciência dos homens e das mulheres no campo, ninguém pode duvidar. Vinte e cinco anos depois, pode se celebrar o profetismo do gesto de 1975.

Artigo redigido no ano da celebração dos vinte e cinco anos de lutas e conquistas da Comissão Pastoral da Terra e publicado no livro “Nas pegadas do povo da terra”, coordenada a primeira parte por Ivo Poletto e redigida a segunda parte por Antônio Canuto, Comissão Pastoral da Terra, Goiânia, e Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2002, 168 p.

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