Intercâmbio entre Igrejas: Brasil – Canadá

« INTERCÂMBIO ENTRE IGREJAS » -  Balsas e Montréal

(Esboço de compreensão)

I.  A MISSÃO tem ainda sua razão de ser ?

De 1955 até  hoje, diversas dioceses da província de Québec,Canada, enviam missionários leigos, religiosos, religiosas e sacerdotes para dioceses do Brasil, em particular do Maranhão. Vieram muitos. Vem menos. A década de 60 marcou profundamente a vida da Igreja desta província de tal maneira que se multiplicaram as saídas de sacerdotes et de religiosas e que muitos cristãos desertaram as igrejas. Uma crise se instalou e as comunidades, progressivamente, se fecharam sobre si mesmas. Tem ainda sentido o envio de missionários e de missionárias, vez que o pessoal ao servico das Igrejas diminuiu significativamente ?

A crise da Igreja se generalizou no mundo. Em 1990, o papa João Paulo II, na sua encíclica “Redemptoris Missio”, falava de “uma tendência negativa” no sentido de que “a missão específica ad gentes parece estar numa fase de afrouxamento, contra todas as indicações do Concilio e do Magistério posterior. Dificuldades internas e externas enfraqueceram o dinamismo missionário da Igreja ao serviço dos não-cristãos” (Rm no. 2)

No momento em que, no nosso trabalho em Montréal, alguns cristãos questionavam a atualidade da Missão, Dom Franco escrevia uma carta ao Pe Victor Asselin, propondo um intercâmbio “no espírito de comunhão das Igrejas” (06.07.98). Qual seria este projeto ? O que significa intercâmbio “no espírito de comunhão das Igrejas” ?  Não sabíamos e ainda não sabemos. Uma coisa era certa: esta frase chamou a atenção e desencadeou um processo de reflexão sobre Missão. Eu gostaria de relembrar aqui algo do conteúdo das reflexões que justificaram, da parte das pessoas de Montréal, a resposta positiva dada ao bispo de Balsas.

II.  A Missão – sua razão de ser

Um olhar sobre o mundo que nos cerca e no qual vivemos despertou em nós a trágica realidade das relações quebradas tanto na família, na sociedade, na Igreja e em nós mesmos. Perdeu-se o sentido da vida e da esperança apesar de continuar a sentir uma profunda fome e sede de Justiça e de Amor.

2.1 Jesus, enviado do Pai, propõe a liberdade

Neste contexto de desespero, Jesus, primeiro missionário enviado do Pai, veio relembrar a importância de refazer as relações quebradas: relação de filiação com o Pai; relação de fraternidade com os irmãos e as irmãs; relação de liberdade  com os bens e relação de verdade consigo mesmo. Um plano que trazia vida. “Eu vim para que todos tenham vida e tenham em abundância”. (Jo. 10,10)

O primeiro missionário veio relembrar o plano de liberdade e o confiou à sua Igreja para que seja levado “a todos os homens”, em particular aos “marginalizados pela sociedade … fazendo-lhes sentir e viver, já, uma experiência de libertação … tratando-os como iguais e amigos, procurando que se sentissem amados por Deus, e revelando, deste modo, imensa ternura pelos necessitados e pecadores” (RM no. 14).

Assim sendo, o caráter missionário da Igreja se fundamenta na vida trinitária, modêlo de comunhão, de igualdade, de partilha, de solidariedade e de participação. Ninguém é superior ou inferior. Tudo se resolve na comunhão. É sobre este modêlo que o mundo foi criado. Em efeito, o mundo revela a imagem do seu Criador. Não é de estranhar então a afirmação de que o impulso missionário pertence à natureza íntima da vida cristã e de que todo ser humano que tem a paixão da liberdade sente este impulso dentro de si.

“O fim último da missão é fazer participar na comunhão que existe entre o Pai e o Filho: os discípulos devem viver a unidade entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para que o mundo conheça e creia  (Jo. 17, 21. 23) (RM no. 23). Missão é obra de Amor. Missão é Relação. “Somos missionários sobretudo por aquilo que se é … e não tanto por aquilo que se diz ou faz” (RM no. 23).

2.2   Missão ad gentes

O Concílio Vaticano II relembrou que Cristo foi enviado“ para  manifestar e comunicar a caridade de Deus a todos os homens e povos” (Ad gentes, 10). Sendo assim, a Missão é única, ainda que ela tenha diversas funções e atividades. A Missão “ad gentes”, isto é a Missão aos “povos, grupos humanos, e contextos socioculturais onde Cristo e o seu Evangelho não é conhecido,  onde faltam comunidades cristãs suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a fé no ambiente próprio e anunciá-lo a outros grupos” (RM no. 33) constitui uma atividade essencial da Igreja e é propriamente o que chamamos “MISSÃO”.

          A Missão constitui uma atividade essencial da Igreja porque ela “renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece” (RM no. 2). Além do mais, “o exercício da missão “ad gentes” sempre foi um sinal de vitalidade, assim como a sua diminuição constitui um sinal de crise de fé” (RM no. 2) . E não é supérfluo acrescentar que é na missão “ad gentes” que a “obra do Espírito Santo brilha esplendorosamente” (RM no. 21).  “Por sua ação, a Boa-Nova ganha corpos nas consciências e nos corações humanos, expandindo-se na História” (RM no. 21).

“Sem a missão “ad gentes”, a própria dimensão missionária da Igreja ficaria privada do seu significado  fundamental e de seu exemplo de atuação” (RM no. 34).

2.3  Missão “ad gentes” em Balsas e em Montréal

 Jamais ninguém contestou a missão “ad gentes” como atividade essencial da Igreja. Porém, pode se justificar a importância do intercâmbio entre a missão äd gentes” em Balsas, no Brasil, e em Montréal, no Canadá ?

Mais uma vez, quero deixar a palavra ao Papa João Paulo II. Em primeiro lugar, ele nos fala da importância da troca entre as Igrejas tomando como ponto de prática a preocupação dos não-cristãos de sua própria casa. “O dinamismo missionário permite uma troca de valores entre as Igrejas, e projeta, para o mundo exterior, influência positiva, em todos os sentidos. As Igrejas de antiga tradição cristã , por exemplo, preocupadas com a dramática tarefa da nova evangelização, estão mais conscientes de que não podem ser missionárias dos não-cristãos de outros países e continentes, se não se preocuparem seriamente com os não-cristãos da própria casa: a atividade missionária “ad intra” é sinal de autenticidade e de estímulo para realizar a outra, “ad extra”, e vice-versa.” (RM no. 34)

Em segundo lugar, o papa convida ao intercâmbio de dar e de receber. “Exorto todas as Igrejas … a se abrirem à universalidade da Igreja. As Igrejas locais … devem manter concretamente esse sentido universal da fé, isto é, dando e recebendo, das outras Igrejas, dons espirituais, experiências pastorais de primeiro anúncio e de evangelização, de pessoal apostólico e meios materiais.” (RM no. 25)

“De fato, a tendência para se fechar em si própria pode ser forte: as Igrejas antigas, preocupadas com a nova evangelização, pensam que, agora, devem realizar a missão em casa, e correm o risco de refrear o ímpeto para o mundo não-cristão” (RM no. 85). Ora, é dando generosamente do nosso, que se recebe” … As Igrejas jovens, por outro lado, sentem o problema da própria identidade, da inculturação, da liberdade de crescer sem influências externas, com a possível consequência de fecharem as portas aos missionários. A estas Igrejas, digo: longe de vos isolardes, acolhei, de boa vontade, os missionários e os meios vindos das outras Igrejas, e vós próprias enviai-os também.” (RM no. 85)

III - Um projeto de intercâmbio no espírito de comunhão das Igrejas

                     O convite de Dom Franco dirigido, em abril passado, a uma Igreja canadense, por intermédio do Pe Victor Asselin, se encontra bem justificado. Não sabemos e nem sequer temos idéias da natureza desse projeto. O que sabemos é que um convite partiu de Balsas por parte do bispo desta diocese e foi acolhido em Montréal por parte de pessoas trabalhando em contexto de marginalidade da metrópole; o que se sabe é que de ambas as partes há disposições para fazer um salto no desconhecido; o que se sabe é que o processo de descoberta do projeto deverá nascer das reflexões, das proposições e das sugestões de ambas as partes; o que se sabe é que já existe em Montréal um grupo de pessoas que se articulam para amadurecer a perspectiva deste intercâmbio; o que se sabe é que , em Balsas, existem pessoas motivadas para participarem do processo desencadeador do projeto e que o Pe Victor Asselin está atualmente aí para facilitar a possibilidade real do intercâmbio desejado; o que se sabe é que se prevê um ano e meio até dois para discernir o melhor a realizar; o que se sabe é que se quer desencadear um processo de busca de uma nova maneira de viver a Missão.

Formulou-se o objetivo do projeto nos termos seguintes: descobrir a maneira de viver a Missão em Balsas e em Montréal, praticando a solidariedade e a partilha, desenvolvendo uma PRESENÇA inspirada no espírito de comunhão e dando o testemunho da Boa-Nova. Trata-se de uma iniciativa visando a abertura de novos caminhos para o exercício da Missão “ad gentes”.  Sem dúvida, é um desafio ao se aproximar do novo milênio que está as nossas portas.

3.1  Plano de trabalho dos grupos missionários de Montréal

                    (Janeiro-junho de 1999)

Em janeiro deste ano, o grupo “Missão em casa” de Montréal elaborou sua programação e deu o devido encaminhamento referente ao projeto do possível intercâmbio com a Igreja de Balsas. Passo a transcrever algumas notas das atas das reuniões dos dias 3, 11 e 25 de janeiro.

1. O projeto de intercâmbio missionário: uma nova perspectiva

Pelo projeto em pauta sentimo-nos interpelados e convidados a mudar nossas maneiras de ser e de agir. Será, este projeto, oportuno ou não ? Queremos verificá-lo nos próximos mêses.

2. Uma atitude

Fomos convidados e, por assim dizer, chamados à solidariedade com uma outra Igreja, uma Igreja além fronteiras. Por isso, nos propomos, por meio das nossas reuniões, tomar consciência de que nem sempre fazemos “bem” a missão que nos foi confiada e que devemos nos recolocar constantemente a caminho.

3. Um caminho a descobrir para responder ao apelo

Para responder ao apelo, temos consciência de que entramos num processo de busca e de que nada nascerá tudo feito. Como isto será possível ? Como fazer para descobrí-lo ? Seguem algumas sugestões:

a . Faremos e verbalizaremos a história das nossas  experiências missionárias.  Em Montréal existem grupos que já realizam um trabalho missionário. Entraremos em contato com eles para uma melhor articulação e uma melhor apreciação do que se está fazendo em cada uma das experiências e ficaremos especialmente atentos aos elementos que os dinamizam.

b. Avaliaremos os caminhos da missão percorridos até hoje para descobrir a qualidade do que foi realizado (suas riquezas), para nos questionarmos sobre os nossos medos, bloqueios e limitações e para discernir os novos caminhos que se apresentam. Assim, estaremos em melhores condições para OFERECER e para PEDIR. Quem sabe se, o Espírito não inspirará uma pista mais atualizada para a Missão “ad gentes”.

c. Colocaremo-nos em atitude de escuta para acolher as experiências da Igreja de Balsas e tomaremos o tempo    necessário para considerar as sugestões e as reflexões que virão de lá.

d. Daremos uma particular importância à comunicação uma vez que Missão é, antes de tudo, comunhão. Por este motivo, acentuaremos mais a comunicação entre os grupos daqui e desejamos que assim o seja com a diocese de Balsas.

e.. Pouco a pouco, na medida em que se estabelecerá o intercâmbio de informações, reflexões e comunicações,   formularemos os pontos de intercâmbio e os meios a criar para uma nova maneira de viver a Missão.

f. Enfim, a contemplação da Trindade terá lugar de destaque nos nossos encontros e no quotidiano.

3.2  Plano de trabalho na diocese de Balsas

A conversa entre Balsas e Montréal, no que se refere ao projeto, se deu por correspondência. A proposta da vinda do Pe Victor a Balsas por um período de 4 meses se tornava necessária para melhor acertar o diálogo e para verificar com o pessoal o processo que será dado da parte da diocese de Balsas. As presentes notas pretendem apenas fornecer alguns esclarecimentos sobre os fatos e os motivos que justificaram até hoje o começo de um processo de intercâmbio entre as duas Igrejas.

Para uma melhor compreensão e participação das pessoas interessadas da diocese de Balsas, sugiro que:

1.Se tome contato com o conteúdo da correspondência efetuada entre as partes;

2. Se aprofundem as justificativas da proposta em pauta;

3, Se dê encaminhamento ao projeto, se for o caso.

CONCLUSÃO

“Ao aproximar-se o terceiro milênio da Redenção, Deus está preparando uma grande primavera cristã, cuja aurora já se entrevê. Na verdade, tanto no mundo não-cristão como naquele de antiga tradição cristã, existe uma progressiva aproximação dos povos aos ideais e valores evangélicos, que a presença e a missão da Igreja se empenha em favorecer” (RM no. 86)

Cabe a cada uma e a cada um de nós de pormo-nos  à disposição da obra da libertação deste mundo já em gestação pelo Espírito.

Balsas, 14 de fevereiro de 1999

Victor Asselin, ptre

Comments are closed.