Séjour à Sambaíba

« MISSIONÁRIOS DO CAMPO »  

1. Primeiro contato

Falam-me dos « Missionários do campo ». Acabam de chegar numa pequena localidade chamada « Sambaíba ». Aí estou na tarde do dia 6 de fevereiro. Nas maõs de Dom Franco, bispo de Balsas, vejo uma cópia do Estatuto da Associação. Um olhar rápido. Isso me fascina pois reconheço as intuições vindo da reflexão sobre os ministérios dos anos 70 no Nordeste brasileiro como também intuo similitudes com a perspectiva dos « Missionários de rua » de Montréal.

Um breve contato se estabelece com os três homens, simples e discretos. Manifesto-lhes um particular interesse para passar alguns dias com eles. Apresento-lhes imediatamente minhas intenções: em primeiro lugar, a mística do « missionário do campo » se assemelha muito ao meu sonho de « missionário de rua »; em segundo lugar, estou interessado em descobrir o « NOVO » da missão no seu jeito de viver e, enfim, gostaria de perceber o interesse dêles a respeito do projeto de intercâmbio entre Igrejas. Os missionários aceitam meu pedido.

2. Segundo contato

Cheguei quase de improviso na casa dos missionários em Sambaíba, no dia 18 de fevereiro. Albesorge está na cozinha. Robertinho está trabalhando no quintal. Saudamo-nos e, após a troca de algumas palavras, cada um volta ao seu serviço. Conhecendo minhas intenções, logo à minha chegada, depois da acolhida, os irmãos, pelo seu comportamento, deixam bem claro que tenho que descobrir meu próprio caminho de inserção na comunidade.

3. O cotidiano

A vida começa pelas cinco horas da manhã. Abre-se a porta. Uma hora de oração. O povo pode participar. Sempre tem de 10 a 15 pessoas. Uma oração simples, cantada, participativa, sem busca de « perfeição ». Uma oração que nasce do coração. É a oração do « Tempo Presente » adaptada ao povo.

A 6 horas, todos os participantes da oração chegam até a cozinha para tomar um copo de « kéfir ». É um remédio natural. Uma maneira de acordar o povo ao uso da medicina natural. Depois, enquanto um dos três missionários prepara o café, os outros se ocupam à limpeza da casa. O que devo eu fazer ? Cabe a mim de ser bastante vivo para descobrir o meu lugar. Pelas 7 horas, tomamos o café e, sem conversa prolongada, o plano do dia já está feito. Em seguida, aquele, a quem cabe a tarefa da cozinha naquele dia, lava a louça e começa a preparação do almoço, e os dois outros vão para o seu trabalho no campo ou em outros lugares de acordo com as necessidades do dia. Cultiva-se a roça e prepara-se ao projeto de apicultura. Os missionários, na medida do possível, vivem dos frutos do seu trabalho.

Em torno do meio-dia a gente se encontra ao redor da mesa. Sempre há prato para a pessoa de passagem. Raramente tomei refeição sem a presença de crianças ou de adultos que, pour uma razão ou outra, entravam e sentavam à mesa. A mesa não é de ricos mas todos comem até ser satisfeitos. Na cozinha a panela de arroz é sempre maior que as outras. E é a rotina da louça e um tempo de descanso.

Na parte da tarde os missionários voltam ao seu trabalho até pelas 5 horas. Um banho e o jantar. No meio destas atividades toma-se o tempo para acolher o povo. Os horários de trabalho variam de acordo com as necessidades do povo. Participa-se aos grupos da paróquia et ajuda-se à organização da formação da comunidade. A calçada da casa é um lugar de encontro. Às vezes tem-se reuniões pela tarde e muitas vezes pela noite. Ouvindo falar que alguém está doente ou passa um momento difícil, logo a bicicleta sai de casa para dar um pouco do seu tempo numa visita amiga. O dia não tem hora para terminar. Termina com a saída de casa do último visitante.

4. Tomei consciência de …

Quem são esses missionários ?  Homens e mulheres, oriundos de meios pobres na sua maioria, sem estudos superiores  por muitos, unidos pela sua origem humilde e pela sua cultura, « vivem em família » (os missionários não empregam o vocabulário de « congregação ou comunidade religiosa ») e trabalham nos meios empobrecidos. « Ser pobre e trabalhar com os pobres me valoriza e é este testemunho que questiona os outros ».

Que significado tem esta vida sem prestígio ? Que sentido tem ? Três pontos chamaram minha atenção.

a. A possibilidade de transformer um meio pelo testemunho de vida Os missionários não tem nada que chama a atenção. São pessoas simples, sem dinheiro e sem diploma. Não podem então partilhar o poder do dinheiro ou du saber. Apesar disto o povo deposita neles sua confiança e sua presença discreta e gratuita interpela. O povo se questiona a si mesmo. Será que não podemos afirmar que é um sinal de presença que suscita a transformação do meio ?  « A simples maneira de ser, muitas vêzes interroga mais que a palavra. »

b. Ajudar alguém a tomar suas responsabilidades deixando espaço para que ele mesmo descubra seu lugar Durante os seis dias passados aí, em nenhum momento escutei os missionários pedir ajuda de alguém. Por outro lado, vi muitas vêzes  o missionário abandonar silenciosamente sua tarefa a alguém procurando seu lugar para se empenhar a outra. Saia discretamente sem fazer nenhuma recomendação como alguém que tivesse certeza de que o trabalho seria continuado da melhor maneira possível. Nunca se ouve um julgamento. Deixa-se o outro perceber seus erros e se corrigir por ele mesmo. Talvez seja possível em razão do meio ambiente que convida à mudança.

Quando examino meu comportamento pessoal durante esses dias, tomo consciência de que, para viver de dentro a experiência com os missionários, devia descobrir meus lugares de inserção, isto é descobrir os lugares que se adaptavam bem à minha idade, aos meus dons e às minhas capacidades. Assim sendo, na medida onde descobria as necessidades do grupo e da casa, tomava as iniciativas que achava oportunas. Os missionários as acolhiam não com agradecimentos mas facilitando-lhes lugares na vida de conjunto.

c. A sede da missão e da evangelização

O « Missionário do campo » é um itinerante. Anda e tem sede de           descobrir os múltiplos rostos de Deus. Antonio José, por exemplo, é um homem que já passou mêses percorrendo as estradas, levando a esperança às pessoas e alimentando sua interioridade destes rostos de  comunhão do nosso Deus.

Eis o motivo pelo qual os missionários dão muito tempo e espaço ao acolhimento. Deixam o trabalho para acolher. Deixam o  trabalho até necessário para gastar tempo, sentado junto ao povo. Parece que o missionário advinha a chegada de alguém e logo aí está  presente para acompanhá-lo nas suas necessidades.

5. O que caracteriza os missionários ?

Deixo aos missionários o cuidado de dizer o que os caracteriza. Três dimensões são imediatamente assinaladas.

a. O valor do trabalho

« Qualquer que seja, o trabalho é nobre. É por meio dele que a  pessoa humana descobre  sua dignidade. » O trabalho não fundamenta  nem justifica a formação de classe social mas é um chamado à  diversidade dos dons para viver  a riqueza da complementariedade. « Valorizar o trabalho é fazer desaparecer o preconceito de inferioridade ou de superioridade e assim do status social. O leigo,pelo seu trabalho manual, pode ser missionário. O que era reservado outrora aos padres, aos religiosos ou às religiosas não existe mais.Jesus era um trabalhador manual et foi o maior dos missionários ».  « O trabalho é, para os missionários e missionárias, meio de educação da fé, pois é por meio dele que poderão sentir e auscultar as dificuldades dos trabalhos do campo e da cidade, partilhando a fé e buscando alternativas comuns, identificando-se com os trabalhadores. » (Estatuto, art. 10)

b. A comunidade.

A comunidade é um desafio apesar de ser ela que sustenta os           membros pois « vivemos um mesmo objetivo ».  « Assim nunca estamos  só″. « A formação deve ser algo sério e deve questionar o senso de responsabilidade. Nossa formação insiste sobre a nossa prática de vida com o povo, sobre a nossa capacidade de escuta, de partilha, de avaliar e de ser avaliado. »  « O que nos guarda unidos é o rosto da Associação que nos é dado durante a formação. »

« A vida comunitária supõe a aceitação real da diversidade embora se realize concretamente com pessoas que comungam às mesmas afinidades. A Associação acolhe « pastores, itinerantes , contemplativos e casais » (Estatuto, art. 15). « Cada afinidade fará a sua  forma de vida » e todos serão unidos pela mística da Associação.

c. A vida de oração

« A vida de oração é necessária para questionar o engajamento de cada um. » « Os missionários e missionárias fundamentam sua espiritualidade no único Mestre, Missionário do Pai, Jesus de Nazaré, carpinteiro, que viveu itinerante no meio dos pobres, anunciando-lhes a Boa Nova do Reino, curando os cegos, libertando os presos, pondo em liberdade os oprims, orando ao Pai, reunindo e formando os           discípulos, enviando-os em missão e partindo o pão entre eles. » (Estatuto,art. 4)

Os missionários, como dizem os Estatutos « buscam responder aos apelos da Igreja de Deus nos tempos de hoje, vivendo e trabalhando no meio popular, nfrentando os desafios que a realidade lhes impõe, tentando ser aí, presença de Deus e de sua Igreja, buscando ajudar na preservação da vida integral das pessoas e do ambiente onde vivem. » (Art. 6)

6. As dificuldades

Os missionários vivem a transparência em tudo. As questões mais comprometedoras foram também discutidas sem nenhuma restrição e com grande abertura. Apresentam quatro dificuldades no seu engajamento.

a. A resistência da família

Muitas vêzes membros da família exercem pressão sobre os  missionários pois é lhes difícil entender a vocação missionária. Questionam-se. De fato é plenamente inexplicável que homens em plena forma física e psicológica aceitem viver unicamente para realizar o sonho da MISSÃO.

b. A discriminação da sociedade

Os missionários escutam comentários de todo típo: « três rapazes morando juntos, sem serem padres nem casados …  quem são eles ? » – « Se vocês não ganham nada, como é que vocês vivem ? » – E de dizer um deles : « Não temos nem diploma para nos defender. Só nos resta a força do Evangelho. »

c. A incompreensão de homens e mulheres da Igreja

Os missionários não tem muito o apoio das autoridades oficiais da Igreja. Por que razões ?  Os missionários, discretamente, mencionam a inveja e o medo da competição. Estranho, não é ?  Eles que tem tão pouca coisa a dar. Só resta, como dissemos, o testemunho. Não seria isso que mais interpela ?

d. O discernimento para o celibato

O celibato em si, sendo facultativo, não é um obstáculo. É uma  escolha. A dificuldade vem do discernimento a fazer sobre o típo de      vida a escolher para a realização da MISSÃO. O apelo à vida itinerante comporta suas preocupações e suas incertezas. Existe um sentido de vida a descobrir que dê sentido ao caminhar de uma vida.

CONCLUSÃO

Concluo. « Digam-me as palavras que mais os caracterizam ? » assim pedi para eles. Espontâneamente responderam: « os pobres, a marginalidade, a solidariedade com as pessoas sofridas, peregrino, trabalhador, sub-empregado e fraternal. » Colocamos esses ingredientes juntos e teremos o sabor do « missionário do campo ».

Não poderíamos descobrir nesta maneira de viver alguns elementos para uma nova maneira de viver a MISSÃO e de ser missionário, hoje ?

Balsas, 6 de março de 1999

Pe Victor Asselin

 

 

 

 

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