Séjour à Sambaíba

« MISSIONÁRIOS DO CAMPO »  

1. Primeiro contato

Falam-me dos « Missionários do campo ». Acabam de chegar numa pequena localidade chamada « Sambaíba ». Aí estou na tarde do dia 6 de fevereiro. Nas maõs de Dom Franco, bispo de Balsas, vejo uma cópia do Estatuto da Associação. Um olhar rápido. Isso me fascina pois reconheço as intuições vindo da reflexão sobre os ministérios dos anos 70 no Nordeste brasileiro como também intuo similitudes com a perspectiva dos « Missionários de rua » de Montréal.

Um breve contato se estabelece com os três homens, simples e discretos. Manifesto-lhes um particular interesse para passar alguns dias com eles. Apresento-lhes imediatamente minhas intenções: em primeiro lugar, a mística do « missionário do campo » se assemelha muito ao meu sonho de « missionário de rua »; em segundo lugar, estou interessado em descobrir o « NOVO » da missão no seu jeito de viver e, enfim, gostaria de perceber o interesse dêles a respeito do projeto de intercâmbio entre Igrejas. Os missionários aceitam meu pedido.

2. Segundo contato

Cheguei quase de improviso na casa dos missionários em Sambaíba, no dia 18 de fevereiro. Albesorge está na cozinha. Robertinho está trabalhando no quintal. Saudamo-nos e, após a troca de algumas palavras, cada um volta ao seu serviço. Conhecendo minhas intenções, logo à minha chegada, depois da acolhida, os irmãos, pelo seu comportamento, deixam bem claro que tenho que descobrir meu próprio caminho de inserção na comunidade.

3. O cotidiano

A vida começa pelas cinco horas da manhã. Abre-se a porta. Uma hora de oração. O povo pode participar. Sempre tem de 10 a 15 pessoas. Uma oração simples, cantada, participativa, sem busca de « perfeição ». Uma oração que nasce do coração. É a oração do « Tempo Presente » adaptada ao povo.

A 6 horas, todos os participantes da oração chegam até a cozinha para tomar um copo de « kéfir ». É um remédio natural. Uma maneira de acordar o povo ao uso da medicina natural. Depois, enquanto um dos três missionários prepara o café, os outros se ocupam à limpeza da casa. O que devo eu fazer ? Cabe a mim de ser bastante vivo para descobrir o meu lugar. Pelas 7 horas, tomamos o café e, sem conversa prolongada, o plano do dia já está feito. Em seguida, aquele, a quem cabe a tarefa da cozinha naquele dia, lava a louça e começa a preparação do almoço, e os dois outros vão para o seu trabalho no campo ou em outros lugares de acordo com as necessidades do dia. Cultiva-se a roça e prepara-se ao projeto de apicultura. Os missionários, na medida do possível, vivem dos frutos do seu trabalho.

Em torno do meio-dia a gente se encontra ao redor da mesa. Sempre há prato para a pessoa de passagem. Raramente tomei refeição sem a presença de crianças ou de adultos que, pour uma razão ou outra, entravam e sentavam à mesa. A mesa não é de ricos mas todos comem até ser satisfeitos. Na cozinha a panela de arroz é sempre maior que as outras. E é a rotina da louça e um tempo de descanso.

Na parte da tarde os missionários voltam ao seu trabalho até pelas 5 horas. Um banho e o jantar. No meio destas atividades toma-se o tempo para acolher o povo. Os horários de trabalho variam de acordo com as necessidades do povo. Participa-se aos grupos da paróquia et ajuda-se à organização da formação da comunidade. A calçada da casa é um lugar de encontro. Às vezes tem-se reuniões pela tarde e muitas vezes pela noite. Ouvindo falar que alguém está doente ou passa um momento difícil, logo a bicicleta sai de casa para dar um pouco do seu tempo numa visita amiga. O dia não tem hora para terminar. Termina com a saída de casa do último visitante.

4. Tomei consciência de …

Quem são esses missionários ?  Homens e mulheres, oriundos de meios pobres na sua maioria, sem estudos superiores  por muitos, unidos pela sua origem humilde e pela sua cultura, « vivem em família » (os missionários não empregam o vocabulário de « congregação ou comunidade religiosa ») e trabalham nos meios empobrecidos. « Ser pobre e trabalhar com os pobres me valoriza e é este testemunho que questiona os outros ».

Que significado tem esta vida sem prestígio ? Que sentido tem ? Três pontos chamaram minha atenção.

a. A possibilidade de transformer um meio pelo testemunho de vida Os missionários não tem nada que chama a atenção. São pessoas simples, sem dinheiro e sem diploma. Não podem então partilhar o poder do dinheiro ou du saber. Apesar disto o povo deposita neles sua confiança e sua presença discreta e gratuita interpela. O povo se questiona a si mesmo. Será que não podemos afirmar que é um sinal de presença que suscita a transformação do meio ?  « A simples maneira de ser, muitas vêzes interroga mais que a palavra. »

b. Ajudar alguém a tomar suas responsabilidades deixando espaço para que ele mesmo descubra seu lugar Durante os seis dias passados aí, em nenhum momento escutei os missionários pedir ajuda de alguém. Por outro lado, vi muitas vêzes  o missionário abandonar silenciosamente sua tarefa a alguém procurando seu lugar para se empenhar a outra. Saia discretamente sem fazer nenhuma recomendação como alguém que tivesse certeza de que o trabalho seria continuado da melhor maneira possível. Nunca se ouve um julgamento. Deixa-se o outro perceber seus erros e se corrigir por ele mesmo. Talvez seja possível em razão do meio ambiente que convida à mudança.

Quando examino meu comportamento pessoal durante esses dias, tomo consciência de que, para viver de dentro a experiência com os missionários, devia descobrir meus lugares de inserção, isto é descobrir os lugares que se adaptavam bem à minha idade, aos meus dons e às minhas capacidades. Assim sendo, na medida onde descobria as necessidades do grupo e da casa, tomava as iniciativas que achava oportunas. Os missionários as acolhiam não com agradecimentos mas facilitando-lhes lugares na vida de conjunto.

c. A sede da missão e da evangelização

O « Missionário do campo » é um itinerante. Anda e tem sede de           descobrir os múltiplos rostos de Deus. Antonio José, por exemplo, é um homem que já passou mêses percorrendo as estradas, levando a esperança às pessoas e alimentando sua interioridade destes rostos de  comunhão do nosso Deus.

Eis o motivo pelo qual os missionários dão muito tempo e espaço ao acolhimento. Deixam o trabalho para acolher. Deixam o  trabalho até necessário para gastar tempo, sentado junto ao povo. Parece que o missionário advinha a chegada de alguém e logo aí está  presente para acompanhá-lo nas suas necessidades.

5. O que caracteriza os missionários ?

Deixo aos missionários o cuidado de dizer o que os caracteriza. Três dimensões são imediatamente assinaladas.

a. O valor do trabalho

« Qualquer que seja, o trabalho é nobre. É por meio dele que a  pessoa humana descobre  sua dignidade. » O trabalho não fundamenta  nem justifica a formação de classe social mas é um chamado à  diversidade dos dons para viver  a riqueza da complementariedade. « Valorizar o trabalho é fazer desaparecer o preconceito de inferioridade ou de superioridade e assim do status social. O leigo,pelo seu trabalho manual, pode ser missionário. O que era reservado outrora aos padres, aos religiosos ou às religiosas não existe mais.Jesus era um trabalhador manual et foi o maior dos missionários ».  « O trabalho é, para os missionários e missionárias, meio de educação da fé, pois é por meio dele que poderão sentir e auscultar as dificuldades dos trabalhos do campo e da cidade, partilhando a fé e buscando alternativas comuns, identificando-se com os trabalhadores. » (Estatuto, art. 10)

b. A comunidade.

A comunidade é um desafio apesar de ser ela que sustenta os           membros pois « vivemos um mesmo objetivo ».  « Assim nunca estamos  só″. « A formação deve ser algo sério e deve questionar o senso de responsabilidade. Nossa formação insiste sobre a nossa prática de vida com o povo, sobre a nossa capacidade de escuta, de partilha, de avaliar e de ser avaliado. »  « O que nos guarda unidos é o rosto da Associação que nos é dado durante a formação. »

« A vida comunitária supõe a aceitação real da diversidade embora se realize concretamente com pessoas que comungam às mesmas afinidades. A Associação acolhe « pastores, itinerantes , contemplativos e casais » (Estatuto, art. 15). « Cada afinidade fará a sua  forma de vida » e todos serão unidos pela mística da Associação.

c. A vida de oração

« A vida de oração é necessária para questionar o engajamento de cada um. » « Os missionários e missionárias fundamentam sua espiritualidade no único Mestre, Missionário do Pai, Jesus de Nazaré, carpinteiro, que viveu itinerante no meio dos pobres, anunciando-lhes a Boa Nova do Reino, curando os cegos, libertando os presos, pondo em liberdade os oprims, orando ao Pai, reunindo e formando os           discípulos, enviando-os em missão e partindo o pão entre eles. » (Estatuto,art. 4)

Os missionários, como dizem os Estatutos « buscam responder aos apelos da Igreja de Deus nos tempos de hoje, vivendo e trabalhando no meio popular, nfrentando os desafios que a realidade lhes impõe, tentando ser aí, presença de Deus e de sua Igreja, buscando ajudar na preservação da vida integral das pessoas e do ambiente onde vivem. » (Art. 6)

6. As dificuldades

Os missionários vivem a transparência em tudo. As questões mais comprometedoras foram também discutidas sem nenhuma restrição e com grande abertura. Apresentam quatro dificuldades no seu engajamento.

a. A resistência da família

Muitas vêzes membros da família exercem pressão sobre os  missionários pois é lhes difícil entender a vocação missionária. Questionam-se. De fato é plenamente inexplicável que homens em plena forma física e psicológica aceitem viver unicamente para realizar o sonho da MISSÃO.

b. A discriminação da sociedade

Os missionários escutam comentários de todo típo: « três rapazes morando juntos, sem serem padres nem casados …  quem são eles ? » – « Se vocês não ganham nada, como é que vocês vivem ? » – E de dizer um deles : « Não temos nem diploma para nos defender. Só nos resta a força do Evangelho. »

c. A incompreensão de homens e mulheres da Igreja

Os missionários não tem muito o apoio das autoridades oficiais da Igreja. Por que razões ?  Os missionários, discretamente, mencionam a inveja e o medo da competição. Estranho, não é ?  Eles que tem tão pouca coisa a dar. Só resta, como dissemos, o testemunho. Não seria isso que mais interpela ?

d. O discernimento para o celibato

O celibato em si, sendo facultativo, não é um obstáculo. É uma  escolha. A dificuldade vem do discernimento a fazer sobre o típo de      vida a escolher para a realização da MISSÃO. O apelo à vida itinerante comporta suas preocupações e suas incertezas. Existe um sentido de vida a descobrir que dê sentido ao caminhar de uma vida.

CONCLUSÃO

Concluo. « Digam-me as palavras que mais os caracterizam ? » assim pedi para eles. Espontâneamente responderam: « os pobres, a marginalidade, a solidariedade com as pessoas sofridas, peregrino, trabalhador, sub-empregado e fraternal. » Colocamos esses ingredientes juntos e teremos o sabor do « missionário do campo ».

Não poderíamos descobrir nesta maneira de viver alguns elementos para uma nova maneira de viver a MISSÃO e de ser missionário, hoje ?

Balsas, 6 de março de 1999

Pe Victor Asselin

 

 

 

 

Intercâmbio entre Igrejas: Brasil – Canadá

« INTERCÂMBIO ENTRE IGREJAS » -  Balsas e Montréal

(Esboço de compreensão)

I.  A MISSÃO tem ainda sua razão de ser ?

De 1955 até  hoje, diversas dioceses da província de Québec,Canada, enviam missionários leigos, religiosos, religiosas e sacerdotes para dioceses do Brasil, em particular do Maranhão. Vieram muitos. Vem menos. A década de 60 marcou profundamente a vida da Igreja desta província de tal maneira que se multiplicaram as saídas de sacerdotes et de religiosas e que muitos cristãos desertaram as igrejas. Uma crise se instalou e as comunidades, progressivamente, se fecharam sobre si mesmas. Tem ainda sentido o envio de missionários e de missionárias, vez que o pessoal ao servico das Igrejas diminuiu significativamente ?

A crise da Igreja se generalizou no mundo. Em 1990, o papa João Paulo II, na sua encíclica “Redemptoris Missio”, falava de “uma tendência negativa” no sentido de que “a missão específica ad gentes parece estar numa fase de afrouxamento, contra todas as indicações do Concilio e do Magistério posterior. Dificuldades internas e externas enfraqueceram o dinamismo missionário da Igreja ao serviço dos não-cristãos” (Rm no. 2)

No momento em que, no nosso trabalho em Montréal, alguns cristãos questionavam a atualidade da Missão, Dom Franco escrevia uma carta ao Pe Victor Asselin, propondo um intercâmbio “no espírito de comunhão das Igrejas” (06.07.98). Qual seria este projeto ? O que significa intercâmbio “no espírito de comunhão das Igrejas” ?  Não sabíamos e ainda não sabemos. Uma coisa era certa: esta frase chamou a atenção e desencadeou um processo de reflexão sobre Missão. Eu gostaria de relembrar aqui algo do conteúdo das reflexões que justificaram, da parte das pessoas de Montréal, a resposta positiva dada ao bispo de Balsas.

II.  A Missão – sua razão de ser

Um olhar sobre o mundo que nos cerca e no qual vivemos despertou em nós a trágica realidade das relações quebradas tanto na família, na sociedade, na Igreja e em nós mesmos. Perdeu-se o sentido da vida e da esperança apesar de continuar a sentir uma profunda fome e sede de Justiça e de Amor.

2.1 Jesus, enviado do Pai, propõe a liberdade

Neste contexto de desespero, Jesus, primeiro missionário enviado do Pai, veio relembrar a importância de refazer as relações quebradas: relação de filiação com o Pai; relação de fraternidade com os irmãos e as irmãs; relação de liberdade  com os bens e relação de verdade consigo mesmo. Um plano que trazia vida. “Eu vim para que todos tenham vida e tenham em abundância”. (Jo. 10,10)

O primeiro missionário veio relembrar o plano de liberdade e o confiou à sua Igreja para que seja levado “a todos os homens”, em particular aos “marginalizados pela sociedade … fazendo-lhes sentir e viver, já, uma experiência de libertação … tratando-os como iguais e amigos, procurando que se sentissem amados por Deus, e revelando, deste modo, imensa ternura pelos necessitados e pecadores” (RM no. 14).

Assim sendo, o caráter missionário da Igreja se fundamenta na vida trinitária, modêlo de comunhão, de igualdade, de partilha, de solidariedade e de participação. Ninguém é superior ou inferior. Tudo se resolve na comunhão. É sobre este modêlo que o mundo foi criado. Em efeito, o mundo revela a imagem do seu Criador. Não é de estranhar então a afirmação de que o impulso missionário pertence à natureza íntima da vida cristã e de que todo ser humano que tem a paixão da liberdade sente este impulso dentro de si.

“O fim último da missão é fazer participar na comunhão que existe entre o Pai e o Filho: os discípulos devem viver a unidade entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para que o mundo conheça e creia  (Jo. 17, 21. 23) (RM no. 23). Missão é obra de Amor. Missão é Relação. “Somos missionários sobretudo por aquilo que se é … e não tanto por aquilo que se diz ou faz” (RM no. 23).

2.2   Missão ad gentes

O Concílio Vaticano II relembrou que Cristo foi enviado“ para  manifestar e comunicar a caridade de Deus a todos os homens e povos” (Ad gentes, 10). Sendo assim, a Missão é única, ainda que ela tenha diversas funções e atividades. A Missão “ad gentes”, isto é a Missão aos “povos, grupos humanos, e contextos socioculturais onde Cristo e o seu Evangelho não é conhecido,  onde faltam comunidades cristãs suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a fé no ambiente próprio e anunciá-lo a outros grupos” (RM no. 33) constitui uma atividade essencial da Igreja e é propriamente o que chamamos “MISSÃO”.

          A Missão constitui uma atividade essencial da Igreja porque ela “renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece” (RM no. 2). Além do mais, “o exercício da missão “ad gentes” sempre foi um sinal de vitalidade, assim como a sua diminuição constitui um sinal de crise de fé” (RM no. 2) . E não é supérfluo acrescentar que é na missão “ad gentes” que a “obra do Espírito Santo brilha esplendorosamente” (RM no. 21).  “Por sua ação, a Boa-Nova ganha corpos nas consciências e nos corações humanos, expandindo-se na História” (RM no. 21).

“Sem a missão “ad gentes”, a própria dimensão missionária da Igreja ficaria privada do seu significado  fundamental e de seu exemplo de atuação” (RM no. 34).

2.3  Missão “ad gentes” em Balsas e em Montréal

 Jamais ninguém contestou a missão “ad gentes” como atividade essencial da Igreja. Porém, pode se justificar a importância do intercâmbio entre a missão äd gentes” em Balsas, no Brasil, e em Montréal, no Canadá ?

Mais uma vez, quero deixar a palavra ao Papa João Paulo II. Em primeiro lugar, ele nos fala da importância da troca entre as Igrejas tomando como ponto de prática a preocupação dos não-cristãos de sua própria casa. “O dinamismo missionário permite uma troca de valores entre as Igrejas, e projeta, para o mundo exterior, influência positiva, em todos os sentidos. As Igrejas de antiga tradição cristã , por exemplo, preocupadas com a dramática tarefa da nova evangelização, estão mais conscientes de que não podem ser missionárias dos não-cristãos de outros países e continentes, se não se preocuparem seriamente com os não-cristãos da própria casa: a atividade missionária “ad intra” é sinal de autenticidade e de estímulo para realizar a outra, “ad extra”, e vice-versa.” (RM no. 34)

Em segundo lugar, o papa convida ao intercâmbio de dar e de receber. “Exorto todas as Igrejas … a se abrirem à universalidade da Igreja. As Igrejas locais … devem manter concretamente esse sentido universal da fé, isto é, dando e recebendo, das outras Igrejas, dons espirituais, experiências pastorais de primeiro anúncio e de evangelização, de pessoal apostólico e meios materiais.” (RM no. 25)

“De fato, a tendência para se fechar em si própria pode ser forte: as Igrejas antigas, preocupadas com a nova evangelização, pensam que, agora, devem realizar a missão em casa, e correm o risco de refrear o ímpeto para o mundo não-cristão” (RM no. 85). Ora, é dando generosamente do nosso, que se recebe” … As Igrejas jovens, por outro lado, sentem o problema da própria identidade, da inculturação, da liberdade de crescer sem influências externas, com a possível consequência de fecharem as portas aos missionários. A estas Igrejas, digo: longe de vos isolardes, acolhei, de boa vontade, os missionários e os meios vindos das outras Igrejas, e vós próprias enviai-os também.” (RM no. 85)

III - Um projeto de intercâmbio no espírito de comunhão das Igrejas

                     O convite de Dom Franco dirigido, em abril passado, a uma Igreja canadense, por intermédio do Pe Victor Asselin, se encontra bem justificado. Não sabemos e nem sequer temos idéias da natureza desse projeto. O que sabemos é que um convite partiu de Balsas por parte do bispo desta diocese e foi acolhido em Montréal por parte de pessoas trabalhando em contexto de marginalidade da metrópole; o que se sabe é que de ambas as partes há disposições para fazer um salto no desconhecido; o que se sabe é que o processo de descoberta do projeto deverá nascer das reflexões, das proposições e das sugestões de ambas as partes; o que se sabe é que já existe em Montréal um grupo de pessoas que se articulam para amadurecer a perspectiva deste intercâmbio; o que se sabe é que , em Balsas, existem pessoas motivadas para participarem do processo desencadeador do projeto e que o Pe Victor Asselin está atualmente aí para facilitar a possibilidade real do intercâmbio desejado; o que se sabe é que se prevê um ano e meio até dois para discernir o melhor a realizar; o que se sabe é que se quer desencadear um processo de busca de uma nova maneira de viver a Missão.

Formulou-se o objetivo do projeto nos termos seguintes: descobrir a maneira de viver a Missão em Balsas e em Montréal, praticando a solidariedade e a partilha, desenvolvendo uma PRESENÇA inspirada no espírito de comunhão e dando o testemunho da Boa-Nova. Trata-se de uma iniciativa visando a abertura de novos caminhos para o exercício da Missão “ad gentes”.  Sem dúvida, é um desafio ao se aproximar do novo milênio que está as nossas portas.

3.1  Plano de trabalho dos grupos missionários de Montréal

                    (Janeiro-junho de 1999)

Em janeiro deste ano, o grupo “Missão em casa” de Montréal elaborou sua programação e deu o devido encaminhamento referente ao projeto do possível intercâmbio com a Igreja de Balsas. Passo a transcrever algumas notas das atas das reuniões dos dias 3, 11 e 25 de janeiro.

1. O projeto de intercâmbio missionário: uma nova perspectiva

Pelo projeto em pauta sentimo-nos interpelados e convidados a mudar nossas maneiras de ser e de agir. Será, este projeto, oportuno ou não ? Queremos verificá-lo nos próximos mêses.

2. Uma atitude

Fomos convidados e, por assim dizer, chamados à solidariedade com uma outra Igreja, uma Igreja além fronteiras. Por isso, nos propomos, por meio das nossas reuniões, tomar consciência de que nem sempre fazemos “bem” a missão que nos foi confiada e que devemos nos recolocar constantemente a caminho.

3. Um caminho a descobrir para responder ao apelo

Para responder ao apelo, temos consciência de que entramos num processo de busca e de que nada nascerá tudo feito. Como isto será possível ? Como fazer para descobrí-lo ? Seguem algumas sugestões:

a . Faremos e verbalizaremos a história das nossas  experiências missionárias.  Em Montréal existem grupos que já realizam um trabalho missionário. Entraremos em contato com eles para uma melhor articulação e uma melhor apreciação do que se está fazendo em cada uma das experiências e ficaremos especialmente atentos aos elementos que os dinamizam.

b. Avaliaremos os caminhos da missão percorridos até hoje para descobrir a qualidade do que foi realizado (suas riquezas), para nos questionarmos sobre os nossos medos, bloqueios e limitações e para discernir os novos caminhos que se apresentam. Assim, estaremos em melhores condições para OFERECER e para PEDIR. Quem sabe se, o Espírito não inspirará uma pista mais atualizada para a Missão “ad gentes”.

c. Colocaremo-nos em atitude de escuta para acolher as experiências da Igreja de Balsas e tomaremos o tempo    necessário para considerar as sugestões e as reflexões que virão de lá.

d. Daremos uma particular importância à comunicação uma vez que Missão é, antes de tudo, comunhão. Por este motivo, acentuaremos mais a comunicação entre os grupos daqui e desejamos que assim o seja com a diocese de Balsas.

e.. Pouco a pouco, na medida em que se estabelecerá o intercâmbio de informações, reflexões e comunicações,   formularemos os pontos de intercâmbio e os meios a criar para uma nova maneira de viver a Missão.

f. Enfim, a contemplação da Trindade terá lugar de destaque nos nossos encontros e no quotidiano.

3.2  Plano de trabalho na diocese de Balsas

A conversa entre Balsas e Montréal, no que se refere ao projeto, se deu por correspondência. A proposta da vinda do Pe Victor a Balsas por um período de 4 meses se tornava necessária para melhor acertar o diálogo e para verificar com o pessoal o processo que será dado da parte da diocese de Balsas. As presentes notas pretendem apenas fornecer alguns esclarecimentos sobre os fatos e os motivos que justificaram até hoje o começo de um processo de intercâmbio entre as duas Igrejas.

Para uma melhor compreensão e participação das pessoas interessadas da diocese de Balsas, sugiro que:

1.Se tome contato com o conteúdo da correspondência efetuada entre as partes;

2. Se aprofundem as justificativas da proposta em pauta;

3, Se dê encaminhamento ao projeto, se for o caso.

CONCLUSÃO

“Ao aproximar-se o terceiro milênio da Redenção, Deus está preparando uma grande primavera cristã, cuja aurora já se entrevê. Na verdade, tanto no mundo não-cristão como naquele de antiga tradição cristã, existe uma progressiva aproximação dos povos aos ideais e valores evangélicos, que a presença e a missão da Igreja se empenha em favorecer” (RM no. 86)

Cabe a cada uma e a cada um de nós de pormo-nos  à disposição da obra da libertação deste mundo já em gestação pelo Espírito.

Balsas, 14 de fevereiro de 1999

Victor Asselin, ptre

FÉ CRISTÃ : RELIGIÃO E POLÍTICA

                  FÉ CRISTÃ :  RELIGIÃO   E  POLÍTICA

Reflexão sobre o compromisso dos cristãos e cristãs

VICTOR ASSELIN*

“…na medida em que estamos dispostos em transgredir todos os limites da moral pretextando servir uma pessoa ou uma coletividade qualquer, estamos fazendo dela um deus. No mais real sentido, cegado pela separação entre religião e política, caimos na idolatria. Fizemos do Estado um deus.” [i]

“Os cristãos da pós-modernidade (individualmente ou agrupados em novas associações) terão condições de ser novamente atores políticos significativos ? A política terá possibilidade de exercer influência sobre a religião ?” Eis a pergunta que aqui sugerimos. Reformulo a pergunta nos termos seguintes: “Os cristãos e cristãs engajados na política no Brasil são atores significativos ? Quais relações estabelecem entre religião e política ? Podem existir interações entre as duas ? Em outras palavras, é possível ser cristão e político ? É possível lutar contra a injustiça e amar seu inimigo ? Minha reflexão sobre o tema tentará avaliar o engajamento dos cristãos e cristãs, em particular da Igreja católica, no contexto socio-econômico-político brasileiro. Assim sendo, a palavra « religião » vai se situar num universo restrito assim como o será a palavra « Igreja »

A relação religião-política sempre foi difícil para a Igreja católica. Congar, no fim de sua vida, deplorava o fato de que esta questão fosse tão pouco trabalhada. Hoje, ela se torna mais complicada pelo fato da privatização da experiência religiosa sem a mediação das instituições, no interior da lógica da valorização da subjetividade. As religiões que no passado tiveram a capacidade de orientar a vida social, hoje tem até dificuldade de ser fontes de sentido para o mundo e a pessoa. A modernidade e pós-modernidade obrigam as Igrejas a renunciar a qualquer pretensão de impor à sociedade seus princípios e suas normas. Neste contexto, qual é a postura dos cristãos e das cristãs ? Qual é o horizonte político a ser descoberto para as Igrejas ?

Atualmente, no Brasil, um número crescente de pessoas declaram não ter religião e 15,4% da população diz-se evangélica. Há poucos anos, este último grupo maintinha-se afastado da política. A partir das eleições de 2002 percebe-se uma presença política significativa destas igrejas na vida do país e na Igreja católica o tema política é recolocado entre as suas principais preocupações.[ii]

Para situar melhor a reflexão, apresentarei em primeiro lugar, de forma resumida, a leitura socio-pastoral dos cinquenta últimos anos da Igreja católica no Brasil escrita por assessores da Conferência Episcopal do Bispos do Brasil – CNBB. Em seguida, considerarei a análise que fazem os cristãos e cristãs sobre o tema “Religião e política” e as articulações que decorrem dela para, num terceiro momento, destacar alguns elementos a considerar na pespectiva de perseguir o sonho cotidiano do Reino.

1a parte: Leitura socio-pastoral da Igreja católica no Brasil

No Brasil assim como um pouco em toda parte do mundo ocidental cristão, a religião passou do primado da instituição ao primado do indivíduo e de um olhar voltado para a transcendência a uma busca de soluções imediatas aos problemas humanos de cada dia.

1.1   Evolução da Igreja Católica de 1950-2000

Inspirando-me da leitura do teólogo brasileiro Alberto Antoniazzi,[iii]  quatro etapas marcam a evolução da Igreja católica nos últimos cinquenta anos.

1.1.1 Em primeiro lugar, a Igreja representava uma sólida instituição tradicional, onde os fieis aceitavam a autoridade da hierarquia eclesiástica para orientar sua fé.

1.1.2 Depois, o acento foi colocado sobre as comunidades. Eram comunidades relativamente pequenas onde a relação entre as pessoas se fazia direta e aconchegante. É a época do crescimento das comunidades eclesiais de base (CEB’s) nos anos 70 e dos “novos movimentos” dos anos mais recentes.

Nos dois casos, as relações de proximidade e de parentesco são importantes, a experiência da fé é alimentada pelo grupo e a doutrina geradora da verdade é aquela que se faz coerente com a experiência da comunidade. Entretanto, as CEB’S e os “novos movimentos” se diferenciam: as primeiras pelo seu engajamento social e as segundas pelo seu caráter emotivo e os laços afetivos instituídos entre as pessoas.

1.1.3 Em seguida, as CEB’S e os “novos movimentos” irão expressar à sua maneira o elemento principal que os caracteriza. As CEB’S acentuam o caráter social do seu engajamento enquanto os “novos movimentos”, não sentindo a necessidade de partilhar sua vida em grupo, preferem seguir o exemplo de alguém qui lhes parece mais autêntico na sua experiência religiosa. É a terceira etapa.

1.1.4 Enfim, quando os cristãos e cristãs dos “novos movimentos” buscam a legitimação de sua fé  no interior de si mesmo – “minha religião, sou eu” dizia um católico não praticante – e que a comunidade não tem mais importância a não ser que ela representa um espaço de supermercado onde o cliente escolhe e compra o que ele quer, os cristãos e cristãs das Comunidades eclesiais de base, tomando consciência de ter priorizado o engajamento político e social prejudicando sua relação com Deus, procuram aprofundar a motivação do seu engajamento. O contexto da presente reflexão toma como pano de fundo a experiência vivida no âmbito destas Comunidades eclesiais de base – CEB’S.

1.2  A Igreja das Comunidades ecclesiais de base (CEB’S)

O que dizer a respeito das Comunidades eclesiais de base ? Retomar alguns traços de sua evolução pode nos ajudar a entender como, em nome de sua fé, cristãos e cristãs descobriram a importância do engajamento político. As CEB’S não são o fruto de uma geração espontânea mas o resultado do engajamento de cristãos e cristãs – bispos, padres, religiosos, religiosas e leigos – formados pela Ação Católica, especialmente JEC, JOC, JUC, e confirmados pela abertura do Concílio Vaticano II, que tomaram o risco de viver a Igreja de maneira diferente. [iv]

“AS ALEGRIAS E AS ESPERANÇAS, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração. Com efeito, a sua comunidade se constitui de homens que, reunidos em Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o Reino do Pai. Eles aceitaram a mensagem da salvação que deve ser proposta a todos. Portanto, a comunidade cristã se sente verdadeiramento solidária com o gênero humano e com sua história.[v]

1.2.1 A hierarquia da Igreja aliada à Elite

O laicato militante da Ação católica se fazia bem presente na sociedade e solidário das “Reformas de base” propostas pelas autoridades governamentais no começo dos anos 60, como o estava também a direção da Conferência dos bispos. Paulo Freire tinha iniciado, com a “pedagogia do oprimido”, o “Movimento de Educação de base” (MEB). Porém o golpe de Estado de 31 de março de 1964 imposto pela força militar fez abortar o projeto. A crise política gerou outra crise no seio do episcopado. Toda a direção da Conferência nacional  dos bispos se demitiu e, em maio do mesmo ano, os “metropolitas” se reuniram e emitiram uma declaração. Apoiaram os militares na sua intenção de libertar o Brasil da ameaça comunista, agradeciam e desejavam que a reconstrução do país se realizasse, inspirada pelo Ensinamento Social da Igreja. O poder mudava mas o episcopado ficava o aliado do poder.

1.2.2        A hierarquia da Igreja  aliada ao povo

Passaram anos e os militares manifestaram pouco a pouco profundas divergências com o Ensinamento Social da Igreja. A realidade tornava-se tão negativa que as simpatias e as expectativas dos bispos para com os militares se deterioram. Também, a Igreja amadurecia na sua vida interna uma nova opção política e pastoral que parecia reverter o “concordato moral” com o poder e as classes dirigentes. Esta opção, resultado do regime militar e da recusa das elites de manter o compromisso tácito da aliança, levou a Igreja como instituição a renunciar à aliança com as elites e a assumir firmemente a solidariedade com o povo. Este passo foi de uma importância capital. O episcopado tomava a decisão de reconstruir a Igreja a partir da “base”, isto é a partir de sua inserção na vida do povo, o que lhe deu grande credibilidade junto a ele. Agentes de pastoral tomaram a iniciativa de sensibilizar as comunidades aos problemas vividos nos seus meios respectivos. Parte da hierarquia apoiava e encorajava a sociedade civil a combater a violência e o autoritarismo. A luta se organizou prioritariamente em torno do acesso à terra e da conquista pela democracia. Apesar de tantos sofrimentos – pois foram anos de confronto com o martírio – faziam-se grandes passos, principalemente no setor da organização e do desenvolvimento de uma mística de ação. Assim os movimentos populares fizeram a conquista de sua autonomia de ação, de reflexão e de formação. .

Aliada ao povo…como “Mestra da Verdade”

Em 1976, o episcopado, abalado pela forte onda de violência, reagiu energicamente com o Comunicado pastoral ao Povo de Deus [vi] e, imediatamente após, em 1977, com o documento Exigências cristãs de uma Ordem política [vii]. Foram opções inequívocas em favor da democratização do país. Era uma tomada de posição como “Mestra da verdade e da ética”. Indicava à sociedade a verdadeira e correta ordem política.

Estes gestos do episcopado desencadearam um movimento nacional : greve aconteceram, evidentemente consideradas ilegais em regime ditatorial, manifestações para a defesa dos direitos à terra e ao terreno urbano  se organizaram, a oposição sindical se articulou como forma alternativa à proposta imposta pelos militares e concentrações se multiplicaram nas diversas regiões do país. O movimento popular ganhou tanto espaço e força que introduziu um movimento nacional  de mobilização para exigir a volta ao Estado civil e as eleições do Presidente da República pela via direta. A força do povo teve ganho sobre o governo militar e as eleições se realizaram em 1985.

Aliada ao povo…como defensora da vontade popular

Em 1986, os bispos reunidos em Conferência publicaram o documento “Por uma nova ordem constitucional”.[viii] Estávamos no momento da elaboração da nova Constituição do país. O episcopado não agia mais como « Mestra da verdade » mas como “defensora da vontade do povo”. Foi um tempo rico em participação. « Todo poder vem do povo e em seu nome é exercido” diz a lei suprema do país. A participação de todos os grupos da sociedade, inclusive das classes pobres, na elaboração da Constituição foi tão generalizada que o documento foi e é chamado “Constituição cidadã”, publicada em 1988.

Celebrava-se a volta ao governo civil e o país tinha sua nova Constituição. Os objetivos previstos pelas CEB”S e pelos movimentos populares estavam realizados embora se encontrassem ainda diante de um futuro indefinido.

1.3 Um período de hesitação

Seguiu-se um período de hesitação: assistimos à desarticulação dos movimentos, à dispersão das forças, ao fechamento dos espaços conquistados em âmbito eclesial, ao abandono, à fuga e à perda de parte da liderança, à perda de visão de conjunto e de motivação, a um vazio de informações, etc. Enfim é como se, com a volta ao governo civil, todos os problemas tivessem sido resolvidos.

Este período de indeterminação permitiu às elites de continuar a manter os pobres na ilusão. O episcopado não tinha mais o vigor e o dinamismo dos anos 70-80. Apartir de 1990, apareceram as novas tendências na Igreja. Priorizava-se o “espiritual”. Sentia-se a influência dos movimentos religiosos internacionais. A hierarquia da Igreja pouco a pouco esqueceu seu compromisso com as « angústias e tristezas do povo” e voltou à sua vida interna, provocando assim uma mudança radical na formação dos seus agentes de pastoral. As CEB’S e os movimentos sociais mais significativos não encontraram nesta reviravolta o ambiente de avaliação, de reflexão e de crescimento desejado e tomaram uma certa distância.

Apesar de tudo isso, o processo.de democratização foi um fator importante para a maturação política dos cristãos e cristãs das CEB’S. Novas questões apareceram, em particular a da militância em partido político. Deve se engajar num partido político ou não ? Em qual partido? Esta questão era demais para os responsáveis conservadores da Igreja. Exerceu-se pressão para forçar as CEB’S a se afastar do engajamento em partido político pois, dizia-se, temos que separar a ação pastoral do engajamento político. A liderança da hierarquia mais conservadora não tinha evoluída e se fechou no seu pensamento tradicional referente ao político enquanto os cristãos e as cristãs evoluiam em pensamento diferente por terem conhecidos experiência diferente. Assim sendo, silenciosamente, por estratégia, afastaram-se da hierarquia da Igreja. O poder oficial cooptou boa parte das lideranças das CEB’S. Enfraqueceu a voz da hierarquia. As CEB’S continuaram a percorrer seu caminho, perdendo porém a visibilidade que tinham anteriormente, garantida pelo prestígio da Conferência dos bispos.

Resultado: prevaleceu para muitos cristãos e cristãs engajados em partido político o projeto pessoal mas para outros, foi um tempo de amadurecimento. Devemos concluir com isso que a volta à democracia, vitória do povo, foi uma ducha de água fria para as CEB’S ? Teriam perdidos a animação e a motivação do engajamento e o símbolo da opção pelos pobres ? O que é que se passou mesmo ? Vamos tentar uma leitura, levantando tres fatores que merecem nossa atenção. [ix]

  1. No tempo da ditadura, todos tinham a impressão de ter e de seguir un projeto de conjunto. Em efeito, a Igreja era o guarda chuva de todos os movimentos populares e dos partidos políticos de esquerda, até então clandestinos. O posicionamento era claro: lutar contra a ditadura. Com a abertura política, apareceram novos espaços e cada um procurou ocupar o lugar que lhe conviesse. O que parecia formar uma unidade se dividiu em múltiplos grupos e, então, todos tomaram consciência de que não existia de fato um projeto político global, alternativo e articulado que pudesse assegurar a união dos diversos setores até então articulados. Seguiu-se grande confusão. A Igreja, nas suas mediações, não tinha percebido a importância de equilibrar sua inserção-fermento com o anúncio de um projeto global. Ela ainda não tinha percebido na sua prática toda a importância do sonho utópico de Jesus Cristo. Foi-lhe difícil entender que toda realização humana, inclusive na política, era limitada e que somente a utopia podia impedir a parada do processo histórico ou sua acomodação. Entendemos então porque, como Igreja, os cristãos e cristãs tinham perdido o “elan” de gerar o NOVO. Com o passar do tempo, tomamos consciência que é a utopia do Evangelho que restabelece o equilíbrio entre as mediações concretas de presença e a comunhão ao sonho. De fato, não é importante que a Igreja ame os pobres mas é importante que os pobres se sintam amados por Deus.

2. O segundo fator a ser lembrado é tudo o que mudou na Igreja após a volta ao Estado civil. No tempo da ditadura, a Igreja tinha renunciado ao poder e chegado a ser solidária do povo, em particular dos pobres. A mudança tinha sido radical. Seu ponto de referência não era mais sua vida interna mas as “angústias e as alegrias” do povo. Realizava na sua prática a articulação entre religião e política. Religião e política se articulavam pela prática do serviço aos pobres. Sua ação era pé no chão, de onde tirava seu dinamismo. Na realidade, ela se encontrava no terreno onde Deus escreve sua história e seus agentes sentiam a necessidade de crescer neste dinamismo para não perder o entusiasmo, o que deu origem à mística que inspirava e unia. Infelizmente, produziu-se uma mudança qualitativa na hierarquia da Igreja que provocou um fechamento sobre ela mesma. A vida do povo não era mais a inspiração de sua modalidade de presença e do agir. Em consequência, as CEB’S viveram período de hesitação com a perda da mediação que alimentava seu engajamento.

3. O terceiro fator se refere aos militantes cristãos. Diversos líderes vindos das CEB’S tiveram acesso ao poder pelo exercício de um mandato. Houve ambiguidade no jeito de exercê-lo. Logo se percebeu que não tinha havido mudança de mentalidade nos militantes de tal maneira que o exercício do poder continuava a se legitimar pela lógica do exercício tradicional da política e não pela perspectiva do serviço ao Bem Comum. Fez-se na prática o que se condenava na teoria. Dito de outra maneira: faltou coerência no exercício do poder. As motivações evangélicas que deveriam ter justificado o agir dos cristãos no exercício do mandato, não existiam mais. Uma ausência de mística na ação.

Uma Igreja Aliada ao povo…como educadora à cidadania

Como seria o hoje da Igreja ? Existem cristãos e cristãs, adeptos de uma prática religiosa espetacular e emotiva que os deixa livres de escolher suas crenças e seus valores morais. Mas não é bem a característica atual pois existem cristãos e cristãs sensíveis à situação de pobreza e de marginalização vivida pela maioria do povo nesta sociedade subjugada à economia mundial. Estes se comprometem com a causa da transformação e com a elaboração de uma nova ordem socio-política e encontram no Evangelho sua fonte de inspiração. Apesar de certos fracassos registrados, a Igreja ganhou experiência. Num seminário de avaliação realizado em junho de 2002, cristãos e cristãs diziam: “Temos a certeza da nossa capacidade e, apesar de tudo, ganhamos pontos. Existem líderes que perseveram e outros  que buscam uma formação que os ajudará a viver sua fé em coerência com sua escolha. Ganhamos também porque descobrimos o caminho que liga fé e vida, religião e política. Enfim, ganhamos uma educação de base madura que criou raízes e o espírito da democracia e a luta pela terra cresceram muito.” [x]

A retomada da articulação das forças vivas da Igreja, justificada pela necessidade de uma avaliação aprofundada dos cristãos e cristãs engajados no movimento “Um outro Brasil é possível” está em fase de afirmação. De um lado, resurge o engajamento político na militância de partidos políticos e de outro lado, as comunidades redescobrem seu papel de educadoras à cidadania.

Após as eleições de 2002, fez-se uma sondagem sobre os políticos eleitos para o Legislativo. Verificou-se que os que receberam formação política nos quadros da Igreja católica tinham sinais de maior qualidade. Porém a sondagem aponta a urgência de uma maior preocupação com o desafio pastoral do acompanhamento espiritual dos políticos conscientes da necessidade de uma mística de ação e com uma formação mais qualificada.

A vitória da oposição em outubro de 2002 marcou a saída de um longo processo histórico. Tinha iniciado nos anos 60 e tomado configuração nas “Reformas de base”, reformas que o golpe do Estado de 1964 levou ao aborto. Entretanto, as sementes tinham caido em terreno fertil e criaram raízes na sociedade por meio das CEB’S, das Associações de bairros, dos núcleos de movimentos sindicais, dos diversos movimentos sociais e das organizações que se tornaram mais tarde ONG. E mais, o documento da CNBB de 2002 sobre as eleições [xi] expressou sem ambiguidade a disposição do episcopado em apoiar o projeto de construção nacional, priorizando a defesa da dignidade e dos Direitos Humanos e o desenvolvimento para todos. Em consequência, as CEB’S tomaram a initiativa de se engajar nas “políticas públicas”. Os bispos manifestaram seu apoio ao projeto do despertar da consciência e continuam a estimular o povo a uma participação efetiva à vida pública. Não pode haver real democracia sem a real participação do povo.

2a parte:  Religião e política [xii]

A perseverança dos cristãos e cristãs das CEB’S em manter o relacionamento entre a fé e a vida sustentou a prática de articulação entre religião e política. E mais, o engajamento pela defesa dos direitos das pessoas e dos grupos sociais, realizado diversas vêzes em contexto ecuménico, permitiu um aprofundamento do laço entre os dois. Entretanto, a prática desta articulação fé-vida ainda é semeada de muitas dificuldades pois elas são como dois caminhos que correm em paralelo. De um lado, a cultura secular de dependência levou o povo a “satanizar” a política, de tal maneira que ainda hoje ela fica nas mãos da elite; por outro lado, a experiência de cristandade “depolitizou” a fé e afastou os cristãos e cristãs do seu engajamento. Podemos então perguntar: é possível lutar contra a injustiça e amar seu inimigo ? Em outras palavras, é possível com a fé cristã articular religião e política ?

Esta pergunta fica constantemente subjacente ao engajamento dos cristãos e cristãs das CEB’S por se encontrar sempre diante de um dilema no seu jeito de viver a Igreja. A atual situação é mais do que evidente: os “novos movimentos” mobilizam a população em torno do religioso; os movimentos sociais, em torno de uma causa a conquistar. Por sua parte, os cristãos e cristãs das CEB’S procuram uma maneira de aproximar os dois: fé na vida. Para eles o engajamento político se tornou a expressão da fé no cotidiano. As manifestações públicas que visavam a expressão das escolhas e das opiniões do povo, o levaram a descobrir a política como participação popular. A política, reconhecida como suja e sórdida, pegou um novo sabor, o do Evangelho.

Chegou o momento de interpelar a fé cristã : o que entendemos por fé ? o que diz a fé ?

2.1  A fé cristã

Falar da fé cristã não é só falar de um engajamento religioso mas de uma opção de vida que, segundo o Evangelho de Jesus, implica uma decisão que engloba tudo. Mateus fala de um tesouro escondido num campo e de uma pérola preciosa.[xiii]  A fé cristã é a adesão a um projeto que exige uma opção total e totalizante. E este projeto é o de Jesus. A fé não é um ato qualquer entre muitos outros nem uma opção ligada a um setor da vida. Ela quer ser une inspiração que orienta a visão, os critérios, as atitudes e a prática de uma pessoa, de um grupo ou de uma comunidade. Ter fé é entrar com Jesus na aventura do Reino, é construir o Reino com Ele, é fazer com Ele o caminho para que o Reino aconteça. Em outras palavras, não basta dizer « Senhor, Senhor » para entrar no Reino pois ele não pertence a todos aqueles e aquelas qui acham que tem direito de entrar nele mas àqueles e àquelas que fazem a Vontade, o projeto do Pai, proposto e relembrado por Jesus. A “fé” sem as obras está morta. Dito isso, podemos afirmar que a fé cristã se expressa principalmente em duas dimensões: religiosa e política. O engajamento religioso é a relação com a transcendência, isto é com o Pai de Jesus e o engajamento político é a relação com a obra do Pai de Jesus, a Criação. Para viver a fé, além do engajamento religioso, deve existir um engajamento ético e a ética exige uma prática em conformidade com a fé. É o viés político da fé cristã. . Consequentemente, falar de política é falar da fé vivida no social, é falar do engajamento na sociedade civil, é falar da participação do povo na vida pública. Neste sentido, a fé cristã implica necessariamente a expressão  religiosa e o engajamento político. O divórcio entre os dois conduz a religião à alienação e a política à idolatria. Entendendo desse jeito a fé, será mais fácil dialogar com todos e todas até com aqueles e aquelas que tem referências e valores diferentes das nossas.

2.2 A política

Fica importante distinguir a política como organização da sociedade e a política como « militância » no seio de um partido político. A primeira concepção é inerente à fé cristã pois se revela como parte constitutiva de sua expressão. Quanto à segunda, apesar de ser essencial à existência da política como organização da sociedade, se apresenta ao cristão  e à cristã como uma opção facultativa entre outras. Vamos elaborar alguns traços de reflexão a respeito de cada uma dessas duas compreensões que, longe de se excluir, se chamam mutuamente para uma realização plena de sua finalidade.

2.2.1        A política como organização da sociedade

A comunidade cristã, a Igreja, não pode desconsiderar o engajamento político como organização da sociedade. É uma questão de existência e de vitalidade para ela. Mais do que nunca, é oportuno e necessário que ela a priorize e lhe dê lugar de destaque. Deve acolhê-la em pé e os dois pés no chão pois é imperativo para ela de se fazer presente nas mais variadas situações revoltantes das maiorias “sem emprego”, “sem teto”, “sem terra”, e dos “sem” de todo típo. Não existe cidadania sem engajamento político e, não existindo, a democracia se torna impossível. Tudo o que é relacionado ao humano é ligado à política.

O texto bíblico do pagamento do tributo a César constitue um fundamento da presenca da Igreja na política. As mais frequentes interpretações deste texto concentram sua atenção sobre a separação das esferas: poder temporal e poder espiritual. Mas pode ser interpretado de outra maneira. Eis a leitura que faz um leigo cristão:

“Façamos a leitura do texto a partir dos direitos de César”, dizia ele. “Quando Jesus diz : “Dá a César o que é de César”, ele reconhece tanto a existência da ordem temporal quanto os deveres que todos devem ter para com ele. Ele chama a atenção sobre a colaboração que devemos ter para que a ordem temporal seja organizada e funcione de maneira a tornar mais fácil  a plena realização de todos os membros da sociedade. Isso tudo tem a ver com a política. O engajamento dos cristãos na política não tem outra finalidade a não ser aquela da plena realização desta exigência”.[xiv]

Convém sublinhar aqui, a título de exemplo, a preciosa colaboração e o testemunho que os participantes dos “Foruns sociais mundiais” – expressão de diversas raças e religiões – oferecem ao mundo inteiro.

A presença da Igreja na política é uma exigência da fé cristã. A sua Doutrina social o relembra e a realidade de hoje o reclama. A política é uma “Terra de missão”.

A. Uma exigência da fé

A necessidade da presença da Igreja na política fica uma exigência da fé cristã. Fazer política é ato essencial  de toda prática do amor evangélico pois é lutar contra a tentação de servir antes de tudo sua carreira individual e é purificar a todo dia o engajamento que permite o ajustamento entre a conduta individual e o serviço ao Bem Comum. É a prática amorosa do Samaritano. O papa Paulo VI considerava a vocação política como a forma mais elevada da caridade. A política feita com amor se dirige a todos e todas e em particular a todos aqueles e aquelas que desconhecemos. Fazer política e ser consequente no seu agir são atitudes cristãs, coerentes e indispensáveis para quem pretende resistir aos novos ídolos imperiais.

Paulo VI escrevia que « a política é uma maneira exigente de viver o engajamento cristão ao serviço dos outros.” [xv]  Aceitando esta afirmação, ninguém pode dizer : «eu não faço política » pois, quem assim fala, na mesma medida, já escolheu fazer a política de recusa do serviço aos outros. A política não pode ser negócio de culto de personalidade nem objeto de idolatria ou de uma simples luta para o poder fora das normas da ética e ainda menos de um comércio de interesses pessoais e corporativos. Fazer política encontra seu símbolo no lava-pés e na perspectiva do SERVIÇO presente no Evangelho onde Jesus se torna a figura do verdadeiro político enquanto Pilatos representa a figura do exercício do poder sacrificando o projeto de vida. Servir o outro na sua dignidade é reencontrar o verdadeiro exercício do poder. Lucas dá um exemplo : « Entre eles houve … uma discussão sobre qual deles deveria ser considerado o maior. Jesus, porém, disse : « Os reis das nações têm poder sobre elas, e  os que sobre elas exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas entre vocês não deverá ser assim. Pelo contrário, o maior entre vocês seja como o mais novo; e quem governa, seja como aquele que serve.”[xvi]

B. O Bem Comum, fundamento teológico do poder

Além de ser uma exigência da fé cristã, a Igreja, na sua Doutrina social, apresenta o Bem Comum como o fundamento teológico do poder, justificando assim o engajamento político.

Vaticano II definia a « política » como o « uso do poder legítimo en vista da conservação do Bem Comum da sociedade”. [xvii]  O papa João Paulo II retomou esta definição acrescentando-lhe que o « Bem comum » é « o conjunto das condições da vida social que permitem aos indivíduos, às famílias e às associações de poder realizar de maneira mais plena e mais fácil sua própria realização, sua própria perfeição, isto é, a plena realização da pessoa.” [xviii] Assim entendido, a política não pode ser a SERVA da economia, como o entendem hoje muitos governantes, mas deve ser a SERVA da plena realização do ser humano e de todos os humanos, a SERVA DA FELICIDADE.

Para que o Bem comum se realize, acrescentava João Paulo II no seu encontro com os políticos «é necessário garantir a todos e todas iguais oportunidades e dar uma atenção especial àqueles e àquelas que, por motivo de saúde ou por causa de sua condição social, correm o risco de ficar para trás.” [xix]  É uma outra maneira de falar da opção pelos pobres. A opção pelos pobres exige o ter cuidado com aqueles e aquelas que, por sua situação de exclusão social, isto é por não ter as condições mínimas de sobrevivência ou por motivos de saúde, não podem participar como os outros e, assim, correm o risco de ficar à margem da sociedade. Fazer política é vigiar pela felicidade de todos e todas, conservando porém um olhar e uma atenção especiais para com os excluídos da vida e da felicidade.

C. A política, terra de missão – Lugar de uma prática do amor evangélico

A política, hoje, é uma « terra de missão ». Por este motivo, ela deve se situar bem no coração da Igreja. A política é uma « terra de missão » porque é um campo da atividade humana bastante desconhecido e visto com preconceitos, especialmente da parte dos militantes cristãos, É também “terra de missão” porque é um campo de atividade onde a tentação do poder se faz muito intensa. O exercício da política nunca foi tão afastado da Doutrina social da Igreja.

A maior parte dos espaços tanto no interior quanto no exterior da Igreja, dominados pelo ídolo-mercado, se fecharam por causa do seu pensamento que se tornou único e autosuficiente e, em nenhum outro momento de sua história, a disputa pelo poder foi tão afastada da busca do Bem comum. As forças que comandaram até o momento presente o Estado brasileiro investiam unicamente na modernização dos “patterns” de consumo das classes ricas, prejudicando portanto o nível de vida das classes dos trabalhadores e trabalhadoras e marginalizando uma parte considerável da população. Não teria sido o dever da Igreja, tomando a sério a sua função profética, de denunciar o afastamento da política do seu sentido cristão ?

É preciso também notar que uma visão política  frágil e mesquinha não se encontra somente nos setores populares não organizados mas nas suas lideranças que não chegam a tomar consciência do que o povo pensa e a entender o seu agir. Prevalece ainda o velho esquema: “Nós sabemos e o povo deve ser ensinado por nós ». A política dos grandes temas relativos à humanidade da pessoa e da sociedade ainda fica muito longe de nossa consciência social e de nossa ação política. Para efetivar uma mudança na vida política, a Igreja não poderia na  programação de formação das comunidades estimular  a participação efetiva dos seus membres à vida pública ? Quão preciosa seria esta contribuição das Igrejas !

Concluindo. A política é uma verdadeira terra de missão pois ela é um lugar de necessária colaboração para que os valores do Reino possam encontrar nela a sua plena realização. Reconhecer a política como uma “terra de missão” é aceitar que o Evangelho aí seja proclamado no que tem de fundamental, isto é que seja proclamada a humanidade do ser humano como universalidade e como realização de Deus.

2.2.2  A política como partido político

Agora temos que falar da política como partido político, como militância em partido político. O que diz a fé cristã a este respeito ? o que diz a Igreja ? o que tem a dizer os cristãos e cristãs ? Documentos oficiais da Igreja católica instituem uma diferença entre a hierarquia que pensa política como serviço ao Bem Comum e o leigo como protagonista da construção do mundo através da militância política partidária. Esta distinção abre espaço para uma perigosa dicotomia: o temporal para os leigos e o espiritual para a hierarquia. Antes de ir mais adiante, eis um testemunho de uma cristã, eleita deputada estadual no Maranhão. Seu engajamento  em diversos setores da vida já tem tempo suficiente para ser experiência a ser relembrada. Vamos ler um trecho do seu discurso de posse:

“Não posso deixar de assinalar, entre os marcos de minha vida, os meus compromissos com minha comunidade de fé, pela força sacramental do Batismo.   Pertenço, conscientemente, a uma Igreja que declarou, na Assembléia dos Senhores Bispos da América Latina, em Puebla, em 1979,  sua opção preferencial pelos pobres, reafirmando, assim, todo o magistério já proclamado muito antes pelo próprio Jesus, principalmente no Sermão da Montanha.   Aprendi, inclusive, através d’Ele, que os mais felizes são “os que ouvem a  Palavra e a põe em prática.

Esta prática é o grande desafio. Ela nos impele a romper com toda estrutura  iníqua de Poder, sem fazer concessões, sem transigências. Ela nos impulsiona a uma ação transformadora da sociedade, a partir do próprio testemunho de vida nas realidades concretas.  Por isso, o papa Paulo VI, ainda em dezembro de 1975, no documento A EVANGELIZAÇÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO, nos exorta a atingir, como que a modificar os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida, que se apresentam em contraste com a Palavra.

O parágrafo 1º do art. 86 do Regimento Interno desta Assembléia me informa que a “Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a Mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”.  Esse dispositivo me faz crer que os critérios de julgamento, os valores que contam, os modelos, os centros de interesse, as linhas de pensamento e as fontes de inspiração que permeiam o agir desta Casa deverão estar em perfeita sintonia com o conteúdo do livro que está sobre a mesa dos trabalhos.   Caso contrário, não passaria de simples adorno, o que não terá sido o pensamento de quem propôs tal regra para este Parlamento.[xx]

O partido político é a mediação necessária para traduzir um projeto de sociedade e é por meio dele que os cidadãos e cidadãs descobrem as perspectivas de um projeto nacional que atenda melhor as necessidades do povo. Ele é absolutamente indispensável.  Importa interrogar o porque da Igreja ter tanta dificuldade em lidar com os partidos políticos. Não aprofundaremos aqui esta questão mas quantas vezes tivemos a oportunidade de nos dar conta que, quando um leigo engajado na comunidade cristã resolve entrar na política partidária e consegue assumir um mandato, logo está sendo abandonado.  Quantas vezes as comunidades cristãs recrutaram candidatos e candidatas para se engajar na política de partido, fizeram campanha eleitoral com eles e acabaram por se afastar deles. O que é que poderia explicar essa dificuldade de relações ?

À primeira vista, poder-se-ia afirmar que o problema não existe e que a Igreja sempre se fez próxima dos partidos políticos tanto da esquerda como da direita mas este jeito de pensar não explica porque os movimentos da Igreja ligados aos partidos políticos tem dificuldade em conservar seu carisma cristão. Após diversos ensaios, numa primeira reflexão, os cristãos e cristãs chegaram à conclusão de que se tratava de uma compreensão errada da relação entre religião e política..

Explico: existe uma situação de dois pesos duas medidas qui explicita a desigualdade no jogo. De um lado, verifica-se a relação de boa vizinhança mantida pelos movimentos católicos conservadores com os partidos políticos conservadores ou com os partidos que tem o colorido cristão, criados ou não pela Igreja ou apoiados por ela. Porque será que estes partidos são sempre aceitos e vistos como algo desejável ? Por outro lado, nota-se que certos agentes de Igreja e políticos são profundamente incomodados quando as pastorais e os movimentos, em razão de suas posições e práticas, se aproximam e agem, em certas circunstâncias, em acordo com os partidos políticos de esquerda que tem propostas e práticas inovadoras e perseguem o objetivo da justiça.  Porque será que assim aconteça ?

A primeira situação parece dizer que de fato devemos separar religião e política do mesmo jeito que separamos economia e direitos sociais, política e justiça. Separando a religião da política, tem-se a certeza de que o cristão engajado ficará no terreno das preocupações internas da Igreja e que o político ficará também sobre o seu próprio terreno. É uma compreensão pelo menos estranha da relação entre religião e política. É uma compreensão que expressa claramente o fechamento sobre a sua esfera de poder. Assim concebendo, não estaríamos diante de uma concepção errada da política e do Evangelho ? Pois bem, separando religião e política, estamos expressando uma crise de perspectiva e uma impossibilidade de compreender as mudanças sociais e políticas e em particular de compreender a razão da vinda de Jesus. Fazer política, não seria proclamar e tornar efetivos os valores inerentes à condição humana ? Perder a dimensão do universal e consequentemente do sentido pleno e singular da política e do Evangelho, é comprometer seriamente a missão da Igreja.

2.2.3    Aproximar-se não é assimilar

Pelo visto, faz-se necessário estabelecer uma justa relacão entre religião e política, o que não significa confundí-las. Não se trata de transformar os movimentos e\ou as ações das Igrejas em instrumentos de partidos políticos mas de entender que existem diversas maneiras de lutar em defesa da vida e que existem diversos rostos de expressão do amor concreto e histórico,  todos porém construindo o Reino.

Os cristãos e as cristãs teriam vantagem em se aproximar das pessoas de boa vontade, organizadas em movimentos e\ou partidos políticos, que no seu compromisso cotidiano expressam a disposição de dar os passos necessários para construir o Reino prometido e já realizado pela Vida, Morte e Ressurreição de Jesus. Neste sentido, os partidos políticos de esquerda e o Evangelho tem uma cumplicidade surpreendente pois tanto os partidos quanto o Evangelho são fermento, sal e luz. Eles indicam claramente o lugar e a importância radical da força transformadora do Evangelho, são inspiradores de novos projetos sociais, políticos, econômicos, culturais e espirituais e, também,  engendram a Esperança no coração da humanidade ainda mantida presa pelas elites dominantes. A humanidade tem necessidade da presença espiritualmente  revolucionária dos discípulos de Jesus. É uma urgência.

Fazer-se presente nos partidos políticos, animá-los, encorajá-los, comprometer-se com eles para que um dia a sociedade tenha capacidade de gerir seu próprio destino e de depender cada vez menos  de mecanismos de contrôle e de repressão é uma outra maneira de aproximar religião e política sem confundí-las. Aliás, isso faz parte também da missão das Igrejas. Seria uma outra maneira para os cristãos e as cristãs de ajudar os partidos a reconhecer que o povo, em particular os pobres, devem ser mesmo os protagonistas do seu futuro e que isso se conquista com muita luta. Até hoje, os pobres sempre foram e estão em terceiro lugar. Na verdade, há sempre alguém que está aí para decidir por eles. Há sempre alguém para dizer o que eles pensam, o que eles querem  e até para explicar o que eles dizem, o que fazem, o que eles querem dizer e o que eles querem fazer. Quando não é o Estado, é o partido político. O dia em que os pobres exercerão o seu poder de decisão, o Reino estará próximo. Engajar-se “utopicamente” nesta missão histórica é praticar o Evangelho no que ele tem de mais dinâmico.

Assim fazendo, as Igrejas contribuirão a enfraquecer a falsa sede de poder que habita ainda em tantas pessoas e os partidos políticos sedentos do Bem Comum se encontrarão com o Evangelho na universalidade da pessoa humana, coração da prática evangélica.

2.3 A fé cristã, um encontro da religião com a política e da política com a religião

Religião e política são dois componentes da fé cristã. Porém ela não é instrumento técnico delas pois ambas tem sua autonomia. A fé as ilumina e as orienta. Como isto pode ocorrer ? A fé cristã é um processo de adesão a uma nova maneira de SER. Ela age como luz, fruto de uma opção pessoal de vida e de uma longa caminhada de comunhão  e de conversão a Jesus Cristo e a seu projeto. E esta luz ilumina a religião e a política de acordo com o jeito cristão de ser. Em outras palavras, sem uma experiência profunda de Jesus Cristo e de seu projeto, a fé cristã não pode pretender de maneira alguma iluminar a religião e a política. Assim sendo, é só a partir de um testemunho de Jesus que um cristão e uma cristã podem descobrir as interações entre a religião e a política. A prática de Jesus revela o amor do Pai para com seus filhos e anuncia a realização próxima do Reino, isto é, Ele anuncia um mundo governado de acordo com a vontade do Criador, liberto de todo mal e de toda injustiça, de todo sofrimento e de toda dor, restabelecendo em sua integridade as relações da humanidade com Deus, com seus semelhantes e com o mundo.

2.3.1  As contribuições da fé cristã à política

O que diz a fé cristã à política ? Como pode iluminá-la ? Tomando como referência o testemunho de Jesus, podemos destacar tres valores: o exercício do poder, a prioridade dada às pessoas e a Esperança. Essas três contribuições da fé cristã podem iluminar o exercício da política. Vejamos.

“Quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês” [xxi], dizia Jesus. O poder só pode ser exercido para o serviço do Bem Comum, pois o verdadeiro poder reside na dignidade da pessoa humana. Ele não se exerce por imposição, arrogância, egoismo e ambição mas pela gratuidade do amor. Tal exercício do poder supõe uma tomada de consciência de seus limites e da maneira de vivê-los em ligação constante com a sociedade civil. Tal exercício do poder consiste em viver a verdade não toda feita com antecedência mas verdade que se descobre por um esforço constante de participação e de comunicação.

A fé cristã relembra também à política que o Bem Comum só pode ser conquistado por uma luta constante em favor de um projeto a serviço das pessoas e jamais contra as pessoas. Para que esse projeto fique em acordo com o Evangelho, o engajamento implica uma luta contra a injustiça junto a uma constante busca de amor do inimigo. Esta dimensão tem para o Evangelho uma importância capital. É ela que ajuda os políticos a aprofundar suas relações entre eles e a descobrir as diversas tendências de busca do Bem Comum muitas vezes expressas nos partidos políticos nos quais militam.

Enfim, a fé cristã dinamiza o processo político alimentando a Esperança através da paciência histórica sem exigir portanto a eficácia e os resultados imediatos. A precipitação afasta as pessoas e muitas vezes as impede de assumir seu papel de protagonista de sua história. A Esperança não é uma simples  renovação de repetir o que já aconteceu mas é um futuro aberto para um novo começo, superior ao primeiro. Quanta riqueza para um povo conquistador do seu futuro !

 2.3.2  As contribuições da fé cristã à religião

Agora, o que diz a fé cristã à religião ? A fé cristã reconhece a autonomia da política e lhe reconhece a competência que tem para elaborar um projeto de vida em sociedade que permite a realização do Bem Comum. Porém, é necessário também reconhecer que, em geral, as pessoas tem tendência em se unir mais em torno de projetos de emergência e de assistência que melhoram as condições de vida a curto prazo mais do que em torno de projetos que, para servir o Bem Comum, exigem uma mudança profunda e estrutural. Não é raro constatar que, quando um projeto exige uma mudança em profundidade, as pessoas tem tendência em tomar distância, a resistir e até a excluir os protagonistas da mudança. Esta reação explicita bem a visão que muitos cristãos e cristãs tinham no tempo da ditadura no Brasil. Queria-se a mudança mas qual mudança? E esse agir era, de fato, em fidelidade à sua religião. Quantos afastamentos ! Quantas recusas ! Qual é essa fé que inspira uma tal religião ?

Sim, a fé cristã deve também questionar a religião. Em nome de qual deus a religião não autorizaria a união dos cristãos e cristãs em torno de reformas profundas de mudança ? Em nome de qual deus a religião justificaria ainda o processo secular de dominação e de conformismo ? Em nome de qual deus a religião substituiria a sua voz profética por favores recebidos ou a receber ? Em nome de qual deus a religião permitiria a submissão para manter prestígio e privilégio ? Não seria certamente em nome do Deus de Jesus ! Em efeito, a fé cristã deve interrogar a qualidade da religião dos cristãos e das cristãs.

A fé cristã relembra aos cristãos e cristãs que ela promove um projeto de sociedade onde devem ser vividos a dignidade, o respeito, o amor, a partilha dos bens e a participação e que são chamados a colaborar não somente pela contestação et pela crítica mas também por uma colaboração efetiva.

Digamos, para resumir, que se a fé cristã convida a política a mudar o projeto de sociedade para que ele seja realmente ao serviço do Bem Comum, ela convida tamtém a religião a mudar a concepção do seu deus. A fé cristã, aquela do Evangelho de Jesus, inspira e ilumina a religião e a política. Ela dá coragem, disposição e dinamismo e leva a ingressar na dinâmica da mudança.

2.3.3  Política e religião se encontram para realizar um sonho

Quando política e religião iluminadas pela fé cristã se encontram, elas se situam bem no centro do projeto de Jesus que é o projeto de Deus sobre o mundo. E neste projeto há espaço suficiente para que todo ser humano possa colaborar à sua realização concreta. A articulação entre as duas é possível por meio da opção pelos pobres, dos excluídos, dos que vivem à margem da sociedade.. Em efeito, o que une na fé cristã a religião e a política é a busca da libertação dos pobres e o que cria a comunhão entre o político e o cristão é a opção sem equívoco pela felicidade de todos os seres humanos, pela busca do Bem Comum. Os dois, cristão e político, se encontram quando eles lutam com gratuidade e despojados de interesses pessoais num projeto de comunhão e de fraternidade em favor do povo, dando prioridade aos mais pobres. O político ajuda o cristão a descobrir que o verdadeiro poder reside na conquista da cidadania e o cristão ajuda o político dinamizando seu quotidiano na perspectiva do “já realizado” e do “ainda não”. Na fé cristã não se pode separar religião e política. Unidas, elas permitem a mudança do mundo no qual vivemos e constrõem o Reino. São os dois rostos inseparáveis do Evangelho.

Quando a gente se engaja a colaborar na mudança do modelo de vida em sociedade para que esteja em coerência com o projeto de Deus, estamos fazendo política e quando tomamos cuidado da qualidade do nosso engajamento que ilumina e inspira o percurso na realização deste projeto, estamos vivendo a fé. Assim sendo, não podemos falar nem de política cristã e nem de política neutra. Falando desse jeito seria ressuscitar a sombra de Pilatos. O Evangelho de comunhão só pode se viver num engajamento solidário dos políticos e dos cristãos num projeto de sociedade que renova a face da terra.

Religião e política na fé cristã se unem para realizar um sonho. É o sonho a serviço de uma utopia. É o sonho de um mundo onde a dignidade de cada um e de cada uma é reconhecida, onde reina a liberdade, onde os direitos humanos são respeitados, onde as condições mínimas de vida são asseguradas, onde existirão novas relações de igualdade, de respeito, de autenticidade, onde o outro não será em primeiro lugar um inimigo mas será aceito como uma parte de si mesmo, onde todos terão acesso às riquezas, onde todos e todas se respeitarão e viverão sua autonomia na cumplicidade das diferenças e onde será reconhecido definitivamente o Pai de Jesus.

A. Alguns elementos a levar em conta

Como fazer para que a política, no Brasil, seja o que deve ser, isto é a “arte do possível”? Como fazer para que o projeto do Deus de Jesus Cristo se torne realidade ? Para melhor entendimento, vamos considerar tres elementos : o Reino de Deus, o diálogo e a clareza a respeito das suplências e, para terminar, algumas considerações referentes à situação política atual do Brasil. [xxii]

1. No centro: O Reino de Deus

Jesus relembrava que tinha vindo para que « houvesse vida em abundância ». Quando buscamos articular religião e política, não podemos esquecer o fundamentalismo, o integrismo e a cristandade vividos pela Igreja católica e não podemos esquecer que, no decorrer desta história, ela buscou sua sobrevivência na política. Nesta reflexão que ora fazemos, não temos a preocupação da promoção e da afirmação da Igreja em si mas a do avanço do projeto de Jesus, projeto do Reino. A vida de Deus neste mundo foi maculada. A vida humana e seu meio ambiente são seriamente comprometidos. Eis a razão porque, parece-me, que articular religião e política na fé cristã é acreditar que Jesus veio neste mundo para libertar a vida e que nossa responsabilidade consiste em trabalhar para que aconteça.

2.  O diálogo

A necessidade do diálogo constitue outro elemento importante para que religião e política se articulem bem. Nós católicos, cristãos e cristãs não somos os únicos a lutar para construir o Reino. Existe muita gente de diversas religiões e de diversos outros movimentos que até podem não fazer referência a nenhuma inspiração religiosa mas que tem o espírito da vida. Em razão de nossa fé somos incentivados e impelidos a construir o Reino com todas essas pessoas de crenças e de referências diferentes das nossas. Em razão de nossa fé, somos parceiros. Não temos o privilégio e nem a responsabilidade de construir sózinhos o Reino. Somos todos e todas chamados. O espírito que deve nos guiar na articulação da religião e da política não é aquele de « nós fazemos e os outros, não” mas aquele que, pelo diálogo, numa convergência de forças e numa complementariedade de inspirações, nos chama a servir o único Espírito que sopra onde quer. Este Espírito sopra tanto nas religiões quanto fora delas. É o que nos permite construir juntos a vida e a felicidade que, cristãos e cristãs,  denominamos de « projeto do Reino de Deus ». O ecumenismo, o diálogo interreligioso e a capacidade de diálogo com aqueles e aquelas que tem sua inspiração fundada até fora da religião não somente são possíveis e oportunos mas necessários pois ninguém esgota o tamanho da tarefa da construção do Reino no campo social. Temos necessidade de todos e todas. É o espírito da presente pesquisa e reflexão.

Entretanto, como cristão e cristã, neste diálogo, temos algo específico a dar : a ESPERANÇA. Carregamos com os outros uma utopia, um sonho que nenhuma mediação histórica esgotará. Carregamos a Esperança que vem da certeza que, neste poço da vida da história, Jesus Cristo, aquele que o Pai ressuscitou, já se banhou. Temos a Esperança que esta construção do Reino será realizada.

3. A clareza nas suplências

Faço apenas menção de um terceiro elemento necessário  para uma justa articulação da religião e da política, o do discernimento nas suplências. Existem coisas que fazem parte da natureza da Igreja, de sua missão e que lhes são essenciais et existem outras que são apenas provisórias. Esta distinção tem que ser feita pois misturar o essencial e o provisório só dificultaria a articulação e conduziria a equívocos e ambiguidades difíceis de superar.

B.  Um agir na conjuntura política atual do Brasil

Os cristãos e cristãs das comunidades eclesiais de base tem uma longa experiência de engajamento social e político. As eleições dos últimos anos são o resultado de todos esses anos de fracassos, de angústias, de demorados sofrimentos, de teimosia no trabalho e de uma fé profunda que sempre os sustentou. A chegada de um operário sem diploma na presidência da República e a eleição do governador atual no Maranhão, apesar de todas as suas ambiguidades e limitações, são resultados inéditos. Somos cada vez mais conscientes da necessidade da participação popular para continuar e sustentar o espaço conquistado na construção do Reino. Ouso apresentar algumas orientações :

1. Em primeiro lugar, relembramos que a democratia necessita ser solidificada. Infelizmente não será possível fazê-lo enquanto os políticos continuarão a defender seus interesses pessoais numa promiscuidade entre o público e o privado. Haverá eleições municipais num futuro próximo em todo o país. Uma primeira tarefa consistirá em enfrentar estes equívocos, num trabalho articulado, aberto e corajoso, a ser proposto de maneira clara às comunidades pedindo lhes que iniciem um novo processo de participação, desta vez mais coerente, dos cristãos e cristãs na política. Para que aconteça, dever-se-á priorizar a formação permanente do trabalhador e da trabalhadora socializando o conhecimento e acentuar a mística do serviço.

2. Em segundo lugar, constatamos que quando os partidos políticos e os próprios políticos originados dos movimentos sociais chegam ao poder, duas alternativas se apresentam a eles: ou assumem responsabilidades e se integram ao poder –  corre-se nesse caso o risco de ser cooptados – ou optam por não participar do governo. Fiscalizam os engajamentos eleitorais e,  sem perceber, chegam a alimentar uma oposição que apenas gosta de se apropriar de toda crítica popular. Entre estes dois extremos  os movimentos populares deverão encontrar um espaço que seja o seu, isto é um espaço onde a autonomia e a capacidade crítica estejam a serviço de um novo projeto para o Brasil e para o Maranhão.

3. Em terceiro lugar, relembramos que, por medo de implicar a comunidade em opções de partido político, a hierarquia da Igreja católica insiste para que se deixe exclusivamente a cada cristão e cristã o direito de definir seu critério subjetivo que o conduzirá à escolha do seu candidato, critério que, supõe-se, estaria em correspondência aos valores evangélicos que a Igreja tem costume de pregar. Infelizmente,  este posicionamento fragiliza o prestígio dos partidos que são mediações indispensáveis para concretizar qualquer ideal político.

Este posicionamento, na situação atual, arrisca prejudicar muito o processo político eleitoral pois, além do partido, não temos ainda outra mediação organizada que pudesse se tornar instrumento auxiliar para ajudar o discernimento político, indispensável tanto para identificar os valores em jogo nas propostas políticas quanto para desmascarar as práticas de quem emprega a política para pervertir suas verdadeiras finalidades.

Enfim, digamos que essa opção doutrinal de natureza subjetiva falha pela sua incoerência,  pois a pretensa neutralidade da comunidade, na realidade, se torna pretexto para evitar o engajamento e muitas vezes esconde uma sutil cumplicidade. Nestes termos, a pregação teórica se torna ineficaz e perde sua credibilidade.

Dito isso, percebe-se a urgência de uma « pastoral política », nesta “terra de missão” para criar uma mediação necessária entre os princípios doutrinais e o engajamento dos cristãos e cristãs. Sem ela, continuar-se-á a prática do divórcio entre a religião e a política, prejudicando as duas e, com certeza, a fé cristã.

Conclusão

Na fé cristã, religião e política se encontram. As duas tem a mesma finalidade, a FELICIDADE de todos os seres humanos. E o seu ponto de encontro é a opção pelos pobres e excluídos pois eles são o sinal evidente das fraquezas de um projeto de sociedade caracterizado pelas desigualdades e ausência de fraternidade. Unir religião e política é questão de identidade que se impõe a todo cristão e cristã pois o projeto de Deus chamado de Reino tira suas raízes na experiência vivida, transcende-a e revela Deus. Jesus se inseriu na história apropriando-se de todas as dimensões da vida humana, inclusive os conditionamentos materiais e socio-econômicos, mostrando assim que todas as dimensões, independentes de sua referência eclesial, possuem um valor divino e teologal. A política, na medida em que integra as dimensões da reciprocidade, da solidariedade e da justiça, expressa sua vontade e concretiza o que Jesus quis e realizou.

 



[i] RACE, Alan, Les idoles de la sécurité, citado por Timothy RADCLIFFE, Que votre joie soit parfaite, Paris/Montréal, Cerf/Fides, 2002, p. 265.

[ii] RIBEIRO DE OLIVEIRA, Pedro A, Análise de conjuntura, CNBB, novembro 2002.

[iii] ANTONIAZZI, Antônio, “Leitura socio-pastoral da Igreja no Brasil (1960-2000)”, em Conjuntura Social e Documentação, CNBB, nos 638, 641, 642, 644.

[iv] BANDEIRA, Marina, A Igreja Católica na Virada da Questão Social, (1930-64), Rio de Janeiro, Vozes-Educam, 2000, p. 279-351.

[v] VATICANO II, “Igreja no mundo de hoje”, em Concílio ecuménico Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1966, p. 137.

[vi] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 8 (série azul).

[vii] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 10 (série azul).

[viii] Documentos da CNBB, Ed. Paulinas, no 36 (série azul).

[ix] ASSELIN, Victor, “Política, terra de missão”, seminário sobre “Fé e política”, Balsas, Ma, Brasil, 25-27 junho 2002, p. 4-5.

[x] Id., p. 5.

[xi] Eleições 2002, Propostas para reflexão, Documentos da CNBB, no 67 (série azul).

[xii] ASSELIN, Victor, “Política, terra de Missão”, texto de estudo, Balsas, Ma, Brasil, junho 2002.

[xiii] Mt. 13, 44-46.

[xiv] SAMPAIO, Plínio de Arruda, Notas, Seminário “Fé e Politica”, Balsas, Ma, Brasil, 25-27 de junho de 2002.

[xv] Paulo VI,  Octogesima Adveniens, no. 46.

[xvi] Lc 22, 24-26.

[xvii] VATICANO II, A Igreja no mundo de hoje, 74, dans Documentos do Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 1966.

[xviii] JOÃO PAULO II, Jubileu dos Políticos, 2000.

[xix] Id.

[xx] HELUY, Helena, “Discurso de posse” na Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão, 01 de fevereiro de 2001.

[xxi] Mc 10, 43.

[xxii] MASSERDOTTI, Dom Franco, palestra “Política, terra de Missão”, Seminário Balsas, 25 junho 2002.

Conferência pronunciada  em francês no Seminário organizado pela Universidade Saint-Paul, Ottawa, Ontario, Canadá com o tema FÉ CRISTÃ E POLÍTICA, no dia 28 de fevereiro de 2003, publicada na revista « Sciences Pastorales » da Faculdade das Ciências Humanas da mesma Universidade, vol 23, nº 1, 2004, p. 55-79, traduzida em português pelo autor e atualizada em julho 2007.

Victor Asselin, sacerdote da diocese de Nicolet, Québec, Canada, exerce seu ministério há mais de 40 anos na região do Maranhão, Brasil. Iniciou seu trabalho pastoral  na diocese de Pinheiro em 1966, foi o coordenador da Pastoral desta  Diocese,  primeiro coordenador das Comunidades Eclesiais de Base pelo Maranhão, membro fundador da Comissão Pastoral Nacional da Terra, da qual foi seu primeiro Vice-presidente de 1975-1980,  fundador desta mesma Comissão no Maranhão em 1976. diretor da Rádio Educadora e diretor da Cáritas Maranhão. Fez direito na Universidade Federal do Maranhão e passou a exercer advocacia na prática da defesa dos direitos dos mais pobres e da conquista da cidadania, além de exercer o magistério no início das atividades do IESMA. Sempre se interessou pela política e chegou a exercer funcões em prefeituras do Estado.

RESUMO

A fé cristã e a política podem se articular e conviver juntas ?  Para nos convidar a uma reflexão sobre as relações necessárias entre ambas, o autor explica o intenso esforço que fizeram as Comunidades eclesiais de base  através de sua prática pastoral. Recusando de se fechar em problemáticas internas às Igrejas e tomando distância de um puro engajamento social sem motivações desinteressadas, os membros das CEBS tentaram descobrir como realizar o Reino num  agir político inspirado pela fé cristã. O autor também questiona: porque os bispos tem tanto medo da política ? Onde religião e política se encontram ? O que a utopia do Reino e a Esperança cristã tem a fornecer como contribuição para a construção social ?