Carta aberta ao Governador eleito JACKSON LAGO

CARTA  ABERTA  AO  GOVERNADOR  ELEITO  JACKSON  LAGO 

                                               São Luis, 30 de outubro de 2006

Meu caro Jackson,

      Atravessou-se o mar Vermelho! Senhor Governador eleito, o povo do Maranhão acaba de escolher o caminho da mudança. Antes de mais nada gostaria de parabenizar o povo pela sua coragem e solidariedade por este gesto que o engrandece, gesto que marcará o seu futuro. Gostaria também de externar a minha admiração aos militantes e dirigentes dos partidos políticos que tiveram a ousadia e a perseverança de manter-se unidos até o fim, fato inédito na história do Estado. O passado já tinha gravado diversas oportunidades perdidas. Graças a Deus, chegou a maturidade tão desejada. E a você, Jackson, PARABÉNS. Foi o escolhido para manter abertos os espaços da liberdade conquistada ao longo desses anos com muitos trabalhos, desgastos  e sofrimentos. Por isso, neste momento, não posso deixar de relembrar todas as lideranças que deram sua vida por esta causa e que gostariam tanto de estar aqui para celebrar este dia. A eleição de 2006 apresentou ao povo a proposta de pôr fim à sua marginalização, à sua pobreza e até ao seu estado de miséria. A maioria respondeu: SIM.

      Assim sendo, estamos do outro lado do Mar Vermelho mas precisamos, para continuar a paráfrase do texto bíblico da libertação do povo da escravidão imposta pelo Faraó no Egíto, iniciar a travessia do deserto para chegar com segurança à Terra Prometida. Essa caminhada será a etapa mais difícil pois, haverá para uns a tentação de acreditar que era tão bom quando se vivia numa relação de dependência e para outros a saudade da mordomia da CASA GRANDE. Permita-me, meu caro Jackson, elaborar algumas reflexões que tem até conotações de sugestões pois, após tantos anos de trabalho junto ao povo de diversos municípios deste Estado, procurando despertá-lo para a conquista de sua cidadania, sinto-me impelido a escrever esta carta com simplicidade e sinceridade. Não o faço em nome e a pedido de ninguém a não ser de mim mesmo.

     Meu caro, você foi eleito pelo povo para não entrar mais na CASA GRANDE mas para junto a ele descobrir o caminho do futuro. Você não pode mais entrar nesta casa apesar dela ainda ser habitada por muita gente que o pressionará a estabelecer aí seu mandato pois, será difícil para esses moradores aceitar a perda ou renunciar a seus privilégios. O povo lhe deu o mandato de descobrir com ele a nova modalidade de Governar. Pois é, meu caro Jackson, você foi eleito Governador com esses dois grandes inimigos que o esperam: os inquilinos e o próprio prédio da CASA GRANDE. Em efeito, enquanto ela existir, existirá sempre a tentação de habitá-la. São os primeiros obstáculos na caminhada do deserto. Tarefa gigante ! Mas vale a pena para imortalizar o acontecimento na História do Maranhão.

      No decorrer desta campanha, você fez muitas promessas. Entre todas elas, uma deverá nortear seu mandato e não poderá ser sacrificada por qualquer motivo que seja : a de efetuar a mudança em aliança com o povo. Por isso, sua equipe será certamente composta de pessoas comprometidas com a mudança do jeito de governar além de serem pessoas que acreditam no povo. Você destacou nas suas conversas com o povo a proposta da MUNICIPALIZAÇÃO. Pois é, MUNICIPALIZAR é devolver o PODER ao Povo. Sonho com você a criação de uma equipe de pessoas que, acreditando na capacidade do povo, orientará sua política de ação numa constante descentralização de decisões. Impressiona-me em pensar que a CASA GRANDE só se tornará mais fraca a cada passo dado para a Municipalização e sem dúvida será  motivo para seus inquilinos abandoná-la.

      Sua história, Jackson, o levou a participar da elaboração da Constituição de 1988 que passou a se chamar “Constituição cidadã” pois nela foram escritas conquistas do povo e nela se encontra consagrada a proposta do novo modelo de Governar que você apresentou ao povo. Ocorre que essa proposta de MUNICIPALIZAÇÃO fica ainda muito desconhecida do povo e que, infelizmente, ainda não chegou a criar raízes no cotidiano dos municípios por não ter cativado os prefeitos. Em efeito, os Constituintes reconheceram o MUNICíPIO como “ente federativo”, equiparando-o ao Estado e à União, dando-lhe autonomia, criando os Conselhos Municipais com o poder de decisão na definição das políticas locais e incentivando a participação popular através das audiências públicas e outros mecanismos aí definidos mas, infelizmente, pouco se fez nos municípios para efetuar a mudança. Dezoito anos se passaram.

     Bem sabe que MUNICIPALIZAR não é gerenciar como ocorreu nos últimos anos no Maranhão. Já pensou se o Governo do Estado pudesse ajudar os prefeitos a assumir a responsabilidade de servir aos interesses do povo, administrando com seriedade e honestidade e a não mais se comportar prioritariamente como cabo eleitoral do governador ? Já pensou se o Governo do Estado pudesse ajudar a criar os Conselhos Municipais para que sejam compostos de representantes dos diversos segmentos da população como o orienta a legislação do país e não mais, quando existem, com pessoas, em muitos casos, parentes ou políticos amigos do prefeito? Já pensou se o Governo do Estado pudesse implementar a participação popular  nas diversas regiões do Estado para que chegue a definir as necessidades de sua região e a se comprometer com a sua realização ? Creio que é isso MUNICIPALIZAR como o expressou tão bem ao povo ?

     Definir a MUNICIPALIZAÇÃO como meta prioritária é incentivar a PARTICIPAÇÃO e consequentemente, afastar a miséria e a pobreza ainda reinantes em diversos rincões do interior e das cidades. Tenho certeza que, assim o fazendo, terá o orgulho de constatar o crescimento da auto-estima do povo e estará escrevendo uma bela página de História pois estará diante de um povo que afirmará sua DIGNIDADE.

     A melhoria da educação, da saúde, do transporte, da segurança, da infra-estrutura, enfim de todas as necessidades é importante e tem que ser feito, sim, mas sem os esforços para mudar a mentalidade inculturada no povo pelos donos históricos da CASA GRANDE manterá a relação de dependência e dos favores por um lado, e por outro lado sustentará o paternalismo e o assistencialismo de certos políticos que assim o praticam para se manter e se perpetuar no poder.

     E porque não criar a Secretaria da Cidadania que teria como objetivo a promoção da mudança de estilo de Governo, dando-lhe os meios humanos e financeiros para que seja capaz de promover tal trabalho, tanto a nível interno quanto a nivel dos municípios ? Será um sinal de que a mudança do estilo de GOVERNAR está acontecendo mesmo. E nas diversas regiões do Estado, esta Secretaria encontrará certamente parceiros.

     Meu caro Jackson, finalizo com os votos de sucesso pois a Esperança está no ar. Não há lugar para semear a dúvida e ainda menos para construir a decepção. No mutirão das forças unidas é possível sonhar um outro Maranhão.

                                                                Victor Asselin